DIÁRIO DE UM CRONISTA

O Príncipe e o Sapo: as duas lâminas da tesoura

Paulo Briguet · 21 de Maio de 2021 às 15:18

Há 43 anos, eles já estavam juntos. E, mesmo quando pareciam ir um contra o outro, recortavam o país para o mesmo lado

“Em meu princípio está meu fim. Umas após outras
As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,
Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar
Irrompe um campo aberto, uma usina ou um atalho.
Velhas pedras para novas construções, venhos lenhos para novas chamas,
Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeadas,
Terra agora feita carne, pele e fezes,
Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.”

(T. S. Eliot)


 


 

De manhã o Sapo foi até a porta da fábrica para fazer panfletagem. Pedia aos companheiros que dessem um voto de confiança para esse jovem Príncipe, professor da Universidade, formado na França. O Príncipe olhava para o Sapo e o via como um tipo social previsto por Gramsci: “Por mais brutalizado que seja um homem, em algum momento de sua vida ele realizará a atividade intelectual”. Entre eles nasceu, não uma amizade, porque falavam idiomas diferentes, mas uma cumplicidade dialética. Por mais que se afastassem, estariam para sempre ligados um ao outro.

O Príncipe ficou em segundo lugar naquela eleição, mas acabaria herdando a vaga no Senado quando o mais votado se elegeu governador. No ano seguinte à manhã da panfletagem, o Sapo foi preso por alguns dias durante uma greve. É bem verdade que foi uma prisão sossegada: ele era amigo do delegado, que lhe dava regalias. O Príncipe se solidarizou com o companheiro de lutas.

Então o Sapo resolveu criar um partido. Um partido de massas, de base operária, de intelectuais orgânicos. O primeiro confronto entre os cúmplices se deu na eleição da prefeitura da grande cidade. O Príncipe concorreu tendo por adversário um economista amigo do Sapo. Quem saiu ganhando foi um terceiro, o velho professor de gramática. Desta vez ele não renunciou.

No ano seguinte, o Príncipe reelegeu-se para o Senado, com uma votação histórica. E o Sapo foi o deputado mais votado do país. Juntos, participaram da assembleia para fazer a nova Constituição, que acabou saindo tão socialista quanto eles queriam. “Direitos da Suécia com recursos da Gâmbia”, definiu um velho senador de direita, inimigo de ambos.

Tirando a eleição de um aventureiro (logo corrigida com um impeachment), o Príncipe e o Sapo viriam a dividir o poder no país pelas décadas seguintes. Eles se comportavam como as lâminas de uma tesoura: pareciam ir um contra o outro, mas na verdade estavam recortando o país para o mesmo lado.

Por duas vezes, o Príncipe foi presidente, superando o Sapo nas eleições. Por duas vezes, o Sapo foi presidente, superando correligionários do Príncipe nas eleições. Depois, o Sapo conseguiu eleger uma Rã para o cargo máximo do país.

Quando não parecia haver nenhuma alternativa no país, senão o Partido do Sapo e o Partido do Príncipe, eis que surgiu o Caçador. Ele não tinha partido, não tinha dinheiro, não tinha apoio entre a classe política. Alto e bom som, o desbocado Caçador dizia ao Sapo e Príncipe:

― Vocês acabaram com o país, taokei?

E assim, mesmo contra todos os prognósticos dos especialistas, o Caçador venceu as eleições (não sem antes sofrer uma tentativa de assassinato).

Quarenta anos depois, o Príncipe e o Sapo voltam a se encontrar para firmar uma aliança contra o Caçador. O encontro de hoje é apenas a continuação daquela manhã de 1978, na panfletagem à porta da fábrica. Porque o Príncipe sempre foi o Sapo, o Sapo sempre foi o Príncipe ― e naquele começo já estava desenhado o fim dos dois.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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