CRÔNICA

Os heróis (quase) nunca são santos

Brás Oscar · 22 de Junho de 2020 às 16:47

Antifas e direitas-jujuba do mundo exigem uma vida de santidade bem exposta e documentada no Facebook daquele que ousa travar a luta fora do conforto das telas touchscreen

A velha aldeia onde eu vivo já viu de tudo; viu as velhas estradas romanas servirem de caminho secreto para as tropas do Mestre de Avis, que enfrentariam os castelhanos não sem antes presenciarem a ação do sobrenatural no Campo de São Jorge. E juram as nossas mais velhas lendas que a colina que eu observo todos os dias da janela do meu quarto foi o lugar onde a Arca de Noé encalhou… tem até uma placa ao pé da fonte marcando este “evento”. Quando a Arca encalhou, Noé bateu com a cabeça numa viga da nau, daí a razão de hoje o morro chamar-se Colina da Cabeçada.

Voltando à batalha contra os castelhanos… bem, isto não é um artigo sobre história, mas um arremedo de crônica, então não esperem detalhes e precisão… naquele verão de 1385 as tropas de Dom João, Mestre da Ordem de São Bento de Avis, iriam travar a batalha definitiva que firmaria seu direito ao trono português. Dom João tinha ao seu lado Dom Nuno Álvares Pereira, seu comandante e estrategista, sujeito sem igual, apesar de algumas semelhanças com o futuro rei: ambos eram filhos bastardos e ambos foram feitos cavaleiros na mesma ordem militar religiosa. E, seja você crente ou não, a vitória da batalha de Aljubarrota foi um milagre. Eram 7 mil portugueses contra 30 mil espanhóis, mas dentre os 7 mil portugueses havia Nuno Álvares Pereira, um santinho que calhou de ser herói também e equilibrou a diferença.

Dom Nuno ouvia duas missas por dia, confessava-se com frequência, levantava-se à meia-noite todos os dias para rezar matinas e jejuava às quartas e sextas-feiras. O dia da batalha era dia da Vigília de Nossa Senhora da Assunção e ninguém demoveu Nuno de seu jejum. Dom Nuno tornou-se o Condestável do Reino, herói nacional, senhor feudal poderoso e bondoso, piedoso com os judeus, generoso com os pobres e justo com todos. Na velhice, antecipou a herança à filha e ao genro, internou-se no Convento do Carmo de Lisboa, fez votos de pobreza e castidade e morreu como um humilde e devotado monge. Foi canonizado como São Nuno de Santa Maria...