OPINIÃO

O fantástico mundo de Bob

Braulia Ribeiro · 27 de Outubro de 2022 às 17:20

Sem Bob e suas denúncias, não teríamos tido ciência do Mensalão, e por consequência do Petrolão. Sem Bob, José Dirceu ainda seria a figura política mais importante do país



Acredito que muitos de nós votamos no Bolsonaro com uma certa má vontade. Foi o meu caso. O deputado me parecia rude, virulento, pouco “presidencial.” Depois de Lula e Dilma é até brincadeira tentar visualizar o que seria a postura adequado ao cargo presidencial, mas na época eu pensava que teria que ser melhor do o que eu via no Jair. Enfim, era o que tínhamos. O voto no Jair saiu a contragosto, era aquele almeirão que a mãe me obrigava comer porque era bom para a saúde. O país precisava de se livrar da doença chamada PT e o remédio amargo era o Jair. Os anos de janela também me faziam duvidar que um político poderia manter seu compromisso inicial de integridade face aos muitos desafios do cargo. Eu cultivava aquela velha descrença brasileira na classe política como um todo, que começa até saudável, mas depois se torna um ranço amargo antipolítica e antiesperança, tão presente na nossa alma popular... “Quando Deus dá o toicinho, o capeta tira o girau... Quem nasce para vintém não chega a tostão...” Parafraseando a constatação de Gandavo no século XVI: “O Brasil (o povo Tupi) nunca vai passar de uma terra sem fé, sem lei e sem rei...”

Mas o tempo passou e Sr. Jair Messias Bolsonaro se revelou não ser um homem comum, mas um ser extraordinário desses que são raros não só no Brasil mas em qualquer lugar. Jair surpreendeu. Manteve-se incólume, manteve-se sério, manteve-se coerente em suas posições, manteve-se “accountable” ao povo que o elegeu. Com a divulgação o vídeo da reunião ministerial pelo STF, o Brasil se deu conta de que Jair era quem ele dizia ser.  O que ele defendia na campanha era o que ele exercia em seu mandato. Que alívio para o país lidar com um político que não era duas caras. O embate com Moro, grande herói nacional, teve um ferido, Moro. Quem diria! Jair, o sujeito em quem votamos meio que envergonhados se revela um ser vertebrado, com espinha dorsal, enquanto seus opositores um a um giravam na lama de fofocas e acusações falsas como minhocaçus prestes a serem postas no anzol.

Mas então... Jefferson. Bob ressurgiu no último domingo tornando a tarde de todos os que amam o Brasil mais difícil. Só que Bob não acontece no vácuo. O mundo que testemunhou a insurreição de Bob já existe há anos. A Suprema Corte brasileira já se posiciona partidariamente há anos. Foi Bob que levantou o tapete para mostrar quanto sujeira havia em casa. Sem Bob e suas denúncias, não teríamos tido ciência do Mensalão, e por consequência do Petrolão. Sem Bob, o Dirceu ainda seria a figura política mais importante do país. Sem Bob, possivelmente nem haveria a presidência do Jair. Devemos muito ao Bob. Se ele é direita, esquerda, centro, oportunista, não importa, pelo menos quando denunciou o mensalão o resultado foi positivo para o país e nos ajudou a perceber a cepa de bactérias carnívoras que tinham sido soltas no erário pelo PT. “Sai daí, Zé!”

A direita deve muito a Bob. Ele nos ajudou a escapar da armadilha cognitiva que era a narrativa hegemônica produzida pela esquerda, e descrever a realidade. Ele nos forneceu palavras para descrever as crises que passamos no país, crises intensas, crises que não é qualquer país amador que passa- no Brasil somos profissionais em crises. Bob criou o termo Mensalão para se referir à corrupção sistemática dos “300 picaretas e mais os 13 do PT” e que segundo Bob “tratavam a Casa como se fosse um prostíbulo.” O termo depois se expandiu no Petrolão e em 2020 no Covidão, quando ele previu a roubalheira dos governos estaduais e prefeituras com o dinheiro destinado a eles pelo governo federal para combater a pandemia.

Pensemos de Bob o que seja, mas é fato que o sujeito é capaz de descrever com riqueza de expressão muita coisa que outros não são nem capazes de ver. E no domingo ele nos ajuda mais uma vez a empalavrar e a criar imagens para descrever o momento.

Bob se recusou a ir preso em silêncio. Bob descreveu o que acontecia com ele. “Cansei de ser vítima de arbítrios e de abuso. Me recuso a viver de joelhos, caio de pé.”

Bob, na eminência da prisão, posa com um rifle antigo nas mãos e canta o Hino da Proclamação da República- “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós.” O que ele quer dizer com isso? Violência por violência leva a alguma coisa?

O símbolo nos escapa a nós brasileiros porque aprendemos a mentir para nós mesmos. Nossa ilusão começa quando pensamos que temos um establishment político que representa o povo. Não temos. Vivemos num país que nunca se livrou da violência, e que preserva de um estado de papel. Esse estado trabalha contra a população de bem. A violência endêmica das ruas causada pela ausência do estado, pela sistematização da impunidade, é normal demais para provocar em nós alguma reação além do dar de ombros e do medo, contínuo. Nada nos assusta, nem ver um candidato à presidência que ao discursar divide o palanque com um dos bandidos mais perigosos do país, claro, solto pelo estado.

Mas pretendemos ser civilizados e respeitamos o estado como se fosse uma presença real e legítima. Às vésperas de eleger um homem sério que pode mesmo mudar o status quo, esse mesmo estado se volta contra as liberdades básicas que ainda pensávamos que tínhamos, a tal da liberdade de expressão que é apenas a liberdade de pensamento sonorizada. Quem não se expressa não pensa. O estado que inexiste para o crime quer agora ser atuante contra os cidadãos de bem e seus direitos básicos.

E aí aparece em cena Bob. No fantástico mundo de Bob, esse estado de papel inexistente para o mal mas violento contra o bem merece ser resistido. Disse o rapista: “Paz sem voz, não é paz, é medo.” Que paz queremos conservar para tentar ser feliz? Que falsa paz vamos engolir para preservar um status quo que não nos serve mais? Sabemos o que é violência, mas desconhecemos a dignidade da resistência, porque não tínhamos palavras para descrever o estado de coisas a nosso redor.

O rifle de Bob que aparece no vídeo do Instagram nos parece fora de lugar, estranho. Imagens de homens armados para nós sempre se associam com crime, nunca a autodefesa. Aqui nos EUA, país de pessoas verdadeiramente livres armas equivalem ao respeito do estado ao cidadão. Equivalem à manutenção da lei e da ordem e à última salvaguarda da liberdade do cidadão comum.

É ilegítima a resistência violenta contra um estado arbitrário?

O “monopólio da violência” pelo estado só se torna legítimo se o estado e suas ações são legítimos. A resistência a um estado que abusa de seu poder, é moralmente justificável. A integridade moral do estado termina quando ele deixa de representar o povo e as leis do país que o balizam. Senão fosse assim teríamos que contar como justificável toda a violência dos estados autoritários e tirânicos. Se basta “ser estado”, toda violência conduzida pelos estados totalitários é válida, e tem que ser respeitada como já sugeriu o nosso molusco de estimação. Só que o estado não pode se validar a si mesmo. No momento em que se cruza a linha e seus representantes agem de maneira arbitrária, ilegítima, não há mais obrigação moral de obedecer.

A única defesa do indivíduo contra a arbitrariedade de um estado ilegítimo é sua própria força. A resistência é moralmente legítima. Essa é a base da Segunda Emenda da Constituição Americana, tão citada no Brasil pelos conservadores. Resistência à tirania do estado. Resistência à tirania do estado. Repito mais uma vez: Resistência à tirania do estado.

E aqui eu volto meu olhar ao Jair. Jair disse que Bob se tornou um criminoso quando resistiu à bala à um mandado de prisão que é abjetamente, completamente 100%, ilegal, em todos os ângulos possíveis de observação. Seja consistente, Jair. No fantástico mundo de Bob existe um criminoso. Mas seu nome não é Bob.

 


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