DIÁRIO DE UM CRONISTA

Quando Lula ficou doente

Paulo Briguet · 14 de Julho de 2021 às 18:25

Uma crônica que escrevi há dez anos, no dia em que o ex-presidente anunciou que estava com câncer

Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho estão hospitalizados. Pessoalmente, estou em oração para que o presidente e o filósofo se recuperem o quanto antes, pois o Brasil precisa de ambos. No entanto, como sabemos, nem todos pensam da mesma maneira. Os odiadores das redes sociais aproveitaram os problemas de saúde de Olavo e Bolsonaro para dar, nos últimos dias, um bizarro festival de rancor, amargura, malignidade e falta de compaixão.

Lendo esses comentários na internet, eu me lembrei de um texto que escrevi e publiquei há dez anos, quando Lula ficou doente:


Estava lendo “O que sei de Lula”, livro de José Nêumanne Pinto, e já pensava em escrever sobre o assunto, quando recebi a notícia de que o ex-presidente está com câncer.

Meus sete leitores – e mesmo os 70 não-leitores – já sabem o que penso de Lula e sua trajetória política. Mas hoje não é dia de criticá-lo. Hoje é dia de desejar a ele força e serenidade na luta contra a doença. Foi assim que aprendi com os meus pais e a minha religião. Não se trata de um mérito pessoal; simplesmente não consigo agir e pensar de outra forma.

Cristianismo sem o difícil amor aos inimigos não é absolutamente cristianismo, mas uma contrafação perigosa. Além do mais, não considero Lula como a imagem de tudo que repudio. O verdadeiro Inimigo é outro, e muito mais perigoso, porque invisível.

“O mineiro só é solidário no câncer”, gostava de repetir Nelson Rodrigues, atribuindo a frase ao seu amigo Otto Lara Resende (autoria, por sinal, jamais admitida). Seja de quem for, a frase encerra uma característica não só da mineiridade, mas da humanidade. A perspectiva da morte tem o condão de nos aproximar. Para os cristãos principalmente, pois a morte carrega em si o mais importante e unificador dos milagres: a ressurreição.

Fiz muita besteira na vida. Já fui trotskista, já fui ateu, já votei em Lula. E um dos motivos que me levaram a deixar a esquerda foi o desejo de me libertar do ódio. Depois dos 30 anos, nunca mais me permiti ser escravo do ressentimento. Demorei muito para chegar a essa conclusão, até porque sou meio burro. Mas não há retorno possível: nunca mais serei um escravo do Inimigo.

Certas figuras públicas parecem ter conquistado a imortalidade por teimosia e aderência. Para além dos méritos ou deméritos individuais, é difícil imaginar o nosso cotidiano sem Silvio Santos, Pelé, FHC, Galvão Bueno, William Bonner, Faustão e Lula. Depois que meu querido Paulo Francis morreu, as quintas-feiras e os domingos nunca mais foram iguais. E às vezes eu acho que Chacrinha está vivo, assim como Elvis.

Todos meus amigos sabem que eu gosto de imitar a voz de Lula, até mesmo cantando. Por uns tempos, vou parar com as imitações. Estimo suas melhoras, Lula. Foi assim que aprendi.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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