OPINIÃO BSM

Pelo bem geral, o fim do homem livre

Fábio Gonçalves · 10 de Janeiro de 2021 às 12:13

Só o homem bom, por amor ao próximo e a Deus, suporta a liberdade; os ignóbeis, por amor a si ou à fantasmagórica "humanidade", a detestam

Só um punhado de homens em cada época tem fibra moral para suportar a liberdade. 

A liberdade é insuportável para a maioria das pessoas, tanto para elas mesmas, na medida em que ser livre demanda responsabilidade, quanto para os outros, uma vez que é preciso ser humilde, paciente e caridoso para lidar com outros seres humanos livres.

Só o homem bom, por amor ao próximo e a Deus, suporta a liberdade; os ignóbeis, densa maioria, por amor a si ou à fantasmagórica "humanidade", a detestam.

Ademais, o homem livre é a possibilidade da desordem.

Desde o início dos tempos a humanidade tenta construir reinos e impérios que sejam espelhos ou caricaturas do céu, que reflitam ou imitem o ritmo invariável do ciclo vegetal, que sejam simulacros da vida monótona dos gados ou das abelhas.

O homem livre, porém, é o contrário do mundo físico e de sua estupefaciente regularidade. O mundo físico, o cosmos, é a ordem; o homem livre, a possibilidade do caos.

Cada ser humano testemunha a realidade de maneira absolutamente única. Porque testemunhar o real não é só apreender um instante, uma circunstância; é absorver o instante ou a circunstância numa infinidade de particularidades genéticas, sociais, histórico-geográficas, morais, intelectuais e espirituais que, na somatória, compõem uma personalidade humana.  

Porque é único, porque interage com o mundo de um jeito exclusivo e insubstituível, o homem é bicho cujo comportamento não se pode prever. E imprevisibilidade é caos potencial. Eis frustrado o velho sonho da sociedade cósmica; daí que seja preciso ter muito peito para suportar o homem livre, esse inconveniente ontológico. 

Por isso os “homens sem peito”, como dizia C.S. Lewis, concordam que o melhor regime político seja, ao fim e ao cabo, o que dê ao mundo a menor quantidade possível de homens livres. Pensam: que reste um punhado, umas centenas, jamais a maioria. Calculam: alguns poucos homens livres — que se suportem entre si! — já são mais do que suficientes para comandar a massa de homens que, voluntária ou coercitivamente, se faça servil; é só o que se precisa para botar as gentes todas nos trilhos. Não mais que uns poucos; se possível, um apenas. Eis a arte política de muitos e muitos séculos.

Claro que, com o passar do tempo, o sujeito que vendeu sua liberdade para solapar a dos outros pode se esquecer de que seja ele mesmo um escravo; no fim acreditará que, afortunado dos afortunados, lucrou em dose dupla: calou os outros, manteve-se liberto.

E é justamente essa ideia anestésica e apatetante que o punhado de homens livres precisa inocular na massa castrada — o lema “escravidão é liberdade”estampará a bandeira da sociedade ideal, constará no refrão do seu hino.

Aliás, atingiremos a sociedade ideal justamente no dia em que cada um dos vendilhões da própria liberdade estiver plenamente convencido de que o comprador se esqueceu de lhe retirar o produto. Será, pois, a definitiva escravidão, a vitória final sobre o abominável homem livre; será, por isso mesmo, a conquista do completo equilíbrio, a ordem inexorável, o advento da paradisíaca sociedade cosmológica — previsível e regular como a valsa eterna das esferas celestes.

É esta a deliciosa proposta dos homens livres das grandes corporações filantropas, das famílias dinásticas, dos comunistas bilionários, dos sheiks e aiatolás, dos narcoditadores. É esta a sedutora proposta que já aceitaram os homens sem peito das faculdades, das TVs, dos parlamentos, dos exércitos; são os primeiros efeitos deste admirável novo mundo que estão comemorando — com risinho cínico por debaixo da focinheira.  

No fim, temos um mandamento: pelo bem de todos, que acabe o homem livre. É imperativo. E acabe, se não pela rendição, pelo banimento do mundo social, pela fome, pela cicuta diluída numa xícara de chá, pela câmara de gás, por um tiro na nuca diante de uma vala comum.


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