AGRONEGÓCIO

PL do Carbono destrói os produtores de carne brasileiros

Especial para o BSM · 12 de Setembro de 2022 às 16:41

Projeto de lei ambientalista atinge mortalmente os produtores de proteína animal e favorece os gigantes como a JBS

 





Tiago Rios Fagundes
Especial para o BSM

O Brasil é o segundo maior produtor de proteína animal do mundo. Sua produção, atrás apenas da norte-americana, representa 16,2% da produção total mundial. Segundo o IBGE, há mais cabeças de gado do que seres humanos caminhando por aqui. Produzimos volumes consideráveis de excedente sobre o consumo, suficientes para atender a demanda interna e ainda exportarmos produto suficiente para tornar muitas regiões do mundo dependentes dos nossos produtores e das nossas indústrias frigoríficas. O agribusiness brasileiro encontrou terreno fértil para atingir essa posição de destaque mundial pela nossa imensidão de áreas agriculturáveis, que atinge 664.784 km², segundo dados do IBGE de 2018, o equivalente a 7,6% do território nacional. O que chama a atenção aqui não é apenas a pujança do setor, mas uma exploração pequena em relação à área total do território e, portanto, a nossa capacidade de expansão que, embora a fama da nossa agricultura e pecuária a preceda, ainda está engatinhando no seu total potencial.

Bom para o Brasil, que almeja e trabalha pelo posto de maior produtor mundial de alimentos; não tão interessante para sua concorrência, os demais países produtores de commodities de destaque mundial como a China, Estados Unidos, Rússia e Índia, que, segundo a FAO, ainda lideram no ranking; e extremamente preocupante para aquelas ONGs internacionais que lutam pela divisão igualitária da pobreza pelo mundo a fim de manter os seus financiadores no topo da cadeia alimentar financeira promovendo politicas de centro-esquerda nos países dentro de sua  faixa de influência. Isso quer dizer alguma coisa, embora devesse significar outra, uma vez que para estas entidades a evolução econômica de países tropicais nada tem a agregar, mas para frear isso eles se valem da elevada justificativa da preservação do meio ambiente, uma proposta impossível de se recusar, mas que por detrás das cortinas carrega a mesquinhez da oligopolização da riqueza mundial.   

O documento Farms here, forests there, publicado pela Union of Concerned Scientists em 2011, cita o Brasil como o maior responsável pelo desmatamento do mundo e coloca o cultivo de soja e a abertura de áreas para exploração pecuária como os grandes causadores desse dano ambiental. O mesmo documento ainda diz que uma diminuição no desmatamento brasileiro seria um grande ganho para a agricultura norte americana, pois geraria em media 65 bilhões de dólares de lucro anuais.

A simples sugestão superficial do teor do documento já soa indigesta; a origem dele é ainda pior. A UCS, grupo ativista ambiental da esquerda internacional, fundada no final da década de 60 em oposição à guerra do Vietnam e aos testes nucleares americanos, hoje milita principalmente por pautas ambientais e frequentemente acusa os Republicanos, nos Estados Unidos, de serem “anticiência” no tocante a pautas de preservação.

Essa pecha é colada em todos que se manifestarem contrários ao erroneamente estabelecido conceito de aquecimento global e foi amplamente utilizada nesse período de pandemia contra qualquer um que questionasse as vacinas experimentais utilizadas em larga escala. Modus operandi do globalismo, que domina a linguagem e trata como leigos e genocidas todos que querem discutir o contraditório sobre as pautas de importância do debate público.

 A UCS é alinhada com inúmeras outras entidades autointituladas preservacionistas, como a BlueGreen Alliance, que advoga pela geração e de “empregos verdes”, postos de trabalho supostamente criados por novas políticas de preservação, o qual foi usado como palavra de ordem pela deputada democrata, eleita pelo estado de Nova York, Alexandria Ocasio-Cortez, ao propor o rechaçado Green New Deal (GND), promessa do derrotado candidato a presidência do mesmo partido, Bernie Sanders, nos Estados Unidos, em 2018. O GND consiste em uma lista de medidas governamentais com o intuito de preservar o meio ambiente, mas não apenas isso: é tão amplo que vai desde uma reestruturação geral nas matrizes energéticas até o estado de bem-estar social, tudo com uma pegada, mais uma vez, sustentável, inclusiva e, como qualquer política emanado do lado mais esquerdo da força, irresponsável. Apesar de seu apelo, as medidas aparentemente não caíram bem na terra das oportunidades, tendo um total de zero votos a favor na apreciação do Senado. Surpreendentemente, em outros lugares do mundo o GND tem sido levado a sério e gerado uma onda de propostas e medidas autoritárias que, no mínimo, colocarão os demais países de joelhos na produção de alimentos para o futuro.         

Por aqui o GND tem sido bem aceito no ambiente acadêmico, discute-se nos fóruns políticos Brasil afora que este será a grande saída para uma melhor participação do país nos mercados internacionais, pois trará uma aura de bom moço para as indústrias que, a partir de medidas preservacionistas e seu comprometimento de redução de emissão de carbono conforme a agenda 2030 da ONU, estariam mantendo a natureza a salvo e, de quebra, vendendo sua produção com um selo de amigo do meio ambiente. A lei 2.148/2015, de relatoria da deputada Carla Zambelli, vem nesse sentido para integrar a produção brasileira no Mercado de Carbono para que nossos produtos exportados não sejam penalizados na forma de tarifas ambientais pelo país importador por suas pegadas de CO2 conforme o Carbon Border Ajustment Mechanism (CBAM), o que, segundo ela, aumentaria os custos de exportação para a indústria e prejudicaria todas as cadeias produtivas. Alegam seus defensores que essa taxa internacional não tem mais volta e o texto atual do projeto de lei exclui o agronegócio da equação.

A questão pertinente a esse projeto de lei no que tange à produção de alimentos e à exclusão do setor produtivo desse imbróglio todo, sobretudo da cadeia da carne, é a seguinte: dentro de um sistema de produção pecuário, que começa dentro da porteira com insumos, lotação de unidades animais no pasto, currais, sol quente e muito trabalho; até o produto embalado, devidamente etiquetado, cheiroso e disposto nas prateleiras das mais caras boutiques de carne da Europa, quem é o vilão do aquecimento global da rodada? Certamente o flato bovino, vulgarmente conhecido como “peido do boi”. Nessa seara, o responsável por qualquer medida que mitigue os efeitos desse processo natural de digestão bovina e a liberação do seu subproduto, o metano (CH4), temido gás do efeito estufa, é com certeza o produtor rural de quem, como o elo mais fraco e indefeso da cadeia toda, será cobrado as devidas medidas para auferir a indústria sua redução de tarifas internacionais de exportação. O custo destas medidas, sejam elas compra de crédito de carbono, melhorias genéticas no seu rebanho, implantação de pastagens com alta tecnologia e altos custos, estará todo nas costas do produtor. Inviabilizará a produção de pequenos e médios produtores extensivos que representam fatia significativa da produção pecuária nacional aumentando drasticamente seus custos de produção.

Sendo a indústria de insumos e seus fornecedores, o setor produtivo ruralista e a indústria frigorífica todos partes de uma mesma cadeia, independentemente de haverem dispositivos no referido PL que excluam em teoria o produtor rural de obrigatoriedades junto ao mercado de crédito de carbono, as obrigatoriedades que a indústria de transformação terá para implementar seu ingresso no mercado, e seus custos correspondentes, serão automaticamente repassados para seus fornecedores, nesse caso o exato produtor rural que os defensores do PL alegam ter protegido. Outro ponto que vale ressaltar é a facilidade que se tem, por decreto do Executivo, de incluir outros setores econômicos no mercado de crédito de carbono. Será muito fácil para qualquer Presidente, com a hercúlea força de uma caneta BIC ou Mont Blanc, dependendo do seu viés ideológico, incluir de forma ainda mais direta e perniciosa o agro nesse projeto maquiavélico, o que deixa completamente desprotegido não somente esta categoria como também outros setores.    

Este desastre só irá reduzir a produção nacional e encarecerá o produto para o mercado doméstico, punindo a população brasileira por aderir a um sistema de pseudopreservação ambiental imposto pelo mercado europeu, enquanto a indústria manterá seus lucros com as exportações e repassando para o varejo interno o adicional de preço, o valor agregado, de uma carne “verde”. Consequentemente o cidadão mais pobre não terá condições de pagar o novo preço da carne e deverá encontrar outras formas de se alimentar. Em briga de elefante sempre é o pasto que sai machucado.

O lobby das ONGs dedicadas a melhoria das nossas vidas – escondam suas carteiras! –, ungidas pelo recurso dos metacapitalistas internacionais, está promovendo uma pressão política para que adentremos nesse nefasto Mercado de Carbono, e nossa indústria nacional já vê com bons olhos. A gigante brasileira JBS, maior indústria frigorífica do mundo, tornou-se a primeira certificada para emitir os créditos de carbono através da JBS Biodiesel. A empresa dos propineiros irmãos Batista, movidos pelo seu poderio econômico desproporcional, vão assim controlar a disponibilidade de carne in natura e, para não deixar faltar produtos na sua cesta, comprou a startup BioTech Foods, que produz carne sintética. Além disso, para atender o consumidor vegano, a JBS já vende no mercado europeu os plant-based meat, carne de origem vegetal a base de soja e caju. Não surpreenderia que a JBS entre no mercado de grilos, baratas e outros insetos como alternativa a proteína animal que será escassa nos próximos anos caso essas medidas tomem forma.

Isto é um reflexo claro do nada novo capitalismo de monopólio em que nos encontramos, onde grandes conglomerados econômicos controlam em muitos casos toda a cadeia produtiva de um determinado produto, regulando a sua disponibilidade, e ainda gerando a demanda de produtos substitutivos que porventura possam ser mais facilmente produzidos e com menor custo. Tudo sob a égide de entidades reguladoras supranacionais, um pretenso governo mundial, que com a desculpa de fazer nossas vidas melhores e mais seguras, nos empurra para um estado policialesco e autoritário.

Promovendo a escassez de carne in natura, o produto da JBS aumenta seu valor de venda, ao passo que empurra goela abaixo para os produtores créditos de carbono emitidos por ela própria e, para aqueles que não conseguem acessar o produto premium, sobram bifes fabricados in vitro e uma baratinha frita.

Tá servido?

Tiago Rios Fagundes é produtor rural, engenheiro agrônomo e especialista em marketing do agronegócio.

 


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