ARTIGO

Os que não podem me entender

Olavo de Carvalho · 11 de Dezembro de 2020 às 09:24

Aqueles que têm o desplante de se denominarem como filósofos em razão de convenções burocráticas reconfortantes nada podem compreender do meu pensamento

De todos os personagens que desde a juventude conheci nos meios jornalísticos e acadêmicos, posso assegurar que nenhum, absolutamente nenhum, esteve jamais em busca da verdade, da realidade substantiva, do ser enquanto oposto ao não-ser. O que todos queriam – todos sem exceção – eram encontrar um grupo, um movimento, um partido, uma igreja, um formulário de crenças, um clube qualquer ao qual pudessem filiar-se formal ou informalmente e aí encontrar amigos cuja identidade lhes indicaria, por contraste, a figura do inimigo.

Todos seguiam esse caminho com total naturalidade, como se ele fosse a definição mesma da vida do intelecto e a única ocupação possível da consciência humana. Nunca lhes ocorreu outra hipótese, principalmente a de seguir o caminho inverso, isto é, a de passar por todos os clubes, partidos e facções a titulo de mera experiência temporária e de aprendizado, a fim de chegar, algum dia, por meio de sínteses cada vez mas amplas e elaboradas, a algo que estivesse para além de todas essas perspectivas parciais e, desde um plano mais alto e abrangente, pudesse dar razão do conjunto e de cada uma delas em particular. 

Esse outro caminho é o que define, propriamente, a filosofia. Donde concluo que nos dois meios sociais a que me referi acima não existe e não existiu jamais, ao longo de pelo menos seis décadas, nenhum filósofo. Eis por que aqueles que têm o desplante de assim se denominarem em razão de convenções burocráticas reconfortantes, nada podem compreender do meu pensamento e, quando se arriscam a interpretá-lo, só dizem asneiras, variadas asneiras. Como tudo o que fizeram na vida foi buscar um grupo de referência, acreditam que fiz o mesmo, donde concluem que entender o meu pensamento consiste em descobrir a qual grupo de referência estou filiado. 

Como, por outro lado, seu horizonte de leituras é sempre limitado ao da escolinha que escolheram, não podem de maneira alguma abranger a variedade inteira das minhas fontes e se apegam, por isso, aos primeiros nomes que lhes chamaram a atenção positiva ou negativamente, donde concluem, com ares de certeza, qual é o meu clube e qual é o clube inimigo. Perdem totalmente a visão do conjunto, não atinam nem de longe com a forma do meu ser intelectual e me interpretam conforme uma projeção arbitrária das suas próprias deficiências.


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