MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO

O relojoeiro e o menino: um caso de castigo sem crime

Paulo Briguet · 9 de Setembro de 2020 às 19:39

Comerciante que comoveu país ao presentear menino engraxate é denunciado por “apologia do trabalho infantil”

Um ato de amor

Pouco antes do Dia dos Pais, um dos assuntos comentados da internet brasileira era uma campanha publicitária que colocava no papel de pai uma famosa personagem pública transexual, mostrando-a como modelo e referência de paternidade. Felizmente, porém, essa polêmica foi logo esquecida quando o Brasil inteiro se comoveu com a história do relojoeiro e do menino em Catalão, Goiás. O vídeo que viralizou nas redes sociais mostrava um menino, carregando sua caixa de engraxate, que foi a uma relojoaria da cidade para comprar um presente. O dono da loja pergunta:

— O relógio é para você ou para o seu pai?

— Para o meu pai.

O menino então escolhe um modelo de relógio. Comovido, o relojoeiro indaga há quanto tempo ele vinha juntando dinheiro para comprar o presente de Dia dos Pais.

— Tô juntando dinheiro desde um tempão.

O relógio custa 30 reais. Depois que o menino faz o pagamento do presente, o relojoeiro se vira para câmera e diz:

— Eu estou aqui recebendo o dinheiro...

Em seguida, ele se volta para o menino:

— Fiquei muito feliz, Mário, por você estar trabalhando e me pagando. Quero retribuir esse presente com você. Agora, eu vou te dar um presente.

Ao dizer isso, o relojoeiro devolve os 30 reais ao menino e complementa:

— Continue trabalhando, Mário, porque Deus tem um projeto na sua vida e Deus vai te fazer um grande homem. Continue trabalhando, porque o trabalho dignifica. Eu sei que você é uma criança, mas não é pecado trabalhar. Seja honesto e nunca se envolva com coisa errada. Deus te abençoe.

Essa pequena cena foi um conto de fadas digno de Hans Christian Andersen ou Isaac Bashevis Singer.

 

Um ato de ofício

De fato, a história do relojoeiro e do engraxate emocionou os brasileiros em todo o país. Mas não agradou nem um pouco o Ministério Público do Trabalho de Goiás. No dia 3 de setembro, Paulo César da Silva — o relojoeiro que comoveu o país — recebeu uma notificação judicial por “apologia ao trabalho infantil”. No documento, o procurador Leomar Daroncho ameaça cobrar uma multa de R$ 10 mil caso o comerciante não se abstenha de compartilhar o vídeo do Dia dos Pais na internet. O relojoeiro será ainda obrigado a participar de projetos educativos de combate ao trabalho infantil.

Algo me diz que o relojoeiro cometeu dois crimes aos olhos do Ministério Público do Trabalho: defendeu a dignidade do trabalho e citou o nome de Deus diante de uma criança. São dois pecados mortais para um sistema que criminaliza o conservadorismo e o cristianismo, com a circunstância agravante de que foram cometidos por um comerciante — a imagem do mal para pandeminions, lacradores e socialistas de gabinete. (Se Paulo estivesse sem máscara, estaria preso a essa hora.)


Um ato de cidadania

Ponho-me aqui a imaginar qual seria a atitude politicamente correta e aprovada pelo Ministério Público do Trabalho.

— Por que você está olhando essa vitrine, menino?

— É que eu vim comprar um presente para o meu pai.

— Mas o que você está carregando em suas costas: é uma caixa de engraxate?

— É, sim. Eu trabalhei para juntar dinheiro e comprar um relógio para o Dia dos Pais.

— Mas... COMO ASSIM?! Isso é trabalho infantil e degradante, proibido pela legislação. Vou chamar as autoridades competentes para confiscar esse material e o dinheiro que você obteve ilegalmente. E qual é o nome do seu pai?

— Nica.

— É preciso enviar imediatamente uma diligência policial à casa desse cúmplice de crimes!

 

Um ato de misericórdia

Quando o governo Bolsonaro decidiu extinguir o Ministério do Trabalho, em 1º de janeiro de 2019, a esquerda entrou em polvorosa. Seria o caos para as relações trabalhistas! Seria o fim dos direitos e garantias para o povo trabalhador!

A realidade foi bem diferente: ninguém mais se lembra do Ministério do Trabalho. Parece que essa repartição só servia mesmo para dar emprego a um punhado de companheiros.

Da mesma forma, histórias como a do relojoeiro e do menino — um conto de fadas transformado em notificação judicial —, depois de alguns meses ninguém perceberia se a Justiça do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho fossem extintos e jogados na lata de lixo da história. Por misericórdia.


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