INQUÉRITO DO FIM DO MUNDO

Os tanques chineses contra a imprensa livre

Paulo Briguet · 7 de Maio de 2021 às 13:35

Em “comunicado de fatos” enviado ao STF, deputado federal Fausto Pinato (PP-SP) tenta criminalizar temas e opiniões que não agradam ao regime chinês

Sempre que vejo políticos brasileiros bajulando a maior e mais longeva ditadura do planeta, também conhecida como República Popular da China, eu me lembro daquele manifestante desconhecido que assombrou o mundo em 5 de junho de 1989, logo depois do massacre da Praça Paz Celestial. Naquela manhã fatídica, um homem franzino conseguiu conter, durante alguns segundos, uma coluna de 25 tanques Type-59, cada um deles com pesando 36 toneladas e equipado com um canhão de 100 mm e três metralhadoras. Horas antes, aqueles mesmos tanques haviam sido utilizados para atropelar e metralhar milhares de manifestantes desarmados.

Diante de uma cena como essa, você só tem duas opções: ficar ao lado do homem ou ficar ao lado dos tanques. Tertium non datur.

Trinta e dois anos depois, eis que a mesma cena se repete no Brasil massacrado pelo vírus chinês. De um lado, está o poderosíssimo regime comunista chinês; do outro, alguns poucos órgãos de mídia independente que ousam criticar os desmandos e as chantagens do Dragão Vermelho.

Diante desse confronto desigual e desumano, de que lado você acha que estão os potentados do sistema político e seus fiéis jagunços da grande mídia? Evidentemente, ao lado dos tanques. O manifestante desarmado ― a mídia independente ― não passa de um inimigo a ser calado, encarcerado e, por fim, eliminado da face da Terra.

Exemplo dessa opção preferencial pelos tanques pode ser visto na “denúncia” que o deputado federal Fausto Pinato (PP/SP) encaminhou ao ministro Alexandre de Moraes, o popular Cabeça de Ovo, senhor absoluto do teratológico Inquérito 4781, mais conhecido como Inquérito do Fim do Mundo. No dia 5 de abril último, presidente da Frente Parlamentar Brasil-China (nome oficial do lobby chinês no Congresso), encaminhou um “comunicado de fatos” para Xandão.

Vale a pena debruçar-se ante o texto, de autoria do advogado Sidney Duran Gonçalez:

“O Comunicante na condição de deputado federal recebeu informações de que diversos veículos de comunicação, estariam de forma articulada divulgando ataques aos poderes constituídos, e propagando Fake News ao combate a pandemia.

O Comunicante recebeu uma lista de diversos sites (doc.anexo), que segundo essas informações agem de maneira articulada, principalmente divulgando Fake News contra o Supremo Tribunal Federal e contra o combate a pandemia, colocando dúvidas quanto aos métodos de combate à pandemia, defendendo medicamentos sem comprovação de eficácia científica e colocando dúvidas quanto à eficácia e efeitos das vacinas.

Segue-se, então uma lista com oito links de sites da mídia independente, entre eles o Crítica Nacional, o Jornal da Cidade Online e o Senso Incomum. E a conclusão é a seguinte:

“Como se verifica claramente nos exemplos acima citados, diversos sites de maneira organizado e aparentemente planejada, tem se articulado para atingir a honra e a dignidade do Supremo Tribunal Federal e de seus Ministros, atingindo assim o equilíbrio entre os poderes e a democracia.

Também faz-se nítido que estes sites possuem um claro perfil negacionista em relação à ciência, divulgando maciçamente informações inverídicas quanto ao combate a pandemia”.

A transcrição das passagens acima foi feita ipsis litteris; mantivemos os erros de crase e as vírgulas separando os sujeitos dos predicados. Se o atentado à língua portuguesa fosse o único problema do texto, não precisaríamos nos importar com o assunto. No entanto, a “comunicação de fatos” enviada pelo deputado Fausto é também um atentado à democracia que ele diz defender.

Entre os links apresentados, encontramos um artigo do jornalista Paulo Eneas, do site Crítica Nacional, em que o autor dá sua opinião sobre a questão das vacinas e do tratamento precoce da Covid. Ora, se existe um país em que determinadas opiniões constituem crime, esse país não é o Brasil, mas aquele outro tão defendido pelo deputado Fausto. Há também textos que reproduzem a opinião do ex-deputado Roberto Jefferson sobre o STF, que qualificam a Suprema Corte como um “escritório de advocacia para ladrões ricos”, que citam estudos em defesa do tratamento precoce da covid-19, que defendem o impeachment e a consequente destituição dos ministros do Supremo pela via congressual e que criticam o caráter obrigatório de vacinas experimentais.

Com sua “comunicação” ao STF, o deputado Fausto está simplesmente adotando o modus operandi de seus amigos do regime chinês. Esse infame documento tem por objetivo criminalizar temas e opiniões que não agradam à ditadura comunista. Entre a coluna de tanques e o manifestante solitário, o deputado já fez sua escolha.

E nós fizemos a nossa.

 


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