GUERRA POLÍTICA

O Otávio Fakhoury que eu conheço

Silvio Grimaldo · 18 de Abril de 2022 às 15:26

Silvio Grimaldo faz uma análise sobre os rumos e conflitos internos da direita brasileira



Eu tô nesse negócio de “direita” desde que isso tudo aqui era mato ― sei lá, desde que o Cláudio Tellez expulsou o Meira-Penna da “Lista L”, época pré-Orkut em que a direita toda era umas 30 pessoas discutindo em lista de e-mail. Lula não tinha sido eleito e a esquerda nos xingava de neoliberais, e não de fascistas.

Vi surgir todo tipo de iniciativa, e participei de algumas delas, de portais de blogs a jornaizinhos universitários impressos, de reuniões em pubs à fundação de think tanks, de comunidades para trocar xerox de livros ao surgimento das primeiras iniciativas editoriais.

Conheci todo tipo de gente nesse meio: intelectuais, políticos, militares, empresários e estudantes. Algumas pessoas sérias e umas dúzias de picaretas. Alguns desses picaretas estão até hoje por aí enganando trouxas.

O primeiro daquela geração de estudantes, que circulavam em fóruns liberais, a desbravar a política eleitoral e partidária, se não me trai a memória, foi o Marcel van Hattem, que se tornou vereador com menos de 20 anos, e que apesar de estar no Novo, hoje vota mais com o governo do que muita gente que se diz da “base”.

Comecei a trabalhar como assistente do Olavo em 2006, e desde então pude observar de perto ― e participar também ― as principais movimentações da direita que começava a tomar corpo. Quando começaram as jornadas de 2013, a casa do Olavo em Carson se tornou o centro gravitacional de intelectuais, ativistas, políticos e empresários que queriam “fazer alguma coisa”. Presenciei várias dessas reuniões, e muitas outras em hangouts fechados, até com gente que morava na China. E vi todo tipo de aproveitador e oportunista surgir e derreter meses depois.

Acompanhei todos os dramas, sofrimentos e dificuldades, todas as dores de parto dessa nova geração da direita que surgia, que saia finalmente dos fóruns de internet para tomar as ruas, com possibilidades reais, pela primeira vez na história, de vencer uma ou outra eleição.

Como Olavo era a grande voz contra o Foro de São Paulo, a articulação se estendeu também pelo continente e, somando-se aos brasileiros que viajavam para a Virgínia atrás de auxílio, vi se formar uma fila de dissidentes argentinos, venezuelanos, bolivianos, mexicanos, cubanos, etc. que o procuravam em busca de ajuda. Cheguei até a passar duas semanas com Olavo em Bogotá, durante as eleições colombianas, quando ele foi chamado para ajudar na eleição do sucessor de Álvaro Uribe.

Testemunhei de perto a construção da alternativa Bolsonaro. Enquanto o Jair era conhecido apenas como piada no CQC, Olavo já via nele o futuro presidente.

Em 2018, vi, como hoje, pessoas boas sendo atacadas e destruídas por alertarem Bolsonaro sobre gente que não deveria estar no “bonde da direita”, como Major Olimpio, Bebbiano, Julian Lemos e Francischini, uma gente que já era denunciada dentro da direita desde a campanha. Esses também tinham seus pitbulls e conseguiram ficar. Deu no que deu.

Participei do governo de transição, onde todo dia chegavam uns 30 novos “bolsonaristas desde criancinha”. Descobri uma fila de milicos aposentados cavando cargos, picaretas de toda sorte oferecendo soluções geniais e currículos da sobrinha. Naqueles dias, todo mundo era anticomunista em Brasília!

Fui parar no MEC como assessor especial do ministro. No gabinete, participei de reunião com embaixadores, ministros, prefeitos e governadores, e recebi demandas de deputados e lobistas de todas cores e tamanhos. Conheci funcionários públicos conservadores que trabalhavam, e não eram poucos.

Enfim, posso dizer que eu já vi e participei de um tantão de coisas nessa tal direita.

Justamente por acreditar que meu testemunho serve de alguma coisa é que posso com tranquilidade afirmar que em todo esse tempo, e em todos esses meios, eu conheci poucas pessoas como o Otavio Fakhoury.

E quando falo poucas, estou pensando nos dedos de uma mão. Se formos falar só de empresários, a conta fica então ainda mais restrita.

O Faka empenhou sua fortuna pessoal, sua reputação, o nome de sua família, seu tempo e sua palavra na construção de uma direita minimamente organizada, sem jamais fazer uma demanda, sem pedir um cargo ou vantagem, sem indicar um nome para um gabinete, nada. E isso não é de agora.

Sem o Faka, muito de 2018 não teria acontecido. E nem falo só do financiamento de campanhas que eram absolutamente fundamentais, coisa que qualquer um pode conferir no site do TSE. Doar para campanha de candidatos e políticos pode até ajudar, mas o importante mesmo foi seu trabalho junto à militância, formadores de opinião e lideranças de movimentos, um esforço que lhe rendeu duas buscas e apreensões, três quebras de sigilos, um inquérito no STF, uma CPI e umas 5 mil reportagens caluniosas na grande imprensa, de onde saiu com a reputação ainda mais fortalecida.

Quando Bob Jeff o convidou para liderar a reforma do PTB em SP, Faka se reuniu com vários segmentos da direita antes de aceitar. Sua idéia não era alimentar um projeto pessoal, mas criar uma estrutura política para o movimento conservador e uma plataforma partidária para Bolsonaro e seus aliados na direita.

Acredito que continua sendo esse seu objetivo.

Tanto o Faka quanto o Bob Jeff deixaram claro para todos desde o começo que o PTB estaria ao lado de Jair, vindo o Bolsonaro para o partido ou não, sendo o PTB a casa do presidente ou servindo-lhe apenas de aliado eleitoral e parlamentar.

Além disso, era preciso construir uma via partidária para bolsonaristas que não conseguissem encontrar espaço no PL, devido a sua política local de alianças, evitando constrangimentos como esse do Tarcísio ter que subir no palanque com um comunista igual ao Datena.

Se tem uma coisa que é óbvia para todo mundo que conhece o Faka é sua lealdade ao Bolsonaro, óbvia até para o governo, que mantém interlocutores com ele justamente por saber da necessidade de uma tendência conservadora integrando a coalizão governista.

Eu até entendo que tenha gente que não goste de críticas ao Centrão, porque isso pode de certa forma alimentar uma narrativa anti-Bolsonaro, mas é preciso ter maturidade para entender que criticar a política de alianças do PL é completamente diferente de criticar o governo e mais ainda o Bolsonaro. E na verdade, até ir na procissão da Sexta da Paixão alimenta narrativas anti-Bolsonaro.

Atribuir ao Faka, para colar em sua testa a pecha de traidor, opiniões e ações de terceiros, seja do grupo do Weintraub, seja de expurgos do PTB, seja de seus seguidores no Twitter, é um expediente desonesto e que só causa mais confusão na direita, quando o que ela mais precisa no momento é de clareza e serenidade.

Não vejo necessidade de desmontar as insinuações e colagens que o Kim Paim fez sobre o Faka porque ele próprio já o fez ontem a noite no Instagram. Mas eu disse no Twitter outro dia que achava o trabalho do Kim Paim importante, e agora isso precisa de um reparo. Eu ainda acho ― sobretudo quando ele está desmontando as falácias da mídia, da esquerda e da terceira via. Contudo, promover uma caça às bruxas entre aliados históricos do presidente, para criar um clima de histeria persecutória, é um erro tático e um desserviço, ainda mais quando a narrativa falsifica os fatos. E digo erro porque acho que o Kim faz isso autonomamente, acreditando que assim contribui para o avanço da direita, e não porque segue ordens de alguém que tem uma estratégia bem clara para destruir o incipiente movimento conservador.

Silvio Grimaldo é cientista político e diretor de conteúdo do BSM.

 


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