ANÁLISE POLÍTICA

Por trás do ativismo judicial, há sempre uma imprensa podre

Cristian Derosa · 14 de Julho de 2020 às 18:48

O percurso cruel que vai dos rótulos jornalísticos até projetos de lei e inquéritos supremos sempre fez vítimas individuais, mas agora mira a própria democracia. A arquitetura da mentira nos leva a chamar escravidão de liberdade e ainda clamar por ela

Para explicar o que se tornou o Supremo Tribunal Federal, não basta recorrer às modernas teorias jurídicas que embasam o ativismo judicial, propondo que as supremas cortes sejam uma espécie de tropa de choque da democracia, como parece defender o filósofo do direito Ronald Dworkin, ídolo dos nossos honoráveis ministros. Por trás da pedalada jurídica para a perseguição de supostos elementos desviantes do sistema, está uma imprensa altamente corrupta a fornecer um arsenal de imagens, rótulos e suspeitas levantadas pela mera exploração de verossimilhanças úteis às agendas de seus definidores primários.

O conceito de fake news, como deixam claros seus utilizadores mais influentes, diz respeito não a conteúdos falsos, mas enviesados politicamente. A matiz política proibida passa a ser aquela que questiona o sistema, interpretado por seus próprios defensores com termos da sua ideologia auto-elogiosa, isto é, democracia, pluralidade, tolerância, etc — termos normativos sem objeto referente. Isso significa que o sistema global, representado regionalmente pelas estruturas fisiológicas da política, ONGs e movimentos sociais políticos, tem como principal função a criação e estabilização de seus termos e definições no imaginário público, sob aparências de discurso científico, acadêmico, jurídico, jornalístico.

A partir de uma insinuação, um rótulo que poderia reclamar a si mesmo uma licença poética, abre-se um leque de oportunismos jornalísticos que podem culminar em verdadeiros tribunais de opinião pública. Como diz o jornalista Ryan Holiday, “uma manchete arma a próxima; a especulação da primeira matéria torna-se a base da segunda. A história prova a si mesma”. Eis o método jornalístico que vemos em sua máxima força diante de nós. Sua vítima sempre foi a verdade, mas não raro vitimava pessoas, reputações. Agora ele vitima a democracia...