TEORIA DE OUTRO MUNDO

O fantástico mundo de Ratanabá

Eduardo Meira · 15 de Junho de 2022 às 15:48

Saiba tudo sobre a incrível e imensa civilização que teria existido na região amazônica há... 450 milhões de anos!
 



Preparem seu chapéu de alumínio, a pipoquinha e um bom sofá. No artigo de hoje tem Murils, Indiana Jones, Eldorado e até o ET Bilu. Sejam bem-vindos a Ratanabá.

A Amazônia está, talvez, em seu momento de maior exposição midiática da história moderna. Recentemente dois aventureiros sumiram na floresta, em uma área reconhecidamente complexa e perigosa, sob o domínio do narcotráfico sul-americano, e isso tornou-se comoção mundial. Não obstante, o terrorismo sobre uma tal crise mundial de abastecimento de alimentos, o sucesso do agro brasileiro e, obviamente, os infinitos trilhões de dólares em fauna, flora e recursos minerais excitam, cada vez mais, a cobiça dos estrangeiros. E, aparentemente, a cobiça de alienígenas.

Um momento de tanta atenção focada em um tema é um prato cheio para teóricos da conspiração, embusteiros, farsantes, falsos magos e profetas – e também homens de negócio.


Dakila

Todo marketing e rebuliço causado pelo assunto é obra de um grupo chamado Dakila.

Segundo seu criador, fundador e idealizador, o pesquisador, ilusionista e ufólogo Urandir Fernandes, “A ideia da criação do Dakila veio de um desejo reprimido de “pensar fora da caixinha sem ser chamado de louco”. Várias pessoas – entre artistas, produtores e empresários – resolveram se juntar ao grupo de Urandir, um meio onde eles podem falar o que quiserem, acharem o que quiserem com o objetivo de quebrar o "status quo" do pensamento moderno e do entendimento sobre as coisas. Para isso, eles dão fomento e sustentação econômica para os que têm ideias divergentes.

Muito embora vários veículos acusam Urandir de “terraplanista”, isto é, na verdade, uma injustiça. Urandir é “terraconvexista”, teoria na qual a Terra não seria plana nem redonda, mas convexa. Como Urandir é ufólogo, o terraplanismo não funcionaria, pois o domo impediria a entrada de discos voadores. Eis que uma terra convexa nos cantos e plana nas águas encaixa-se melhor com a ufologia. Ele enfrenta, inclusive, a fúria e o desprezo dos terraplanistas. Mais informações no www.terraconvexa.com.br.

Este grupo nasceu em Corguinho, em Mato Grosso do Sul, e se expandiram para Campo Grande e até outros países. Hoje é uma holding, com bastante poder aquisitivo e que conta com várias empresas de pesquisas na área. Lá mesmo, em Corguinho, criaram a Vila de Zigurats, com observatórios, centros de pesquisas para o estudo de OVNIs e até sua própria pirâmide, que está em construção. Entre as dezenas de casinhas em forma de domo com vistas privilegiadíssimas dos belos cenários do Cerrado local, uma residência se destaca por não ser de propriedade de um ser humano, mas do querido Bilu, extraterrestre que se popularizou depois de ser apresentado ao Brasil por programas de TV a partir de 2009 e que ajudou a projetar o lugar. Urandir é conhecido, localmente, como o pai do ET Bilu.

Em 2012, o grupo e a vila ganharam muitos adeptos, pessoas que acreditavam que no Zigurats estariam seguras do apocalipse Maia anunciado à época.

Segundo Urandir, o grupo já chegou a vários avanços em termos de arqueologia, medicina, genética e outras áreas graças às ajudas dos parceiros celestes, que lhes dão dicas. Urandir deixa sempre claro que tanto o grupo quanto a cidade são modelos de negócios, chama o Dakila de empresa e o grupo tem, inclusive, outras empresas, como a BDM Digital. “Convoco as pessoas a abrirem a mente e o coração para vir nos conhecer. Não existe tabu, não existe o impossível, existem possibilidades”, diz Urandir.


Ratanabá

O tema Civilizações perdidas na Amazônia não é novo. A região aguça curiosidades, paixões e, de fato, sabe-se que nem sempre existiu uma floresta naquela região. Fato é que já existem catalogados vários resquícios de cidades antigas muito bem organizadas na região que hoje é a Amazônia, datando de até 6 mil anos. Vários mapeamentos foram feitos, inclusive com o uso do LIDAR (Light Detection and Ranging), que é uma tecnologia a base de laser para detecção de estruturas e elementos soterrados. É consolidado na comunidade científica a existência de cidades tão ou mais evoluídas que Machu Picchu sob o solo amazônico, e que tais cidades possuíam estradas para sua interligação. Existem, inclusive, cartas de desbravadores e bandeirantes do Sec. XIX descrevendo ruínas destes tipos de cidades.

No entanto, segundo os empreendedores do grupo Dakila, as revelações que virão nos próximos dias irão simplesmente destruir tudo o que a civilização entende por ciência, história, religiões e tecnologia. Muitas viagens e incursões ao local onde supostamente está Ratanabá já foram feitas – patrocinadas pelo grupo – e o último empreendimento é justamente a contratação de um LIDAR para fazer a aferição no local, e isso provará definitivamente suas descobertas.

De acordo com o grupo, Ratanabá foi uma cidade gigantesca, com milhões de habitantes. Era a capital do mundo. Tal cidade fora construída por uma civilização humana de um continente vizinho, os Murils, que chegaram por aqui há 600 milhões de anos e mapearam a malha magnética da Região da Terra onde moramos. As construções megalíticas (pirâmides, por exemplo) estariam sobre os pontos de maior incidência energética. Várias civilizações foram crescendo em torno desses pontos, e o ponto principal encontrava-se em Ratanabá, onde vivia a civilização que regia o mundo, e foi fundada pelos Murils há 450 milhões de anos. Não, você não leu errado. Os números são 600 milhões e 450 milhões de anos mesmo.

A ideia principal gira em torno de uma visão errada que temos de mundo. Os continentes apresentados a nós pelos livros são apenas a pontinha do iceberg. Existem vários continentes desconhecidos por nós, e são parte de um sistema maior, a que chamam de Sistema Terra. O grupo Dákila tem “conhecimento e comprovação” de que, num passado remoto, além dos Murils, outras civilizações já nos visitaram. São outros humanos, vizinhos de Terra, que vivem nesses continentes desconhecidos e vieram pra cá, nesta parte conhecida por nós – os cinco continentes.

Depois de várias visitas e da formação de várias civilizações, surgiu a última raça, a adânica (adjetivo originado do nome próprio Adão), proveio da última experiência genética feita pelos vizinhos de Terra. Antes desta, que é a nossa civilização atual, diversas outras experiências genéticas já foram feitas, dando origem a uma sorte de outras civilizações humanas que habitaram esta nossa parte do sistema.

O objetivo é mostrar que toda a história conhecida da humanidade foi manipulada, e isso é de conhecimento das lideranças mundiais. Tais lideranças sabem da existência de outros seres humanos, uns menos evoluídos que nós e outros mais. Os próprios Murils eram seres muito mais evoluídos do que somos hoje e possuíam tecnologia muito além da nossa imaginação, além de habilidades com o ultrassom, com a hidráulica e o poder da mente (energia escalar). Além de colonizar Ratanabá – que acabou sendo soterrada quando do grande dilúvio – espalharam-se e criaram outras civilizações em torno de outros pontos energéticos.

O legado deixado por eles – as construções e os conhecimentos – geraram guerras, conflitos e ambição, pois os governos sempre tiveram noção do que aconteceu e buscavam pela verdadeira história, cobiçavam as tecnologias desconhecidas existentes e lutavam para manter isso em sigilo e continuar dominando a humanidade. Além disso, é claro, os governos estavam de olho em toda a riqueza em ouro e minérios que estão enterrados sob estas cidades.

 

Verdade ou mentira?

Não é impossível que exista, de fato, uma cidade soterrada na região em que tal grupo excêntrico está buscando. Mas algumas afirmações são absurdas: 450 milhões de anos? Irá quebrar radicalmente todo entendimento sobre ciência e religiões? Civilizações em continentes vizinhos?  

Qual é a posição da ciência e da cristandade?


A ciência

A concepção do grupo Dakira sobre a suposta cidade de Ratanabá é uma piada. O cientista Sérgio Sacani Sansevero destaca os mitos e lendas sobre as cidades perdidas da Amazônia, como, por exemplo, a busca de Eldorado – a Cidade perdida que guarda riqueza e poder, e que dará vida eterna a quem a descobrir. A verdade é que como a floresta é densa, a ponto de nunca se ver o solo, e colossalmente imensa, torna-se ambiente fértil para mitos, lendas, histórias fantásticas e teorias conspiratórias.

Fazendo um exercício de pensamento através da digressão histórica: a presença humana no planeta Terra tem por volta de 300 mil anos. Há 66 milhões de anos, os senhores do planeta eram os dinossauros, na era mesozoica, entre os períodos jurássico e cretáceo. Dando um salto bem maior, há 450 milhões de anos o Planeta experimentava a primeira das cinco grandes extinções em massa, a extinção do final do ordoviciano, quando mais de 85% das espécies marítimas simplesmente desapareceram. Neste período, o ser que dominava a Terra era... LULA. Sim, uma lula de concha com um metro de comprimento que se alimentava de plânctons. Eram tempos difíceis, de sucessivas erupções vulcânicas, tempestades de lava e falta completa de oxigênio. Uma raça humana não teria a mínima chance em meio tão hostil.

Ademais, há 450 milhões de anos atrás não existiam nem os continentes, quanto mais um berço civilizatório para o Brasil chamar de seu.

A propósito, uma semana antes de Ratanabá entrar na moda, a revista científica Nature divulgou a descoberta de uma cidade perdida na Amazônia boliviana. Através de sobrevoo na região e do uso do LIDAR, apareceram vestígios de uma grande urbanização, com pirâmides de 22m de altura, estruturas supostamente hidráulicas, canais ligando os centros urbanos e todas as demais ideias aproveitadas pelos conspiracionistas da Ratanabá. A diferença é que a datação é de 400 a 1,6 mil anos atrás. No Alto Xingu também já haviam sido descobertas urbanizações que podem ter abrigado milhões de habitantes, datando de até 6 mil anos atrás. O ser humano mais antigo encontrado nas Américas data de 16 mil anos atrás.

 

A cristandade

O arqueólogo, teólogo e professor Rodrigo Silva lembra que o MAI (Museu de Arqueologia da USP) conta com várias amostras de civilizações que já viveram na região amazônica, além de catálogos detalhando as descobertas feitas por ali. Frisa, ainda, que muita coisa ainda está por ser descoberta, mas várias dificuldades e a complexidade de se fazer pesquisas na Amazônia acabam por atrasar os trabalhos.

Outro ponto importante são os recursos financeiros para tal empreendimento, além da mobilização de cientistas para escavações, a logística disso tudo, etc. Sem contar com as toneladas de licenças e as burocracias que são necessárias junto ao IPHAN, FUNAI, e que se tratam de reservas indígenas, áreas com jurisdição especial. Lembremos, sempre, que se trata de uma das regiões mais inóspitas do planeta.  Não trata-se apenas de chegar na Amazônia e sobrevoar com um aviãozinho ou sair escavando.

De acordo com os indícios e datações, as civilizações encontradas na Amazônia – com seus até 6 mil anos – alcançam a época patriarcal, de Abraão. Então tem-se indícios de que quando Abraão estava saindo de Ur, na Babilônia, a caminho da Terra Prometida, já havia civilizações organizadas na Amazônia. O mistério é: Como chegaram aqui?

As teorias mais aceitas incluem a da migração pelo Estreito de Bering. Há também a teoria de que eles chegaram na época da glaciação, através dos mares congelados, e teorias que afirmam que os seres humanos aqui chegaram por embarcação. Fato é que não há uma resposta certeira.

Ainda segundo o Dr. Rodrigo Silva, isso não é, na visão cristã, um problema. Quem crê na Bíblia não precisa ter resposta para tudo, pois há mistérios. E os mistérios não vão contra os dogmas da Bíblia Sagrada. Eis que o fato de ter havido civilizações no continente americano não tira o mérito de nenhum versículo da Bíblia. Teóricos da conspiração que lançam mão de invencionices para “destruir o entendimento sobre religiões e ciência” são facilmente refutados através dos fatos, então isso certamente não causará comoção alguma na comunidade cristã.

Rodrigo finaliza com um conselho bíblico: Toda vez que você ouvirem ou verem algo muito fora do comum na internet, lembre-se do conselho de Paulo a Timóteo que está em segundo Timóteo capítulo 4 a partir do versículo I: “Diante de Deus e Jesus Cristo, que há de julgar vivos e mortos pela sua manifestação e pelo seu reino, peço a você com insistência que pregue a palavra. Insista. Quer seja oportuno, quer não: corrija, repreenda, exorte com toda paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina, pelo contrário, se rodearão de mestres pelas suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Mas você, seja sóbrio em todas as coisas: suporte as aflições, faça o trabalho de um evangelista e cumpra plenamente o seu ministério”.


O BSM

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