OPINIÃO

O futuro da direita após a derrota

Lucas Mafaldo · 31 de Outubro de 2022 às 14:21

Lula não vai destruir a economia brasileira e transformar o Brasil imediatamente na Venezuela. A realidade é até pior: estamos diante de mais uma década perdida. O que fazer agora?




Não adianta dourar a pílula: essa é uma derrota violenta para a direita.

Eu não digo isso para gerar desespero, mas para olharmos para a realidade com a maior clareza possível. Esse é o primeiro passo para qualquer ação eficaz.

Essa derrota é particularmente dura por três razões: (i) pelo retorno de Lula ao poder; (ii) pelo modo como ela ocorreu; e (iii) pelo estado atual da direita.

A seguir, explico por que os anos seguintes serão especialmente duros e dou algumas sugestões do que pode ser feito.



A vitória de Lula é a vitória do movimento revolucionário

O problema de Lula nunca foi ser meramente um político corrupto ou incompetente. Esse tipo de crítica superficial foi justamente o que pavimentou o retorno do PT ao poder.

O problema de Lula é que ele é um dos principais líderes do movimento revolucionário latino-americano. Ele possui profundas conexões com os líderes de esquerda de outros países, com organismos internacionais e com movimentos subversivos.

Em outras palavras: ele não apenas tem plena intenção de fortalecer o movimento revolucionário, como tem a habilidade prática e as conexões para fazer isso acontecer.

Para entender o que isso significa, é preciso entender a natureza dialética do movimento revolucionário. Lula não vai implementar o socialismo dos manuais, expropriando os meios de produção e abolindo a propriedade privada. Ele não vai destruir a economia brasileira e transformar o Brasil imediatamente na Venezuela.

A realidade é até pior.

O revolucionário acredita que apenas ele é bom no mundo. Logo, o que ele precisa fazer é concentrar o máximo de poder em suas mãos. Isso significa que todas as estratégias podem ser adaptadas ao que for mais conveniente aos interesses do partido.

No caso do Brasil, Lula vai rapidamente tentar acalmar os mercados (o que já fez antes) e criar uma narrativa internacional de que é o novo Mandela, o líder preso injustamente que salvou o país de um tirano genocida.

Feito isso, ele poderá progressivamente (e paulatinamente) sugar os recursos da sociedade brasileira – incluindo todos os ganhos gerados pela equipe econômica de Bolsonaro – para alimentar o movimento revolucionário dentro e fora do país.

Ou seja, em vez de quebrar o país no ano que vem, ele vai fazer algo ainda mais destrutivo: vai perseguir os opositores, reverter as políticas implementadas pela direita, controlar a narrativa e voltar a tratar a sociedade brasileira como uma fonte de recursos para o movimento revolucionário.

O impacto dessa concentração de poder vai durar muito mais do que o próprio governo Lula.

Estamos diante de mais uma década perdida.

 

Últimos suspiros da Nova Direita

Quando eu digo isso, não estou esquecendo que Bolsonaro teve uma votação expressiva e que a direita teve vitórias importantes, elegendo governadores, deputados e senadores.

Essas vitórias são importantes e, certamente, serão a semente do renascimento da direita.

Porém, o cenário no curto prazo é péssimo. Bolsonaro é a espinha dorsal da Nova Direita.

Vejam que estou usando o termo Nova Direita em um sentido bem específico: estou falando do agrupamento de forças heterogêneas que se formou para derrubar o PT durante o processo de impeachment de Dilma.

A Nova Direita sempre foi uma grande tenda que abrigava várias tendências divergentes: conservadores, liberais, grupos de interesses econômicos específicos, lavajatistas e positivistas. Embora alguns desses grupos sejam ideologicamente incompatíveis entre si, colaboraram para derrubar o PT e, na sequência, eleger Bolsonaro.

Essa formação de grandes tendas é um processo natural da política. Dependendo do contexto político, diversos grupos deixam suas diferenças de lado para realizar um projeto comum.

A formação de uma grande tenda é, no entanto, uma tarefa muito difícil, que depende, além do contexto, do capital político e da habilidade de negociação do líder.

Quando um líder cai, esse capital político não passa diretamente para um substituto. É só ver que Lula não conseguiu transferir todo seu capital político para Dilma ou Haddad. Esse capital depende de anos de construção de laços de confiança e lealdade.

Bolsonaro é o único líder da direita que atualmente possui uma quantidade suficiente de capital político para manter esse grupo unido.

Com sua derrota, é inevitável que a Nova Direita passe por um processo de desagregação: os vários subgrupos vão começar a se atacar, a se culpar respectivamente pela derrota e a tentar se reposicionar para voltar ao poder.

Muitos desses subgrupos irão até mesmo se aproximar do governo petista – seja por medo da perseguição ou oportunismo.

Esse é o jogo político. Quando o rei cai, o exército se dispersa.

A tarefa de recriar uma coligação será longa – especialmente porque terá sob um regime que não hesitará em esmagar qualquer movimento nascente.

 


Lições para ter em mente

O primeiro passo, evidentemente, é evitar o desespero.

Afinal, antes de tudo, nossa verdadeira esperança não deve nunca estar nas vitórias desse mundo, mas na esperança da vida eterna.

Portanto, de certo modo, essa derrota não muda nada: devemos continuar trabalhando, cumprindo nossos deveres e fazendo o que for possível dentro de nossas circunstâncias.

Além disso, ficar angustiado com os resultados de uma eleição é adotar uma postura de espectador passivo, de quem fica vendo um jogo na televisão e torcendo por um dos lados. Em vez disso, devemos pensar na vida como uma aventura na qual somos participantes ativos.

Cada contexto é apenas uma oportunidade de ação diferente. O contexto ficou mais duro, mas o que importa mesmo é saber o que fazer diante dele.

 


O que pode ser feito?

Bom, mas diante de tudo isso, quais as possibilidades de ação concreta?

Vejo três caminhos, distintos e complementares.

O primeiro e mais óbvio: fazer oposição política ao governo.

Cabe agora, tanto aos formadores de opinião quanto aos políticos eleitos, marcar posição e continuar a ocupar espaço público.

Essa atuação é importante tanto para conscientizar a população como para que novos líderes comecem a acumular capital político para reconstruir uma grande tenda.

O segundo passo é o trabalho de base: formar a militância e criar uma estrutura partidária. Isso deve ser feito principalmente por meio de ações locais e presenciais – não adianta ter engajamento na internet sem ter laços concretos de lealdade espalhados por toda a sociedade.

O terceiro passo é atuar na restauração da cultura e da coesão social.

A política está longe de ser o maior problema do país. Há muita falta de solidariedade e confiança na sociedade brasileira. Novamente, o envolvimento com grupos locais é o principal modo de fazer isso.

Tudo isso vai precisar ser feito com mais muito mais profissionalismo e inteligência do que foi feito até agora.

Os conservadores precisam estar conscientes de que agora estão com um alvo nas costas. O sistema já deixou claro que não vai hesitar em perseguir e esmagar seus adversários.

Não há motivo para esperar clemência de um socialista que retorna ao poder. Pelo contrário, a história mostra que sempre que eles conquistam mais poder, eles aceleraram o nível de perseguição.

Para que o movimento conservador sobreviva, ele precisa deixar de formalismo, de ideais abstratos e começar a entender a lógica do poder. Com base nisso, precisa traçar estratégias inteligentes e eficazes para continuar crescendo, independentemente do cenário.

O jogo ficou mais difícil, mas está longe de terminar.

Está na hora de subir de nível e se preparar para as próximas rodas.

Lucas Mafaldo é professor e pesquisador, com pós-doutorado em filosofia pela Universidade de Ottawa. Seus textos e vídeos podem ser encontrados no site 
https://www.lucasmafaldo.com.br/.

 


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