DIÁRIO DE UM CRONISTA

Nós, os extraterrestres

Paulo Briguet · 20 de Setembro de 2021 às 10:44

Quando as teorias da conspiração se transformam em descrições exatas da realidade
 



Certa vez, durante uma aula do Seminário de Filosofia nos anos 90, um aluno perguntou a Olavo de Carvalho:

― Professor, o sr. acredita na existência de extraterrestres?

― Claro! Eu mesmo sou um deles.

A piada de Olavo é perfeita: no Brasil, há várias décadas, conservadores e anticomunistas são considerados seres de outro mundo. O único conservadorismo permitido é uma espécie de progressismo disfarçado, que serve apenas como sparring nas disputas internas da esquerda. Trata-se da direita permitida, da direita selinho azul. Quanto aos conservadores que estudam a realidade, fogem ao bom-mocismo e se negam a pagar pedágio ideológico para a esquerda, são considerados espantalhos de extrema-direita, terraplanistas, fascistas, milicianos e criminosos.

Na semana passada, um cidadão procurou o Conselho Consultivo do Ministério Público Federal para fazer uma grave denúncia. Segundo ele, extraterrestres estão fazendo cópias do presidente Jair Bolsonaro, espalhando-as pelo mundo. O mesmo expediente teria sido usado para replicar o ex-presidente Donald Trump, secretamente assassinado em 1º de outubro de 2020. O complô mundial para a replicação de líderes conservadores envolveria a CIA e outros órgãos de espionagem.

Em meus 29 anos de jornalismo, tive oportunidade de conhecer pessoas que acreditavam em teses muito parecidas com a que foi exposta aos egrégios membros do MPF. Jornalistas são alvos preferenciais desse tipo de personagem. No fundo, é uma situação triste: a pessoa dominada pela mania de perseguição acredita firmemente no que diz, e sofre muito com isso. Um ex-leitor de um jornal em que trabalhei ligava semanalmente para a redação denunciando um plano de controle mental e contaminação nuclear urdido pela CIA, com a conivência de autoridades brasileiras. Uma amiga muito querida e talentosa lia artigos da imprensa e encontrava mensagens subliminares dirigidas a ela. Recebi cartas e e-mails com relatos de pessoas que acreditavam estar sendo perseguidas e espionadas ― às vezes pelos próprios familiares. E como não lembrar a moça que desenhou com estilete uma suástica na própria barriga e os militantes que anunciavam matança de gays no caso de uma vitória de Bolsonaro em 2018?

Não se deve ridicularizar essas pessoas. São desordens mentais que, como eu disse, causam muito padecimento. O denunciante do MPF merece a nossa compaixão, não o nosso riso.

Mas o que acontece quando as perseguições deixam de fazer parte da literatura psicopatológica e se tornam reais? O Brasil hoje tem três presos políticos: Daniel Silveira, Roberto Jefferson e Wellington Macedo. Eles estão presos por crime de opinião; eles tiveram seus direitos constitucionais ignorados pelo STF, que deveria ser o guardião da Carta Magna. Daniel, Roberto e Wellington têm vivido um calvário pessoal. Daniel, deputado federal, está há meses sem ver a filha; Roberto, presidente do PTB, passou momentos tenebrosos no ambulatório do Presídio de Bangu; Wellington, jornalista, está há vários dias sem comer e emagreceu 10 quilos.

Ao mesmo tempo, dezenas de cidadãos brasileiros ― jornalistas, empresários, parlamentares e ativistas conservadores ― estão sendo investigados no âmbito de dois inquéritos ilegais sem ao menos saber de que crime são acusados. Vivem uma situação que poderia estar em um enredo de Franz Kafka, George Orwell ou Arthur Koestler.

Por todo o Brasil, cidadãos que se recusam a tomar vacinas experimentais são ameaçados com a perda do direito ao trabalho e a perda do direito de ir e vir; prefeituras insistem na vacinação obrigatória de crianças e adolescentes, mesmo com os riscos envolvidos; médicos são perseguidos por tratar uma doença.

Muitas coisas que até pouco tempo atrás pareciam teorias da conspiração hoje são descrições exatas da realidade. Mas nós, conservadores, continuamos sendo tratados como extraterrestres.

Nem sequer podemos ligar para casa, porque já estamos em casa.

Paulo Briguet é cronista, terráqueo e editor-chefe do BSM.

 


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