BRASIL SEM MEDO EM FÁTIMA

O importante é entrar no céu

Brás Oscar · 14 de Maio de 2021 às 15:01

Brás Oscar, correspondente do BSM em Portugal, mostra o drama dos que não conseguiram entrar no Santuário de Fátima neste 13 de maio da pandemia

“sed quia tepidus es, et nec frigidus, nec calidus,
incipiam te evomere ex ore meo”
(Apocalipse 3,16)

 


(Fátima, Portugal) - Para a surpresa de muitos, 13 de maio não é feriado em Portugal. Isso já nos diz alguma coisa sobre o quão morna é a percepções de maioria dos portugueses desta geração em relação à aparição mariana mais importante da história. Aliás, este fato já deveria me advertir sobre o cenário que eu encontraria mais tarde.

Saímos cedo, eu e minha família, de nossa aldeia, na mesma região montanhosa onde fica Fátima, a Serra d’Aires, e subimos a estrada sinuosa até a Cova da Iria, originalmente o nome de um campo que pertencia à família da Irmã Lúcia e, atualmente, a região mais nobre no centro da cidade de Fátima, onde ficam o Santuário e a Capela das Aparições. O local já me é familiar, e ao chegar perto o coração se esquenta só de ouvir a algazarra dos melros e pardais no parque de oliveiras e azinheiras que cercam a estrutura principal do Santuário, com sua Basílica branca imponente abraçando o pátio central.

Quando chegamos a uma das cancelas de entrada via-se mais policiais e seguranças que os padres e freiras habitualmente numerosos que povoam aquela lugar dia e noite, ou assim costumavam em tempos de sanidade. Muitos querendo entrar, pessoas inconformadas, pessoas conformadas, mas muito menos gente que em anos anteriores. Andar em Fátima ou conseguir tomar um café e um pastel de nata sentado, sem uma reserva, era praticamente impossível em qualquer 13 de maio anterior. Mas agora andava-se com folga mesmo nos corredores de acesso à Basílica.

Nossa Senhora de Fátima é uma espécie de instituição cultural portuguesa. Do Minho ao Algarve vê-se imagens, pinturas, medalhas, azulejos… aparentemente ninguém ousa duvidar que a Mãe do Cristo apareceu aos pastorinhos para nos avisar que somos um bando de desgraçados afetados por coisa inúteis e que, se não nos emendarmos severamente, vamos todos para inferno. Por outro lado, depois de alguns anos, eu também ouvi aqui as vozes mais céticas e odiosas ao milagre mariano. Homens com pouco juízo, cheios de teorias, mas – gostem ou não – com alguma coragem para ousarem ir contra o senso comum, porque é isso que Fátima se tornou para as autoridades eclesiásticas portuguesas: senso comum. Se o ardor e a coragem dos ateus endemoninhados também dessem a tônica das ações do nosso clero, penso que não veríamos as cenas que se seguiram.

7.500 pessoas enfileiradas, obrigadas a conterem-se dentro de círculos, como em um comício de Joe Biden, escutavam a celebração e as palavras de bispos e cardeais. Pelos alto-falantes ou pelo celular ou mesmo nas televisões dos cafés vizinhos, talvez outros 5 ou 6 mil que se recusaram a ir para casa escutavam também a liturgia, muito bonita, acompanhada pelo órgão de tubos e pelo coro, com algumas partes sendo repetidas em outros idiomas, inclusive latim. O espaço reservado para a imprensa nos impedia de falar com o povo que havia conseguido entrar, mas uma funcionária do Santuário havia me informado que dos 7.500 foram os primeiros da fila que estava ali desde a madrugada, muitos estavam nos hotéis ou mesmo dormindo em carros, desde o início da semana, para garantir que estariam ali no momento da abertura dos portões.

Entre os que ficaram de fora, encontramos uma senhora já com seus 70 anos, que se achegou até os meus filhos e deu-lhes, para a menina, uma pequena imagem de Nossa Senhora de Fátima com feições de um desenho singelo feito por criança e, para o menino, um tercinho azul com a imagem de um dos videntes, São Francisco Marto. A primeira reação da minha esposa foi pensar que se tratava de algum vendedor ambulante, que também estavam escassos este ano, destes que já vão colocando a mercadoria na mão do possível cliente e depois dizem o preço. Eram presentes mesmo, assim, espontâneos. Disse que achou muito bonito ver uma família com crianças pequenas ali, rezando; ultimamente só os velhos têm fé, dizia ela.

Queríamos saber mais daquela gentil estranha – apesar destes atos de gentileza e hospitalidade espontâneos serem muito comuns entre os portugueses mais idosos – e descobrimos que aqueles presentes que ela havia ofertado às crianças foram o motivo de ela estar lá fora. Todos os anos ela saía de sua vila, longe de Fátima, para as solenidades desta data, e comprava terços e imagens para dar de presente aos demais peregrinos. Como ela havia chegado uma dia antes e se hospedado muito perto, havia conseguido, na primeira hora da manhã, entrar no Santuário, mas então lembrou-se que havia se esquecido de comprar os presentes. A nossa benfeitora saiu, comprou os souvenires, e não a deixaram mais entrar.

Debaixo da chuva fina, naquela manhã nublada anormalmente fria para o maio primaveril, aquela senhora sentou-se à porta que da acesso ao átrio lateral da Basílica, donde era possível ver a celebração da Eucaristia e o andor que traria a imagem de Nossa Senhora até o altar. Ela e outros se aglomeravam debaixo de um alpendre estreito e alto para espiar a missa, mas sem qualquer razão, alguém a cargo da organização do evento mandou fechar a porta na cara dos peregrinos. Ninguém arredou o pé. Ficaram ali, ouvindo e rezando, acreditando mesmo sem ver.

Lá dentro, algum bispo ou cardeal dizia que as medidas sanitárias – assunto primordial nas atuais homílias – eram um ato de amor ao próximo. Dizia o reverendíssimo, em rede nacional, que obedecer as medidas das autoridades sanitárias sem as questionar era preocupar-se com a vida do próximo; ato de verdadeiros cristãos. Não havia, entretanto, um cristão sequer nos demais órgãos de imprensa que mostrasse os que estavam lá fora ajuntando-se em todas as vias de entrada do templo, e que, não fosse a obsessão em transformar o culto à Nossa Senhora num espetáculo sanitarista para inglês ver, caberiam tranquilamente naquele imenso pátio em pleno céu aberto que, em tempos de sanidade mental, já acolheu 300 mil fiéis.

Despedimo-nos da senhorinha, que estava sorridente e com os olhos brilhando, dizendo-nos para não nos entristecermos com aquilo, pois o Céu era assim, de certa maneira: há muitos que querem entrar, e sempre há os que desistem e acham difícil. Também há os que ajudam os peregrinos e há os que tentam fechar as portas do Céu, como se fossem donos dele. O importante é persistir, porque aqui no Santuário, é tudo muito bonito, mas no Céu é melhor, e o importante mesmo é entrar no Céu; lá não há quem nos bata a porta na cara.
 
– Brás Oscar é colunista e correspondente internacional para o BSM e para o PHVox.


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