DIÁRIO DE UM CRONISTA

O Evangelho segundo Barrabás

Paulo Briguet · 31 de Março de 2021 às 10:25

Outra vez prisioneiro, o bandido recebe visitantes que marcaram sua vida

“Em meu começo está meu fim.”
(T. S. Eliot)

Barrabás estava sozinho na cela. Desta vez não era mais um preso político, mas um preso comum.

A primeira visitante foi sua mulher. Nada lhe disse. Estava triste até morte, por ter seu nome tão utilizado — até para justificar o injustificável — e na verdade tão pouco recordado.

O segundo visitante foi o companheiro, assassinado há muitíssimo tempo, depois esquecido. Perguntou a Barrabás por que não usara a velha caneta (achada no bolso do companheiro morto) naquele dia tão importante, preferindo a caneta dos homens ilustres. Ficou sem resposta.

O terceiro visitante foi o delegado. Perguntou-lhe se, como da primeira vez, estava sendo bem tratado, se não lhe faltava nada, se agora havia um lugar confortável onde ele pudesse repousar. Não quis falar sobre traição.

O quarto visitante foi o comandante. “Já estive preso também”, disse a Barrabás. “Pensei que a história me absolveria, mas na verdade fui condenado.” E contou ao prisioneiro que todas as noites ouvia as vozes dos afogados e dos fuzilados.

O quinto visitante foi o santo. “Sei que você ficou com ciúme quando eu visitei o meu irmão operário, sei que você me criticou, sei que você andou lado a lado com meus inimigos, sei que você não me perdoou por derrotar o Império do Mal. Mesmo assim, estou aqui, porque desejava olhar no fundo dos seus olhos. Você sabe o que fez, Barrabás?”

O sexto visitante foi o trabalhador. “Por que você me enganou dessa forma? Por que me prometeu um mundo melhor e só me entregou ilusões e amarguras? Por que disse que era responsável por tudo aquilo que eu mesmo conquistei com meu suor e meu trabalho?”

O sétimo visitante foi o governador. “Depois que fiz o meu último voo, tudo começou a se precipitar de maneira alucinante. Eu me lembro bem, era um dia nublado e sombrio. De certa maneira, parece que a minha queda precedeu a sua. Olhe bem nos meus olhos: Você está lembrado de mim?”

O oitavo visitante foi o juiz. “Eu também sofri a queda, com a diferença que fui precipitado ao mar. O que havia em mim de tão perigoso para sofrer esse destino? Só Deus tem a resposta, Barrabás.”

O nono visitante foi o prefeito. “Como vai, meu amigo? Por que fala tão pouco de mim? Por que o meu nome raramente foi pronunciado nestes anos todos? Onde estão as suas lágrimas? Está lembrado de meu corpo atravessado no meio do caminho?”

Ao pronunciar essas palavras, o nono visitante mostrou a Barrabás outros sete, que o acompanhavam na visita. Estavam todos silenciosos, mas tinham os olhos em chamas.

Então chegou o décimo e último visitante.

“Bar-Abbas, o Filho do Homem! Eis que estou aqui. Mais uma vez, vós quisestes a liberdade em meu lugar. Por quê, Barrabás? Por que usastes a minha boa nova? Por que vos unistes àqueles que me negam? Bar-Abbas, até quando? Não aprendestes com Pilatos? EU SOU...”

Então acabou o horário de visitas.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

 


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