ANÁLISE POLÍTICA

O nascimento do lavajatismo

Lucas Mafaldo · 3 de Maio de 2020 às 16:31 ·

O lavajatismo é a confusão entre o processo legítimo de investigar políticos corruptos e a crença utópica na possibilidade de substituir inteiramente a política pela técnica e pela moralidade. Paradoxalmente, trata-se de um fruto da hegemonia cultural esquerdista

Durante a última semana, o debate público se concentrou na saída de Moro do governo Bolsonaro. Ao sair em um período de crise, insinuando interferência política em investigações federais, Moro abriu o flanco do governo para um processo de impeachment. A gravidade da situação foi exacerbada pelo fato de o ex-ministro ter sido uma figura muito admirada pela nova direita, criando mais uma divisão em um movimento ainda jovem.

Apesar de ser tentador discutir as acusações e motivações de Moro, creio que essa é uma ótima oportunidade para discutirmos algo muito mais básico e, por isso mesmo, mais importante: a natureza ideológica da nova direita.

É sempre mais vantajoso, afinal, atacar a causa de um problema do que lutar contra seus sintomas mais superficiais.


Da Operação Lava Jato ao lavajatismo

A Lava Jato teve impactos além do campo propriamente criminal. Ela foi um dos fatores contribuintes para um fenômeno ainda pouco compreendido: o grande renascimento do espírito cívico brasileiro.

O tamanho dessa transformação é inegável. A política se tornou um assunto mais discutido — e mais passional — do que os campeonatos de futebol. A escalação do STF se tornou mais conhecida do que a da seleção brasileira. O japonês da federal virou meme. O próprio Sérgio Moro virou estampa de camiseta. O brasileiro se reencontrou com o orgulho patriótico e foi às ruas vestido de verde-e-amarelo. As tias do zap se tornaram uma instituição nacional. Para o bem e para o mal, a sociedade brasileira se tornou incrivelmente mais politizada nos últimos cinco anos.

Para explicar a natureza dessa transformação — e o papel da Lava Jato nessa história — irei precisar de vários artigos. Mas para começar, façamos uma distinção entre a Operação Lava Jato e o que eu estou chamando de lavajatismo.

Compreendo a admiração e esperança que os brasileiros depositaram na Operação Lava Jato. Há uma dose inegável de heroísmo em colocar os poderosos atrás das grades. Além disso, essas investigações derrubaram a imagem dos petistas de defensores da ética e da moralidade pública — imagem, aliás, cuidadosamente preparada ao longo dos anos 90.

Os méritos da Lava Jato, nesse sentido, são inegáveis: a operação acendeu no peito dos brasileiros o desejo por justiça e os motivou a entrar na arena política, precipitando as primeiras fissuras no sistema de dominação petista.

No entanto, a própria operação trazia a marca de um desejo messiânico, misturando um novo ímpeto moralista com a antiga tradição positivista brasileira: a convicção de que as mazelas nacionais poderiam ser resolvidas por um corpo de burocratas éticos e competentes.

O lavajatismo, portanto, é a confusão entre o processo legítimo de investigar políticos corruptos e a crença utópica na possibilidade de substituir inteiramente a política pela técnica e pela moralidade.

Embora o lavajatismo tenha energizado parte da militância da nova direita, ele é também uma fonte de fraqueza. Como toda crença utópica, transmite uma visão simplificada e irrealista do mundo, tornando seus portadores menos capazes de agir na realidade concreta. Nesse sentido, foi esse utopismo que levou a direita a se enganar em relação a Moro — e erros semelhantes serão novamente cometidos, enquanto não se corrigir essa limitação.

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