TRATAMENTO PARA CORONAVÍRUS

Por que você não ouve falar de Didier Raoult?

Brás Oscar · 28 de Março de 2020 às 11:29

O grande defensor do tratamento de coronavírus com cloroquina teve que enfrentar o lobby político da comunidade médica parisiense e a ditadura da metodologia para salvar a vida de seus pacientes. 

"Parece-me necessário que todo médico se esforce para saber o que é o homem "

(Hipócrates)

O médico e microbiologista francês Didier Raoult, 68 anos, tornou-se mundialmente conhecido nos últimos dias por ser o descobridor do único tratamento que realmente se provou eficaz para o vírus chinês causador da COVID-19.

O Dr. Raoult estuda há 13 anos os efeitos da cloroquina como antiviral e é um dos homens que mais produziu resultados sobre doenças virais no mundo, mas assim mesmo, enfrenta uma tentativa de ridicularização ou de completa ostracização por parte da grande mídia internacional.

Apelidado de Panoramix, o druida dos quadrinhos do Asterix, pela mídia francesa, o médico afirma estar lidando com uma “ditadura da metodologia” que torna o trabalho científico algo desesperador - a invasão de metodologistas leva a reflexões puramente matemáticas – desabafa Dr. Raoult em uma coluna publicada no dia 26 de março no Le Monde.

O currículo de Didier Raoult aparentemente satisfaz todo o fetiche da nossa sociedade por diplomas e títulos: Pesquisador e Ph.D. em microbiologia e infectologia pela Universidade Aix-Marselha - uma das universidades mais antigas e renomadas do mundo – seu nome consta em publicações científicas que vão desde descobertas de vírus, como o mimivírus (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17554709), à direção de diversos trabalhos acadêmicos de doutorado. Ocupou cargos de liderança em áreas importantes de pesquisas atreladas tanto à Universidade de Aix-Marselha quanto ao Instituto Nacional de Pesquisa Médica e de Saúde da França e já recebeu comendas de honra do governo francês há uns anos.

Mas há algo no nosso Panoramix moderno que parece incomodar, além de seus pares, alguns políticos e jornalistas. “As pessoas dão opinião sobre tudo, mas eu só falo do que sei (…) chegamos a tal nível de loucura que os médicos aparecem na TV para dizer às pessoas para ficarem em casa, em vez de diagnosticarem a doença. Isso não é medicina. Testar pessoas quando já estão gravemente doentes é uma maneira extremamente artificial de aumentar a mortalidade” – diz Didier Raoult. Ele ousa quebrar o cientificismo frio que transforma a medicina num exercício estatístico com o fim em si mesmo e lembra a seus colegas que ela é um meio para salvar vidas utilizando “o melhor que pode, no estado de seu conhecimento e no estado ciência”.

A principal justificativa da comunidade científica em insistir que se façam longos estudos metodológicos da cloroquina como antiviral é a alegação de que os médicos em geral não sabem muito sobre seus efeitos a longo prazo e possíveis efeitos colaterais. Entretanto, Dr. Raoult está há 13 anos lidando com esta droga e com seus efeitos sobre vários tipos de coronavírus e alega que seus críticos simplesmente nunca lhe pediram os detalhes técnicos da pesquisa.

“A invasão de metodologistas leva a reflexões puramente matemáticas” – denuncia Didier. Sua postura firme e sua falta de papas na língua para chamar as pessoas à realidade causou-lhe inimizades dentro da comunidade médica de Paris, onde seus rivais se esforçam para fazer uma caricatura sua. Um destes é Yves Lévy, marido da ex-Ministra da Saúde Agnès Buzyn. Lévy e sua esposa são dois figurões da comunidade médica francesa que vivem mais de seus cargos que propriamente de suas contribuições para a ciência: Lévy calcou toda sua carreira em liderar pesquisas financiadas pelo governo para encontrar uma vacina para o HIV, trabalho que foi criticado por Didier; ele afirmou que devido as características muito peculiares do HIV tal vacina é impossível, e que a carreira de Lévy é toda baseada numa fantasia que custa bilhões – e isso bastou para o casal de médicos fomentar nos bastidores uma campanha contra Didier Raoult.

A esposa de Lévy, Agnès Buzyn, foi Ministra da Saúde da França de 2017 até o início de 2020, e antes disso sempre esteve envolvida em organizações científicas com nuances politizadas, como o Instituto de Radioproteção e Segurança Nuclear da França. Buzyn, apesar de sua formação como médica, sempre foi ligada a política e é membro do partido esquerdista En Marche, o mesmo de Macron.

Didier Raoult sempre foi alheio às disputas por cargos políticos dentro da comunidade científica, e tão logo divulgou seus resultados de tratamento com a cloroquina, despertou a atenção de alguns políticos de direita e centro-direita, incluindo alguns parlamentares do Les Républicains. Em seguida, alguns ministros e parlamentares da esquerda progressista, ligados a esposa de seu desafeto, o Dr. Lévy, passaram a chamá-lo de louco, obviamente ignorando todo o seu histórico de sucesso como pesquisador.

O nosso Druida parece estar totalmente lúcido, entretanto, quando reclama que “as pessoas que tem voz neste país são totalmente ignorantes (…) é desesperador que o círculo de tomadores de decisão nem sequer esteja informado sobre o estado da ciência”. Enquanto outros grandes especialistas em doenças infecciosas de outros países o procuraram para pedir os detalhes do tratamento com cloroquina, o doutor é retratado pela mídia e políticos de seu país como uma figura excêntrica.

Ao ser questionado sobre a metodologia de testes exigida pela comunidade científica e pela OMS, o doutor Raoult propõe um simples exercício de lógica: “há o paradigma do para-quedas. Ninguém jamais comparou a eficiência do para-quedas. Se obedecermos à ditadura do método para avaliarmos a eficiência do para-quedas, precisaríamos fazer pular, aleatoriamente, 100 pessoas carregando uma mochila, umas com e outras sem para-quedas para atender aos padrões atuais de validação de um ensaio terapêutico. O problema será encontrar os voluntários"

É ilógico, de acordo com o Dr. Raoult, falar em testes de comparação da eficiência da cloroquina: é gastar tempo e dinheiro, enquanto perde-se vidas, comparando um tratamento que funcionou com “tratamento nenhum”, é comparar saltar de para-quedas com saltar sem nada na mochila – faria sentido apenas se houvesse mais de um tratamento que tivesse apresentado algum resultado positivo.

Enquanto a prestigiada comunidade científica se deixa conduzir por preciosismos técnicos, intrigas políticas, inveja e disputas de cargos, Didier Raoul parece manter-se fiel à sua consciência; o doutor declarou ao periódico La Provence que os médicos devem retomar seu lugar junto aos filósofos e pessoas que têm uma inspiração humanista e religiosa na reflexão moral, que o método científico, que deveria ser uma roupa para as idéias, transformou-se numa ditadura moral que impõe os pontos de vista que foram, ao longo do tempo, desenvolvidos pela indústria farmacêutica: um médico deve pensar como um médico, não como um metodologista, diz-nos o Dr. Raoult, lembrando-nos do alerta de G. K. Chesterton de que chegaria o dia em que teríamos de provar que a grama é verde.

Recentemente, ao ser questionado se sua visão filosófica acerca da medicina vinha do fato dele ser um outsider, Dr. Raoult respondeu: eu não estou “fora”, eu estou a frente!

- Brás Oscar é colunista e correspondente do BSM em Portugal, youtuber no Canal do Brás e coapresentador de notícias e análises no Canal do Paulo Henrique Araujo.


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