DIÁRIO DE UM CRONISTA

O presente dos reis

Paulo Briguet · 6 de Janeiro de 2021 às 11:37

No Dia de Reis, preparamos nosso espírito para o combate aos reis do dia

Ao rebelar-se contra Deus, o homem perdeu alguma coisa muito importante, da qual ainda sente saudade. A esse sentimento de falta em nosso coração chamamos pecado original. Hoje, na festa popularmente conhecida como Dia dos Santos Reis, celebramos a esperança de que a perda primordial seja reparada. Os magos do Oriente ― assim eles são chamados na Bíblia ― representam a busca da graça que um dia foi perdida e novamente se oferece à humanidade.

Gaspar, Baltazar e Melchior não são reis no sentido usual da palavra. Na verdade, eles pertencem à primeira casta, dos sacerdotes e sábios, e daí provém a sua dignidade régia. O rei em sentido estrito é Herodes, da casta político-militar. Sabemos como ele odeia o Rei-Menino; sabemos que ele vai sacrificar a vida de inocentes para manter seu poder (como, por sinal, faz-se até hoje).

Os magos do Oriente eram pagãos, provavelmente vindos da região da Pérsia. Embora o texto bíblico não afirme claramente serem três visitantes, pode-se interpretar o episódio como sendo o encontro da diversidade humana com a Trindade divina, aqui representada por uma família humilde e ― também ― trina: um bebê, uma virgem e um marceneiro.

Sim, eles carregam presentes, pois nunca se visita um rei de mãos vazias. Segundo São Bernardo de Claraval, levam ouro para aliviar a miséria do ambiente e render tributo ao monarca; o incenso para aliviar a fetidez do estábulo e sacramentar o acontecimento; e mirra para conservar a incorruptibilidade do corpo e prenunciar a vitória futura sobre a morte. Os presentes indicam, para Jacopo de Varazze, três qualidades de Cristo: “divindade preciosíssima, alma devotadíssima e carne íntegra e incorruptível”.

O autor da “Legenda Áurea” ― um dos livros mais celebrados da Idade Média ― diz ainda que existe um paralelo entre a visita dos magos (a Epifania) e outros três acontecimentos da vida de Jesus. Jacopo cita uma antiga tradição que supõe o batismo de Jesus por João Batista com a idade de 29 anos e 13 dias (Teofania, a aparição de Deus); o milagre da transformação de água em vinho, nas bodas de Caná, com a idade de 30 anos e 13 dias (Betânia, a aparição na casa); e o milagre da multiplicação dos pães com 31 anos e 13 dias (Fagifania, a aparição do alimento).

Outro elemento fundamental nesta história é a estrela-guia, que os magos seguiram até Belém (daí o termo Epifania, aparição do alto). O escritor da “Legenda Áurea” afirma haver, de fato, cinco estrelas numa só: a estrela material, a estrela espiritual, a estrela intelectual, a estrela racional e a estrela supra-substancial. A primeira foi vista no Oriente; a segunda, os magos viram em seus corações; a terceira veio-lhes durante o sono, quando foram advertidos a não procurar mais Herodes; a quarta foi a Mãe de Deus; e a quinta foi o próprio Menino.

“Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.” (Mt 2, 12) Depois que se conhece Jesus, nunca mais se toma o mesmo rumo.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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