PATRIOTISMO

O que o brasileiro aprendeu nos últimos tempos

Braulia Ribeiro · 14 de Dezembro de 2022 às 17:50

O novo Brasil não acaba no dia 31 de dezembro. Braulia Ribeiro, colunista do BSM, fala das mudanças que vieram para ficar

Acho difícil encontrar hoje no Brasil um cientista político qualquer que olhe para a situação do país com lucidez e que possa explicar a crise, ou sugerir algum plano de ação que consiga nos tirar dela em um prazo curto. Estão todos tão perplexos e sem respostas quanto o cidadão nas ruas que insiste em sua esperança sentado debaixo de uma barraca cantando o hino nacional.

Esse cidadão é aos meus olhos um herói. Não tenho dúvidas de que me sentaria com ele se estivesse por aí. A história que ouvimos desde crianças — de que o brasileiro é um povo pacífico, que não gosta de brigas nem de revoluções — é absolutamente falsa. A teimosia desse brasileiro que se recusa a entregar o país aos golpistas se apoia numa longa história de resistência à tirania e revoluções barulhentas ou silenciosas que de tempos em tempos sacudiram a vida do país.

Nosso país, como não podia deixar de ser, sempre abrigou guerras e revoluções sangrentas. Na questão da luta contra a tirania, a Amazônia foi o palco de uma resistência descalça e cabocla espalhada por toda a região, protagonizada por povos indígenas e ribeirinhos; a guerra ou guerras da Cabanagem. Os guerreiros amazônicos chegaram a tomar e governar Manaus por seis meses. No final foram derrotados, porque a guarda do establishment tinha supremacia bélica e militar e foi capaz de eliminar ao longo de sete anos de luta um quinto da população da região, sem dó nem piedade. E mais um detalhe normalmente deixado de lado por nossos historiadores: muitos dos líderes da guerra eram católicos e reivindicavam uma sociedade mais justa e cristã, onde não houvesse taxation without representation. O brasileiro, meus caros, não é um covarde acomodado como querem nos ensinar. As histórias de heroísmo e resistência foram cuidadosamente escondidas de nós, omitidas ou reduzidas a meros pés de página nos livros de história para dar lugar a essa falsa noção de nacionalismo insosso e pacífico que nos enfiam há décadas pelo gogó.

Estamos em crise, não há dúvidas. A cada anúncio feito por Lula sobre seu “novo” ministério o estômago nacional se embrulha em uma náusea que reconhece que já comeu essa comida e que lhe fez muito mal. As perspectivas para o futuro são as mais sombrias possíveis, e a maioria dos brasileiros não quer apenas assistir sentado o rápido salto da vaca no brejo.

Para não cair no desespero absoluto, no dia de hoje eu quero parar para refletir em valores. Tanto em política quanto na vida prática quando a crise é muito grande precisamos parar e avaliar os valores concretos que queremos preservar e dar passos práticos para protegê-los, mesmo que correndo risco.

O que o Brasil aprendeu nos últimos quatro anos?