DIÁRIO DE UM CRONISTA

O ódio é livre

Paulo Briguet · 18 de Março de 2021 às 10:58

Como escrever um artigo bem lacrador sem precisar usar o cérebro

 

Certa vez o grande Millôr Fernandes fez um comentário devastador sobre o filólogo e dicionarista Antônio Houaiss:

— Ele conhece todas as palavras, só não sabe juntar umas com as outras.

E Millôr estava certo. Apesar de sua proverbial erudição, Houaiss —aguerrido militante do Partido Socialista Brasileiro —não era, digamos assim, um dos escritores mais brilhantes de sua geração. Não chegava aos pés do próprio Millôr, só para ficar em um exemplo.

Acontece que na época de Hoauiss não havia Google nem internet. Para conhecer as palavras, era necessário ler livros. E ninguém há de negar que Houaiss os leu (se entendeu, são outros quinhentos).

Hoje, se você quiser “escrever” um artigo composto apenas por sinônimos, basta dar um Google no termo desejado e preencher a página com os resultados. Por exemplo, se você pretende demonstrar que uma determinada jornalista é “canalha”, basta ir ao Dicionário de Sinônimos e dar um ctrl c + crtl v.

Canalha. Cafajeste. Escrota. Ignóbil. Indecorosa. Indigna. Infame. Mesquinha. Miserável. Odiosa. Ordinária. Patife. Pífia. Pulha. Reles. Ribalda. Sacana. Sem-vergonha. Soez. Sórdida. Torpe. Tratante. Velhaca. Vil.

Se você quiser disfarçar, misture as palavras, afinal dá muito na cara deixá-las em ordem alfabética. Escolha alguns outros termos bem ofensivos (burra, esquerdista, anta, debilóide, analfabeta, caquética, ressentida, hipócrita), faça a mesma operação — e pronto: a mágica aconteceu. Você tem um artigo de ódio para chamar de seu. Truman Capote diria que isso não escrever, é digitar — mas quem liga?

A história se repete como clichê. O método que acabei de expor acima é apenas uma reedição lacradoramente correta da “escrita automática” do guru dadaísta Tristan Tzara, do começo do século XX.

Mas, já que estamos falando de literatura, devo dizer que acabei de reler, pela enésima vez, o romance distópico “1984”, de George Orwell, na excelente versão traduzida por Pedro Sette-Câmara e editada pela Sétimo Selo (que, a propósito, você encontra aqui na Livraria do BSM).

Logo no começo de 1984, Orwell descreve o evento intitulado Dois Minutos de Ódio, quando os cidadãos da Oceania são obrigados a interromper o que estiverem fazendo para xingar, urrar, babar, estrebuchar, sapatear e arremessar objetos contra o inimigo do povo e genocida Emmanuel Goldstein.

Pois foi exatamente o que uma colunista da extrema-imprensa fez hoje: entediada, possivelmente de ressaca e pouco disposta a juntar palavras para que fizessem algum sentido, decidiu lançar mão do truque exposto acima, e preencheu seu espaço no jornal com uma torrente de adjetivos dirigidos ao presidente Bolsonaro. Desembuchou seus Dois Minutos de Ódio e ar-ra-sou.

A diferença entre a passagem de 1984 e a coluna da jornalista é que Orwell sabe escrever.

Enganou-se, portanto, a apresentadora da Globo ao afirmar que “o choro é livre”. Nada disso: o cidadão comum está impedido até mesmo de chorar em público, ou terá de sofrer as consequências. Tem mais é que chorar escondidinho dentro de casa, para não perturbar a paz pública e expor a coletividade a lágrimas que podem conter o vírus.

O que é livre é o ódio — desde que seja contra Bolsonaro. Nesse caso, trata-se de um ódio quase amor.

Paulo Briguet é editor-chefe do BSM e gosta de juntar palavras.


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