ANÁLISE POLÍTICA

Ramos: confusão, morte e destruição no governo

Silvio Grimaldo · 11 de Dezembro de 2020 às 18:25

É de se esperar que o presidente Jair Bolsonaro desloque o atual ministro da Segov para uma posição em que a sua incompetência seja menos letal

Há quem julgue o General Ramos um grande estrategista por ter ele aquele jeito sorrateiro e furtivo de agir, característico dos oficiais treinados nas Forças Especiais ou em Ações de Comandos, que consiste basicamente em infiltração profunda nas linhas inimigas, sabotagem e ataque aos inimigos desde sua retaguarda.

“O máximo de confusão, morte e destruição na retaguarda do inimigo” é o lema do Batalhão de Ações de Comandos do exército, onde Ramos recebeu treinamento. Esse tipo de operação certamente funciona em outros contextos, mas, na política, Ramos só acumula confusão, baixas e destruição na retaguarda do próprio governo, o que nos faz perguntar de que lado ele realmente está.

A incompetência do general na articulação política é sentida em todo o Executivo. É cada vez mais comum ouvir reclamações dos bastidores de Brasília, tanto de ministros quanto de assessores do Planalto, a respeito do péssimo desempenho e das demasiadas interferências do general. De líderes dos partidos de centro que caminham para a base de Bolsonaro, a reclamação é pesada: Ramos promete, mas não cumpre. Já da parte do Centrão ligada ao deputado Rodrigo Maia, por outro lado, só ouvimos elogios. E não sem razão: partidos como PSDB, PT e MDB controlam sozinhos a maior fatia das emendas parlamentares pagas pelo governo.

Em 2019, apenas 6% das despesas discricionárias do Executivo foram utilizadas para pagamento de emendas parlamentares, e mesmo assim o ex-ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni conseguiu aprovar a reforma da previdência. Em 2020, o general Ramos fez com que o gasto do Executivo em emendas parlamentares subisse para 15% das despesas discricionárias e nenhuma das reformas importantes do governo foi aprovada neste ano. Ou seja, o ministro trapalhão praticamente triplicou o custo do relacionamento do governo com o Congresso, mas a longa lista de projetos importantes para o país na Câmara e no Senado continua travada.

Essa estratégia ― entregar cada vez mais verbas não obrigatórias do Tesouro Nacional para o Congresso a troco de nada ― amarra as mãos dos ministérios, que ficam com cada vez menos dinheiro para tocar a agenda própria do governo, tornando ainda mais difícil para o presidente executar aquilo que ele foi eleito para executar. Com isso, a reclamação na Esplanada dos Ministérios a respeito dessa pesada e dispendiosa máquina de agradar amigos do ministro Ramos é geral.

Além da excessiva liberalidade com recursos do Tesouro Nacional no trato com o Congresso, o general Ramos comete erros políticos que podem prejudicar ainda mais a frágil relação do Presidente Bolsonaro com os novos partidos da base aliada. Por exemplo, o deputado Roberto Lucena está convicto de que assumirá o Ministério do Turismo em fevereiro de 2021. Lucena é membro da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados; sua futura indicação, porém, atende menos a critérios técnicos do que a uma negociação pelos votos do Podemos em favor de Arthur Lira, candidato apoiado pelo governo, para a presidência da Câmara. O problema, na minha opinião, é que Lucena tem poucas chances reais de ser nomeado ministro. Bolsonaro, apesar de todas as dificuldades, conseguiu evitar a política do toma-lá-dá-cá, não entregando ministério algum de porteira fechada para partidos políticos em troca de apoio no Congresso, e não há nenhum indício de que ele esteja disposto a mudar de postura agora. A determinação de Bolsonaro de não dissolver o governo na política fisiológica dos partidos sempre foi clara para todos seus apoiadores e aliados, mas o general Ramos parece não tê-la compreendido até hoje. Em política, promessa não cumprida tem suas consequências, e ninguém sabe como o Podemos (e o bloco do centrão) irá reagir ao descobrir que não levará o doce que lhe foi prometido. Essa é apenas mais uma das dores de cabeça que o governo terá depois da eleição da presidência da Câmara.

Se o desempenho do general Ramos na relação com o Congresso tem sido ridiculamente ruim, sua atuação intramuros também deixa muito a desejar, pois é coalhada de polêmicas desnecessárias, vazamentos para a imprensa, conspiração contra ministros e conflitos abertos com colegas civis. Aparentemente, até agora, seu o único compromisso real é com fortalecimento do poder, dentro do governo, daquele grupo de militares que foi convocado pelo ex-ministro do turismo Aldo Rebelo, no apagar das luzes, para salvar Dilma e o PT do fiasco nas Olimpíadas Rio-2016.

Bolsonaro não é bobo; passou mais tempo no Congresso do que passou na caserna; portanto, apesar da sua lealdade a uma patota escolar da juventude, é de se esperar que tome providências para diminuir a “confusão, morte e destruição” na retaguarda do governo, deslocando o general para um função em que sua incompetência seja menos letal e colocando na articulação institucional algum político civil com experiência parlamentar.

Silvio Grimaldo é cientista político e diretor de conteúdo do BSM.


É justamente por isso que você precisa assinar o Brasil Sem Medo. Por menos de 1 real por dia, você tem acesso exclusivo às nossas matérias, análises, entrevistas, crônicas, podcasts e ebooks. Você pode optar pela assinatura anual, por 290/ano (média de R$24/mês) ou pela assinatura trimestral, por 87/trimestre (média de R$29/mês) e acessar agora mesmo a todo o conteúdo premium do Brasil Sem Medo.