PODER GLOBAL

O imperialismo tecnocrata

Lucas Mafaldo · 12 de Abril de 2020 às 17:18

Burocracia internacional usa discurso cientificista para exercer um novo tipo de autoritarismo sobre as nações e os povos

Nos últimos anos, as forças políticas ocidentais se realinharam a partir de uma nova questão: a disputa entre a legitimidade dos estados nacionais e dos organismos internacionais. O mesmo tema se revela na ascensão de Trump à presidência americana, no longo e tortuoso processo do Brexit e na crescente insatisfação contra a União Européia em diversos países europeus.

O termo realinhamento é importante: o novo eixo atravessa tanto os antigos partidos de direita como os de esquerda, criando novas frentes de batalha. O exemplo clássico foi quando Trump teve que enfrentar uma resistência forte da elite do próprio partido para unificar sua base em torno de uma mensagem nacionalista. O mesmo se observou na Inglaterra, onde Boris Johnson precisou expulsar membros do próprio partido antes de enfrentar as eleições gerais.

Um dos lugares-comuns que explicavam as antigas disputas políticas era que a direita e a esquerda se distinguiam por defender graus distintos de intervenção estatal. Esse esquema já era superficial no passado, mas tinha ao menos a utilidade de resumir a disputa entre economia de mercado e economia estatal simbolizada pela competição entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria.

Hoje em dia, o cenário se tornou ainda mais complexo, o que tornou esse antigo modelo totalmente inadequado. O governo chinês, por exemplo, conseguiu liberalizar diversos setores da sua economia enquanto aumentava enormemente o seu controle sobre sua população. Além disso, os próprios países ocidentais têm passado por um processo de crescente regulamentação que têm favorecido a concentração do mercado nas mãos de grandes corporações — embora, evidentemente, nada próximo do nível de concentração observada nos antigos países comunistas.

Em suma, o ângulo econômico simplesmente é estreito demais para explicar as forças em disputa. Precisamos de uma linguagem política mais abrangente para descrever essa realidade.