ESTADOS UNIDOS

O triste fim dos conservadores que odeiam Trump

Braulia Ribeiro · 21 de Novembro de 2021 às 11:55

De como os republicanos do movimento Never-Trump se tornaram irrelevantes e ridículos no cenário político dos EUA

A política brasileira e a americana nos últimos anos têm sido uma espécie de espelho uma da outra. O socialismo avança a galope no país do Tio Sam, agora Camarada Sam, guiado pela mão trêmula do velho de fraldão e sua gangue de tresloucados. A maior parte das políticas propostas por eles tem como fim transformar o país na versão americana do Brasil do PT, inchado de políticas sociais que não ajudam ninguém, paralisado pelas intervenções pesadas do paquiderme predador que é a máquina do governo. Em menos de um ano, Biden já desfechou vários golpes na economia americana, jogando o país num espiral de inflação e desemprego que, segundo muitos economistas, veio para ficar. Mas o que quero destacar nesse artigo é um problema difícil de explicar. Alguns intelectuais conservadores bem esclarecidos, movidos por um nojo elitista de Donald Trump, rejeitaram-no desde o princípio, errando feio em seu cálculo político. Mas, misteriosamente, continuam errando até hoje, mesmo ao ver o desastre socialista bater à sua porta. Como a aversão pessoal a alguém toma controle e se torna mais forte que a convicção ideológica? Aviso aos leitores: qualquer semelhança com a suposta direita brasileira “limpinha”, que se associa hoje à esquerda numa tentativa de banir Bolsonaro do cenário político nacional, não é mera coincidência.

Voltando um pouco na história, vamos nos lembrar que tanto em 2016 como em 2020 nem todos os americanos que seguem uma inspiração política conservadora apoiaram a eleição e a tentativa de reeleição de Donald Trump. Eu mesma enquanto acompanhava as primárias de 2015, não acreditava que o Homem Laranja era a melhor escolha entre o grupo extremamente capaz e bem preparado que disputava a candidatura do partido. Depois de uns meses, ficou claro que Trump, um ponto fora da curva, homem de fora do establishment, era o único que teria a oportunidade de fazer a América voltar à liberdade social e econômica que o país perdeu durante a era Obama. Ele teria a força de confrontar a onda socialista e fortalecer os valores da velha América e, se fizesse tudo certo, ganharia seu segundo mandato. Quando se consolidou a sua candidatura, como um conservador poderia escolher não votar em Trump? Abandoná-lo teria o efeito de entregar o país às hienas novamente.

Trump tem suas falhas, políticas e pessoais. Apesar de ser um milionário, para muitos da elite ele soa como um “colarinho azul” da classe baixa. Na campanha foi grosseiro com mulheres, deselegante com imprensa, engajando-se em brigas que poderíamos julgar desnecessárias. Esses deslizes, comuns a personalidades intempestivas como a dele, foram construídos por seus detratores como falhas morais. Na visão construída pela mídia, ele era um misógino, autoritário, um supremacista branco. Mas a população como um todo não comprou essa imagem. Em 2016, o público conservador, religioso ou não, embarcou no trem do Homem Laranja, com a exceção de ― você pode adivinhar ― a chamada elite intelectual. Quem conhece, por exemplo, o intelectual George Will, que guiou a mente do Partido Republicano por muitos anos, sabe que Will e Trump não se entendem. Logo no início da campanha de Trump, Will se separou dele levando consigo uma grande fatia da mídia do partido.

A revista “National Review” fundada em 1955 pelo conservador William F. Buckley Jr., o veículo de maior respeito entre o público conservador, não apoiou Trump nem durante as candidaturas nem durante o governo. A revista é o que se pode considerar conservadora raiz. Na apresentação de seu website se gaba de ter “definido o movimento conservador americano, e ser uma mídia de consenso entre as diversas expressões conservadoras da América”. Com todo o seu pedigree, infelizmente deixaram de perceber em Trump um fenômeno político tão importante para o movimento quanto Ronald Reagan. Estão hoje longe de representar o consenso conservador e se confinam ao espaço estreito reservado às elites irrelevantes que contemplam apenas seu próprio umbigo.

Intelectuais de peso como George Will, jornalistas, políticos e personalidades públicas como Bill Kristol, Jeniffer Rubin, Collin Powell e Mitt Romney, que ficaram renitentemente contra o novato, criaram em 2015 o movimento que ficou conhecido como Never-Trump. Ao contrário do Zé Povinho ou deploráveis (para usar um termo que foi popularizado por Hillary Clinton durante a campanha de 2016), esses conservadores não souberam diferenciar entre o que a mídia dizia de Trump e quem ele realmente era. Acostumados com o teatro da vida pública onde tudo é pose e frases feitas, bem construídas por marqueteiros, eles se horrorizaram com a autenticidade do bilionário.

O historiador Victor Davis Hanson foi um dos primeiros a reconhecer a excepcionalidade de Trump. Numa entrevista ao jornalista Tucker Carlson, ele diz que já em 2015 começou a prestar atenção na reação da classe média ao candidato, então ainda disputando as primárias. Contou um momento em que visitou uma cidade no estado de Ohio onde Trump havia acabado de realizar um comício. Quando conversava com as pessoas percebia sua reação de alegria e esperança. Hanson o acompanhou na visita a um grupo de fazendeiros na Califórnia. Pensou: “Quem sabe ele chega usando um boné Caterpillar e mastigando um matinho no canto da boca” – como fazem os políticos bem-educados pelos marqueteiros para parecerem palatáveis ao homem do campo. Mas não. O Homem Laranja chegou como nós o vemos na TV, terno escuro num calor de 40 graus, a mesma pose de sempre. “Mas”, diz Victor Hanson, “ele disse coisas que eu não acreditava ser possível um político dizer. Ele falou a língua da classe média”. Nas palavras de um eleitor, “Trump pode ser um milionário, mas ele tem o coração de operário”. Hanson lançou em março de 2019 um livro que na época foi um dos mais vendidos do país: The Case for Trump, no qual o historiador advoga o valor ideológico e político da presidência de Donald para o conservadorismo americano. Segundo Hanson, a aparente rudeza crua de Trump e sua lógica de negociante o aproximaram da classe operária americana e o afastaram das elites.

Para Hanson para se gostar de Trump você tem que separar a pessoa do presidente. Eu creio, no entanto, que é na aparente rudez pública da pessoa, na sua independência das regras finas de convivência social a que estava acostumada a elite política americana que encontramos o diferencial de Donald Trump. Enquanto o establishment republicano quer ser visto pela esquerda como o “adulto na sala”, longe das emocionalidades e falastronices comuns aos democratas, Trump fez questão de interromper o falso senso de ordem. Apontou para falhas de cálculo, erros econômicos e falta de sensibilidade dos republicanos que o antecederam. Enfrentou vacas sagradas do liberalismo econômico como a questão das tarifas sobre importações, um golpe no dogma do free trade. E, melhor do que ninguém, denunciou a sombra do socialismo que paira sobre a América e que os limpinhos insistem em ignorar.

Kenvin Hasset é um economista que resistiu à lógica trumpiana no começo, mas acabou se rendendo ao ser convidado por ele para trabalhar na Casa Branca como senior advisor. Neste mês, Hasset lançou um livro interessante: The Drift, stopping America’s slide to socialism. Hasset confessa que, uma vez transposta a barreira da figura pública, o Trump que conheceu se revelou ser um homem atencioso, inteligente, capaz, e profundamente comprometido com o bem comum, e que sempre estava disposto a analisar todos os lados do problema. Hasset cita um outro economista famoso, Joseph Schumpeter, que preveu que o bem-estar e a liberdade criados pelo capitalismo vão impedir que muitos enxerguem os males do socialismo. Schumpeter profetizou em 1944: “Será que o capitalismo sobreviverá? Eu tenho tentado mostrar que uma forma socialista de sociedade vai inevitavelmente emergir de uma igualmente inevitável decomposição da sociedade capitalista”. Ele previu que as famílias empoderadas pelo capitalismo mandariam seus filhos para as universidades tomadas pela intelligentzia socialista, que então transformariam a nova geração. Schumpeter entendeu que os socialistas, dominando as classes intelectuais do país, controlariam a noção de “respeitabilidade,” para controlar o debate público. Como discordar de Obama e de Paul Krugman se eles ganharam prêmios Nobel? Como aceitar alguém como Trump, que quebra as regras do que é respeitável? Kevin Hasset foi esperto o suficiente para reconhecer que Trump tinha a qualidade para enfrentar a ameaça socialista que faltava a muitos outros políticos conservadores: a coragem para desafiar o status quo. Seu livro é uma ode às realizações do ex-presidente e um alerta contra os males que assolarão a América, trazidos pelas mãos dos Democratas.

Os never-trumpers não tiveram a capacidade de superar a imagem projetada pelo consórcio midiático da esquerda e tentar entender o verdadeiro Trump. Talvez inconscientemente se sentindo donos da “verdadeira” consciência conservadora americana, não conseguiram abrir espaço para que um forasteiro como Trump lhes desafiasse o “harmonioso” equilíbrio que mantinham com os democratas. George Will, num artigo que escreveu recentemente para o Washington Post, defende as desastrosas aparições públicas de Biden, dizendo que mesmo os presidentes conservadores que ele mais admira talvez tivessem uma performance pública tão ruim quanto a do velho senil nas mesmas circunstâncias. Will dá conselhos à administração Biden para que sejam mais competentes em esconder os defeitos do velho para que ele tenha chance de um segundo mandato, evitando assim o retorno de Trump. Will claramente prefere o desastre Biden à nova versão do conservadorismo operário inaugurado por Trump. O intelectual brilhante que por cinco décadas indiscutivelmente contribuiu com a inteligência conservadora do país prefere sacrificar tudo o que acredita no altar do ressentimento e da birra pessoal contra o bicho-papão laranja. Com isso, Will se junta a Kristol, Brooke e tantos outros antes respeitados porta-vozes republicanos e sai de cena, se limitando à escuridão da irrelevância.

Moral da história (se é que podemos tirar alguma lição dessa tragédia): Se você insiste em jogar de acordo com as regras estabelecidas pelo establishment socialista, nunca vai deixar de ser um instrumento dele. A voz das elites não é a voz do povo, muito menos a voz de Deus.

 

― Braulia Ribeiro é colunista do BSM nos EUA.

 

 

 


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