RACISMO

Os novos senhores de engenho

Especial para o BSM · 17 de Junho de 2022 às 10:04

Alguns negros e alguns intelectuais continuam se sentindo no direito de monitorar e mandar em outros negros. Alegando combater o racismo, semeiam ódio, ressentimento e vingança



William Douglas
Especial para o BSM

 

Há quem diga que branco não tem que falar sobre racismo, ideia que carrega consigo mais racismo. A questão racial é um problema da sociedade e, logo, de todos. Se alguém é da espécie humana – ousaria dizer: da raça humana –, a única que existe, o tema racismo lhe interessa. Trabalho há 23 anos com a questão e tenho experiência com o tema.

“Para ver a ilha é preciso sair da ilha”, li uma vez em Saramago. A condição de branco e conservador, somada à convivência de décadas com o combate ao racismo, me permite ter uma visão menos emocional, e o fato de ser professor de Direito Constitucional me obriga a uma análise mais técnica desse tema, podendo apontar desvios de raciocínio, o que pretendo fazer neste texto.

Imagine o leitor o que aconteceria se fosse publicada uma matéria jornalística em que alguns brancos e alguns intelectuais defendessem que é mais louvável e/ou digno que pessoas brancas apenas se relacionem com pessoas brancas. Indefensável! Traríamos o mundo abaixo, certamente; o MP e a DPU imediatamente ingressariam com medidas judiciais.

No entanto, recentemente, foi publicada matéria que sugere como mais louvável ou digno pessoas negras só se relacionarem afetivamente com pessoas negras. Sim, no portal Terra há um carrossel sobre "relações afrocentradas", um eufemismo para a segregação racial. Segundo a matéria, negros com "consciência social" só deveriam se relacionar como casal com outros negros.

Matérias como esta não apenas estimulam a separação entre as raças, como constrangem negros a limitar suas legítimas escolhas. Nessa linha, o(a) negro(a) que não discrimina brancos nas suas relações afetivas seria menos "nobre", menos "consciente" e, até mesmo, cúmplice de uma “política de branqueamento” da população. Eu, por mim, acho que estão querendo politizar o “tesão” e, no mais puro estilo nacional-socialista, de “purificar” a raça e as famílias.

Alguns negros e alguns intelectuais continuam se sentindo no direito de monitorar e mandar em outros negros. Criticam a separação das famílias criada pelo tráfico negreiro, mas se atrevem a definir qual a cor da pele “autorizada” para se constituir uma família em pleno século XXI. Querem se apropriar da religiosidade, do raciocínio, do livre arbítrio, valendo-se da pele do semelhante. Querem usar outros negros para seus próprios interesses. Arrogam-se a patrulhar escolhas que são, por natureza, personalíssimas!

Essas pessoas são como os negros que antigamente, na África, vendiam outros negros para os mercadores de escravos. Exatamente isso. Os negros que vendiam escravos não se importavam com os negros de cujos corpos se apropriavam, colocando-os a serviço dos seus interesses pessoais (no caso, financeiros). A versão atual desse sentimento de propriedade sobre o destino alheio se manifesta naqueles que querem, para satisfazer suas ideias e teorias, seus caprichos e ideologias, tomar decisões por terceiros. A sofisticação do século presente é apropriar-se não do corpo, mas da mente; não por interesses financeiros, mas ideológicos.

Infelizmente, hoje há negros que querem ser donos de engenho e ter a seu serviço outros negros. Querem determinar ideologia, religião e, até mesmo, quem pode ou não ser par sexual de outrem. Como na reportagem citada. E, assim como no tráfico negreiro de séculos passados, juntam-se à empreitada brancos e negros dispostos a se assenhorear do semelhante, a partir da cor da pele.

Esses problemas são agravados pelas teorias lacradoras que querem legalizar, legitimar e até promover preconceito e discriminação, sentimentos de hostilidade de negros contra os brancos. Qualquer racismo é racismo. Esse movimento começa com a adoção da canhestra teoria de que apenas os “opressores” podem ter preconceito de raça, podem ser racistas, tese sem qualquer base jurídica e que, mais uma vez, aposta no esgarçamento do tecido social. São teses do “nós” contra “eles”, que agasalham ressentimentos, ódios, mágoas e sentimentos de vingança. São teses que abrem mão do motor cristão da sociedade ocidental, que propõe reconciliação, amor ao próximo e coexistência.
 

Os novos senhores de engenho não querem ser discriminados, mas sentem-se no direito de discriminar. Propõem uma nova segregação racial, um novo apartheid

 

Os novos senhores de engenho não querem ser discriminados, mas sentem-se no direito de discriminar. Propõem uma nova segregação racial, um novo apartheid no mais vetusto modelo racista da antiga África do Sul. Exemplo dessa mentalidade segregacionista está em um cartaz ostentado em passeata, que enunciava: “Miscigenação é genocídio”. Como deve se sentir, ao ler tal cartaz, uma pessoa negra que ama outra nissei ou caucasiana? Será que não se sentirá um negro "de segunda classe"? Genocida? Traidor da raça? É a esse ponto que chegamos? Negros não poderem fazer escolhas que qualquer branco faz sem ser patrulhado?

A partir da perspectiva defendida no cartaz (e na reportagem do Portal Terra), um(a) negro(a) que se apaixonar por um(a) não negro(a) e quiser constituir família enfrentará preconceitos dos dois lados. Aos “não alfabetizados” na questão racial, informo que há até apelido para negro que gostar de par branco: “palmiteiro”. A palmitagem carrega dois racismos: um contra os brancos, os “palmitos”; outro, interno, contra os negros, os “palmiteiros”.

Há também que se falar do preconceito contra negros “branqueados”, também discriminados por serem mais “clarinhos”. Há pretos que eliminam negros em bancas de heteroidentificação em concursos públicos por “não serem negros o suficiente!, não sendo raro um juiz branco ter que garantir aos pardos os direitos legais que os assistem. Não faz muito tempo também que a cantora Fabiana Cozza renunciou ao papel da sambista Dona Ivone Lara em musical, por ser apontada como “negra de pele clara”. Cozza afirmou na ocasião: “O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro.” Ela só não percebeu que este racismo interno não é culpa de nenhum branco (já que, para alguns, os brancos são os culpados de tudo).

Parafraseando conhecido esquerdista, posso dizer que “a cadela do racismo está sempre no cio”. E os racistas negros (e os brancos que os apoiam) estão sempre prontos a suscitar “lugar de fala” como modelo de mordaça, “branco não pode falar sobre racismo”; e até o absurdo do uso do termo “genocida” para quem tiver atração sexual inter-racial.

Parte da imprensa e parte da universidade endossam essa perspectiva racista, esse duplipensar e defendem, apoiam e floreiam esse absurdo inconstitucional e ilegal com ares de intelectualismo e modernidade. Eu digo aqui o que são na realidade: racistas. Racistas! Racistas!

Não há qualquer problema em cada um se relacionar com quem quiser, o problema ocorre quando alguém quer regular a vida afetiva e sexual alheia. O portal Terra, a pretexto de ser "moderno", na verdade reforçou uma narrativa que, ela sim, é opressora com os negros. Isso ocorre porque reduz a liberdade de escolha. Escrevo para denunciar isto que a sociedade às vezes parece ignorar: um racismo oculto disfarçado, mas reiterado e que tenta ser politicamente “justificado”, um racismo que se multiplica e glamouriza.

O “relacionamento afrocentrado” é a oposição ao relacionamento baseado na livre escolha. Essa proposta de um relacionamento deliberado quer encarcerar a atração e o relacionamento afetivo a uma pauta política; e não é mais que rotular e controlar as ações das pessoas em decorrência da cor de sua pele. O nome disso é, repito, racismo.

Para mim, hoje é fácil comparar um intelectual do neorracismo revanchista negro do Brasil a um branco racista do Sul dos EUA. Eles se assemelham. Os nossos, se pudessem, já teriam criado leis proibindo o casamento inter-racial, pois a propaganda já fizeram.

Não vejo problema em haver um site como o Afrodengo, que não aceita brancos, pois tal site atende a quem, exercendo sua liberdade, “quer procurar um par negro”. Contudo, que ninguém reclame se aparecer um site “WhiteSugar”, que não aceite negros. Além de ser ideia absolutamente parelha, ainda atenderia ao desejo dos universitários que acham que “miscigenação é genocídio”.

A matéria do portal Terra, a pretexto de elogiar a “relação afrocentrada”, veicula crítica a quem não age da forma anunciada. O texto assume a busca por “aquilombamento” em todas as relações. O problema é que se isso é um direito cultural dos negros, não se pode negar que também seja um direito cultural dos brancos.

A liberdade de opinião protege essa manifestação ou seria ela racista? Se é mera opinião, eis a minha: esse discurso busca legitimar segregação e, se é válido, também pode ser adotado por outras etnias. Então, indago: isso é bom? Isso atende aos propósitos do art. 3 da Constituição Federal?

Vamos lembrar que há na Constituição uma palavra chamada isonomia. As minorias não podem pretender ter mais direitos que as maiorias. Igualmente, nenhuma ideologia ou religião pode pretender se apropriar de outrem com base em cor de pele.

Após mais de 20 anos trabalhando contra todos os tipos de racismo, mais uma vez venho denunciar teses e práticas racistas. A questão da captura ideológica do movimento negro já me segue há algum tempo. Também venho repudiando a teoria de que "não existe racismo reverso", alertando que, na forma da lei, nenhuma raça tem o “monopólio” do racismo e que todos, brancos e negros, podem ser autores ou vítimas desse crime.

Alerto que há intelectuais brancos e negros que, movidos por ideologias e vítimas da burrice das bolhas, estão cada vez mais tentando criar um sistema segregacionista e opressivo, no qual negros e brancos ditos modernos e mais sábios querem ter seus próprios navios negreiros e engenhos de cana-de-açúcar nos quais todos os negros devem pensar como eles e obedecer suas teorias, mesmo as mais racistas e imbecis.

Mantendo minha longa e, confesso, cansativa jornada contra o racismo, reafirmo que não se combate racismo com racismo, nem discriminação com discriminação.

Permanece a fraterna, cristã e, esta sim, sábia lição de Martin Luther King Jr, pastor preto norte-americano nascido em Atlanta: “A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode fazer isso.”

Assim como Martin Luther King Jr., eu tenho um sonho:ver meus filhos julgados pelo conteúdo de seu caráter e não pela cor de sua pele. Espero que os brasileiros de todas as cores possam escolher seus parceiros sem serem patrulhados por cor de pele. O mesmo Luther King Jr. asseverou: “Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele.” Estou aqui, então, para protestar contra esse discurso segregacionista, praticado por negros e brancos que querem ter negros sob seu cabresto. Eu vos digo o que há debaixo dessa casca de intelectualidade e dessa fumaça de bom mocismo: há mais racismo e uma cultura de segregação e não de união entre brasileiros.

O negro tem que ter tanta liberdade de escolha quanto o branco. O negro tem que ter o direito de, sem crítica, patrulhamento, ofensas, perseguição ou cancelamento, escolher seu partido político, seu par sexual e sua religião. O que passa disso é racismo, é crime e é uma violação dos direitos humanos que a todos assistem.

William Douglas é escritor, professor de Direito Constitucional e desembargador federal.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"