Cultura

O futuro de Olavo de Carvalho

Especial para o BSM · 24 de Janeiro de 2023 às 09:04

Olavo viveu e morreu como corpo estranho no combalido organismo da cultura brasileira. Mas no futuro tenderá a surgir mais como ele mesmo, sem o ruído que hoje o cerca, e agigantar-se como fonte viva de cultura.

Especial para o BSM por Ronald Robson

Quando me perguntam se algum dia o pensamento de Olavo de Carvalho terá sua importância reconhecida, se irá caber a ele lugar de destaque no que se percebe como cultura brasileira, costumo responder que ele está para nós hoje como esteve Gilberto Freyre para a circulação de ideias no Brasil do século XX. Freyre, pelos novos métodos sociológicos que desenvolveu e pela amplitude em que situava a discussão de nossos problemas – uma modernidade alargada, à qual dava um tratamento em que Lucien Febvre e Fernand Braudel reconheceriam o modelo do que eles próprios se ocupavam de fazer –, estava no centro de nossas Humanidades e, por isso, à margem de nosso comércio intelectual rotineiro.

Freyre é celebrado, seus livros têm saída, mas a classe mais ou menos amorfa da qual em geral esperamos o peneiramento das ideias, os “intelectuais” (professores universitários, curadores culturais, opinadores em geral), ainda hoje trata o mestre de Apipucos com condescendência, senão com franca oposição, a fim de mantê-lo cativo das etiquetas de reacionário e ideólogo da morenidade, alvo de predileção daqueles que hoje combatem o “racismo estrutural”. As ideias seminais de livros como Aventura e rotina (1953) e Para além do apenas moderno (1973) não chegaram a ser combatidas. Foram apenas ignoradas pelos palradores de maior visibilidade e nutridas à sombra, quase como uma boa-nova que se deve manter em segredo, por um círculo relativamente estreito de estudiosos, infelizmente muitas vezes de tendência especializada demais, até provincianos, e pouco atentos à vocação integradora, “multidisciplinar” e universalizante da obra de Freyre.

Similar é a posição de Olavo de Carvalho, falecido há exatamente um ano. Olavo atualizou as Humanidades no Brasil como talvez, antes dele, só o tinham feito Freyre e Otto Maria Carpeaux. É constrangedora a estreiteza mental, a pobreza de referências dos professores universitários e articulistas culturais que Olavo notabilizou em O Imbecil Coletivo (1996) por sua perfeita ignorância do circuito mais amplo das ideias – expandido por Olavo até o Oriente e até uma antiguidade remota –, que deveria prover os ditames básicos de qualquer discussão cultural. Ives Gandra Martins estava correto ao dizer que “Olavo é o mestre de todos nós”.

Olavo não se limitou a editar obras de Otto Maria Carpeaux e Mário Ferreira dos Santos: deu-lhes novas chaves interpretativas. Fez publicar três títulos importantes numa Biblioteca de Filosofia que dirigiu na editora Record, infelizmente logo abortada: um do filósofo francês Émile Boutroux, outro do filósofo romeno Constantin Noica, outro ainda do filósofo alemão Eugen Rosenstock-Huessy. Foi parte ativa na fundação de pelo menos duas editoras (É Realizações e Vide Editorial), cujos catálogos guardam as marcas das indicações bibliográficas que distribuiu em milhares de artigos e aulas, em dezenas de livros. Em suas aulas, vigorava como realidade aquilo que numa oportunidade disse ser sua missão: “vincular nossa cultura às correntes milenares e mais altas da vida espiritual do mundo”, “fazer em suma com que o Brasil, em vez de se olhar somente no espelho estreito da modernidade, imaginando que quatro séculos são a história inteira do mundo, consiga se enxergar na escala do drama humano ante o universo e a eternidade”. Por isso, suas exposições podiam passar sossegadamente da crítica à modernidade para a crítica de críticos da modernidade como René Guénon, ou da filosofia da ciência de Edmund Husserl para a filosofia da iluminação na tradição persa, sem que lhe parecesse minimamente estranho o procedimento de por lado a lado, numa mesma frase, uma expressão brasileira chula e uma citação obscura de autor da antiguidade.

Em razão dessa amplitude de ideias e de estilos, e não menos em razão da novidade de seus métodos, Olavo torna-se um problema para a cultura oficial brasileira – se me permitem a expressão. Justamente sua autoridade, sua centralidade, o empurra para a margem do debate cultural, condenado se tanto ao papel de autor excêntrico – e ele o foi incontáveis vezes –, com esta ou aquela ideia interessante e uma prosa, vá lá, atraente, mas que jamais pode ser citado como autoridade em matéria alguma, tanto mais após associar seu nome ao governo de Jair Bolsonaro. Mais ou menos como em determinados meios universitários não é possível citar o nome de Freyre sem mencionar seu apoio ao regime militar.

Há, porém, uma razão mais profunda para a marginalização de Olavo.

Este não é o local apropriado para defender a originalidade de seu pensamento. O leitor gentil me perdoará a sugestão de que leia meu livro Conhecimento por presença: em torno da filosofia de Olavo de Carvalho (2020) caso queira conhecer algo da obra do último grande filósofo brasileiro (ou então aguarde o curso on-line que em breve irei oferecer sobre alguns aspectos seus). Mas gostaria de chamar atenção para um traço da obra de Olavo que importa ao nosso assunto: ele não só não aspirou a ser um intelectual universitário, cuja pesquisas já nascessem em formato palatável a esse meio, como de certa maneira não aspirou sequer a ser um intelectual.

O intelectual, como o conhecemos hoje, é uma criação do publicismo francês do século XVIII. Sua existência se liga intimamente às novas tarefas que os antigos clérigos, os letrados, viram surgir com a ampliação do “espaço público” que mediava entre realeza e povo, espaço aos poucos roubado ao poder absoluto dos reis e entregue à pena de gente de razoável cultura que não encontrara outro meio de viver senão dizendo algo de supostamente importante. O intelectual se torna o guarda de trânsito das ideias. Sobretudo um opositor do poder constituído, que ele próprio irá tentar uma hora dirigir a fim de sanar os males que tanto denuncia. O destino do intelectual será o de “transformar o mundo”, como queria Marx, ou “tornar o mundo melhor”, como dizem jovens e velhos piegas de hoje.

Olavo guardava completa incompatibilidade com essa imagem de intelectual; daí seu incômodo na década de 1990, época em que ainda tinha algum espaço na imprensa, em ser chamado de “polemista” a torto e a direito.

Toda a filosofia de Olavo de Carvalho vai no sentido de diluir as construções conceituais que confundem, e até obstaculizam inteiramente, a experiência que o indivíduo tem da realidade. Dos seus estudos de simbolismo a seus estudos da mente revolucionária, o filósofo sempre orbita a noção de presença, aquela faixa individualíssima da realidade que funda a própria possibilidade de que a conheçamos, e que, coisa fundante que é, não pode ser fundada pela própria cognição. Olavo peregrinou por várias culturas em busca de uma via de acesso menos atravancada ao real. Sabia que hoje precisamos de treino para refinar o tato de nosso intelecto, que toma as luvas com que apalpa o real pelo próprio real. No limite, a tarefa da filosofia de Olavo de Carvalho – e o cerne da revisão do pensamento moderno para a qual contribuiu – é dissolver-se em experiência. Tenho certeza de que ele aprovaria estas palavras do filósofo colombiano Nicolás Gómez Dávila: “Ingressamos novamente em épocas que não esperam do filósofo nem uma explicação nem uma transformação do mundo, mas a construção de abrigos contra a inclemência do tempo”. A ambição da obra de Olavo é desmesurada se comparada à humildade de seu objetivo.

Desmesurada até porque ainda se encontra em grande medida na condição de projeto. Na verdade, Olavo foi um projeto. Não que tenha deixado demasiadas coisas inconclusas (embora tenha deixado algumas, lamentavelmente, como o ensaio A marcha dos abismos), não que tenha descuidado do capricho formal que suas últimas obras pediam (embora tenha descuidado, sim, como narro neste texto sobre meu trabalho na preparação de alguns de seus livros), não que tenha desperdiçado energia com assuntos e pessoas que não mereciam sequer que ele lhes dirigisse a palavra (embora também o tenha feito). Não, não falo de nada disso. Falo do cerne de seu pensamento; falo da necessidade de desdobrar em obras de arte, livros e pesquisas os muitos tópicos de sua filosofia, como a desconcertante “teoria da tripla intuição”, coisa que ele mesmo não fez. Falo da necessidade de dar foros de cidadania à “teoria dos quatro discursos” nas mais diversas áreas do saber, e sequer me consta que suas mais óbvias aplicações à historiografia, tantas vezes sugeridas pelo próprio Olavo, tenham sido aproveitadas por alguém. As discussões da “técnica filosófica”, como Olavo a entendia, necessitam ir muito além dos rudimentos que expus em meu livro sobre o filósofo. Toda a sua multitudinária reação à filosofia de Kant permanece dispersa nas fontes mais heterogêneas, o que torna muito difícil ao estudioso, mesmo ao estudioso honesto e bem-disposto, inteirar-se do escopo de seus argumentos e aquilatar sua verdade ou erro – pois muitas vezes não resta claro nem a qual passagem de Kant ele está aludindo em algumas de suas críticas.

Poderia multiplicar os exemplos ad nauseam. Poderia avançar sobre o terreno mais espinhoso da necessidade de estabelecer um grupo de trabalho que ao longo de algumas décadas fixasse o texto das por ora improváveis Obras Reunidas de Olavo de Carvalho. Mas calma. Até porque não quero sugerir, como já me sugeriram mais de uma vez, que é preciso tornar Olavo um autor mais “acadêmico”.

A propósito, um professor livre-docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) certa vez me disse que o pequeno estudo de Olavo sobre as formas fundamentais de expressão humana, Os gêneros literários: seus fundamentos metafísicos (1991), poderia ser perfeitamente adotado para cursos de um semestre em departamentos de letras. De um professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ouvi a afirmação de que Olavo estava para as Humanidades no Brasil, na década de 1990, como os irmãos Augusto e Haroldo de Campos estiveram para os estudos poéticos décadas antes: foi alguém responsável por ampliar o leque de referências. E já ouvi de professor de artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), um partidário vulgar da esquerda, a confissão de que lia com o maior interesse os ensaios de Olavo na extinta revista Bravo!.

Recordo esses casos apenas para ilustrar como seria relativamente fácil tornar Olavo lido nas universidades: bastaria que aqueles que se queixam das universidades ingressassem nelas, participassem de grupos de pesquisa, pusessem Olavo entre as referências, o discutissem, o editassem. Há zonas relativamente incontroversas em sua obra, que poderiam ser aproveitadas. Tudo isso é muito importante, mas não é o mais importante. Interessa-me em primeiro lugar o que fazer de mim, a partir da obra de Olavo, como creio que deveria interessar aos demais alunos dele. René Descartes fez-se o protótipo do filósofo moderno (do bom filósofo, inclusive) ao dar as costas à universidade. A cultura mais pujante criada entre os séculos XV e XVIII veio das franjas das universidades, da borda cultural de agremiações e institutos, com mais patrocínio privado que estatal. E foi justamente grande parte dessa cultura que, num movimento oposto, se oficializou nas universidades a partir do século XIX. Nelas o intelectual se trancafiou novamente: se no século XV lia manuais nos quais se decantava uma rala beberagem de Pedro Lombardo e Aristóteles, agora passava a beber de um suco concentrado de historicismo que o entronava feito novo guia dos povos, pois que situado no ápice histórico a partir do qual julgaria – negativamente, presuma-se – todo o passado humano. Mais uma vez, o intelectual confunde o mundo com a confortável torre de marfim onde se alojou. Descartes hoje começaria por fazer implodir metodicamente essa torre.

À sua maneira, Olavo fez isso, e é provável que seu nome aos poucos passe a ser tomado em outros países como referência de um novo tipo de intelectual, que talvez não seja ridículo denominar intelectual por dissidência, o que é bem mais que um intelectual dissidente. Essa percepção se ampliará à medida que um grupo de pessoas tiver por sua obra a devoção que um Edson Nery da Fonseca teve pela de seu mestre Gilberto Freyre, num discipulado constante e criativo. É preciso exercitar a liberdade que Olavo nos deu, a qual irá independer de maior ou menor liberdade política. Milhares e milhares de páginas do matemático germano-francês Alexander Grothendieck (1928-2014) permanecem inéditas, na condição de autógrafos e datilógrafos que eram xerocopiados e hoje são digitalizados e repassados adiante. Seus alunos e os alunos de seus alunos mantiveram estudo vigilante e ativo de suas lições, ampliando-as em direções imprevistas, levando-as a universidades, institutos de pesquisa, mesas de café e publicações culturais mundo afora. Transformaram em magma criativo, até em elo pessoal entre indivíduos, o que aquele homem singular deixou disperso e inacabado numa vida de eremita, após dar as costas à universidade e perder-se por décadas em algum ponto dos Pireneus.

Não precisamos resolver todos os problemas do Brasil, nem esperar que a obra de Olavo seja respeitada, ou que todas as suas aulas e escritos sejam editados, para que façamos jus àquilo que ele deixou. Seu site, o Seminário de Filosofia, segue no ar com centenas de aulas e materiais de apoio; há dezenas de livros seus em catálogo. Apossemo-nos disso do jeito como está. A obra dele irá crescer na medida em que fizermos dela coisa nossa, na medida em que crescer em nós. Eu mesmo, tivesse esperado condições ideais de pesquisa, jamais teria escrito Conhecimento por presença. Façamos de seu último grande livro, Inteligência e verdade: ensaios de filosofia (2021), o eixo da sua posteridade. Assumamos o caráter de projeto que perpassa toda a atuação de Olavo e façamos dela não uma nova torre de marfim, nem tampouco um aríete com que arrombar os portões universitários, mas forma e matéria de experimentos culturais impremeditados e mesmo impossíveis de premeditar, que ainda estão para surgir nesta parte inglória do globo e nesta época de ocaso de grande parte do que conhecíamos por Ocidente. Não há o que lamentar: será divertido.

Nem tudo até agora foi divertido, contudo. Olavo teve a vida que escolheu, não a que merecia – menos ainda a que merecíamos nós outros, seus leitores e alunos. Optou, com todas as suas idiossincrasias, por ser um mestre, um professor full time, o que desnorteou muita gente, tentada assim a emular até seus gestos e gostos, quando não cada uma de suas palavras acerca de tudo e todos. Bem como desnorteou aqueles que nele não viram mais que a pátina do palavrão e do doesto, e que fizeram da fofoca uma régua pela qual medir sua obra. Que Olavo tenha feito um prognóstico errado ao afirmar que “Bolsonaro é o líder natural e predestinado da revolução brasileira” não deveria hoje escandalizar ninguém, pelo menos não escandalizar mais que o próprio fato de ele ter escrito isso – por maior que seja sua simpatia pelo governo anterior.

Se você teme pelo futuro do pensamento de Olavo, tranquilize-se com o fato de que as gerações vindouras entrarão em contato com ele em condições mais propícias. Olavo foi odiado pelo PT e pelo MBL, por militares e por bolsonaristas, por Fernando Haddad e por Marco Antonio Villa, por católicos progressistas e por católicos tradicionalistas, por muçulmanos e por militantes do movimento gay, mas vou parar antes de citar nomes de youtubers. É um currículo formidável, que não o isenta de erros nem o cobre com o manto de outsider imaculado, mas que assinala uma marca constante de sua atuação: Olavo viveu e morreu como corpo estranho no combalido organismo da cultura brasileira. Mas no futuro tenderá a surgir mais como ele mesmo, sem o ruído que hoje o cerca, e agigantar-se como fonte viva de cultura.

Em O futuro do pensamento brasileiro (1997), Olavo apontou quatro grandes “nascentes” da inteligência nacional: o pensamento jurídico de Miguel Reale, a sociologia de Gilberto Freyre, a historiografia e crítica de Otto Maria Carpeaux e a filosofia de Mário Ferreira dos Santos. Seria demais apostar que no futuro críticos serão tentados a incluir o pensamento de Olavo como uma quinta nascente criativa?

No futuro eu não sei, mas no presente ele é a nossa mais possante nascente criativa. E a mais mal aproveitada. Morto, Olavo nada tem a ganhar de nós: nós é que temos tudo a perder sem ele.

***

P.S.: Já havia concluído a redação deste artigo quando Mariana Reis me informa de seu último projeto, o qual é, de tudo que diz respeito a Olavo, o que de mais importante aconteceu nos últimos anos: a criação da Olavo de Carvalho Academy, site destinado a abrigar cursos do filósofo com transcrições para o inglês. A intenção, além de tornar o trabalho de Olavo acessível a um público global, é reinvestir o dinheiro assim obtido em novas ações de difusão da sua obra. O primeiro resultado do trabalho meritório de Mariana e Pedro de Carvalho já está no ar, o curso “A formação da personalidade”, que Olavo ministrou em 2015.

– Ronald Robson é autor de Conhecimento por presença (Vide, 2020). Organizou O que restou de 22: uma semana na contramão da história (7Selo, 2022), editou Nabuco – Revista Brasileira de Humanidades (2014-2016) e preparou o texto de cinco livros de Olavo de Carvalho. É doutorando em teoria e história literária (Unicamp) e dirige Convivium – Seminário Permanente de Humanidades. Site: www.ronaldrobson.com

 

 


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