DIÁRIO DE UM CRONISTA

O estranho caso do Dr. Frakassio

Paulo Briguet · 7 de Outubro de 2020 às 11:20

O episódio de Kassio Nunes Marques demonstra um velho vício brasileiro: apegar-se aos sinais exteriores de prestígio e desprezar o verdadeiro conhecimento
 

No primeiro capítulo de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto descreve os hábitos de seu protagonista, que era subsecretário do Arsenal de Guerra e todos os dias chegava em casa às quatro e quinze da tarde ― sendo de tal forma pontual que os vizinhos acertavam o relógio pela sua chegada. No aspecto de pontualidade e dos hábitos rígidos, Quaresma pode ser comparado ao filósofo alemão Immanuel Kant. Mas há outra semelhança entre eles: Quaresma também era dedicado à leitura. Possuía uma biblioteca, o que lhe valeu a antipatia do Dr. Segadas, um clínico afamado da vizinhança: “Se não é formado, para que livros? Pedantismo!”

Logo no começo de seu mais famoso romance, Lima Barreto capta, portanto, uma característica do espírito nacional: o apego excessivo aos símbolos exteriores de prestígio intelectual, acompanhado de um profundo desprezo pelo verdadeiro conhecimento. O fenômeno já foi apontado brilhantemente por Olavo de Carvalho em vários artigos, entre os quais destaco “A volta do dr. Segadas”. O próprio Olavo é alvo constante do mesmo tipo de ataque: de que adianta ter publicado uma vintena de livros fundamentais (entre os quais dois best-sellers e uma obra-prima chamada “O Jardim das Aflições”), tornar-se o pensador mais influente do país, ser elogiado por mestres do pensamento e da literatura, formar uma geração inteira de intelectuais e escrever como os gigantes do idioma ― se o homem não tem diploma na parede?

O diplomaparedismo ― para roubar o termo usado por minha amiga Ludmila Lins Grilo ― continua arraigado no espírito brasileiro, e não há quem consiga arrancá-lo de lá. O que me leva à conclusão de que Olavo se enganou no título do seu artigo de 2007: não se pode falar propriamente na “volta” do Dr. Segadas, uma vez que ele jamais foi embora. Só a persistência desse apego patético ao canudo, ao título e, por que não, aos dividendos funcionais e políticos advindos da titulação acadêmica explica as recentes trapalhadas curriculares de Carlos Decotelli, o Doutor Honoris Quase, e Kassio Nunes Marques, este jurista súbito que parece, lamentavelmente, seguir o mesmo caminho.

O que, senão a síndrome do Dr. Segadas, explicaria a incrível, surpreendente, milagrosa coincidência de um magistrado obter o título de doutor apenas 11 dias antes de ser indicado à Corte Suprema, bem como o aparecimento concomitante de dois pós-doutorados súbitos? Quem, senão o famoso rival do Major Quaresma, justificaria a metamorfose da participação como ouvinte em um simpósio de quatro dias em um curso de pós-graduação destacado no currículo?

De minha parte, interesso-me muito menos pelos títulos do Dr. Kassio do que pelo conteúdo de seus escritos, sejam eles acadêmicos ou judiciais. E quem leu os seus trabalhos ― como a deputada Janaína Paschoal e o nosso repórter-escritor Fábio Gonçalves ― não gostou nem um pouquinho do que encontrou por lá. A defesa do ativismo judicial (simplesmente a maior ameaça à democracia brasileira), a adesão ao garantismo penal (alegria da bandidagem) e as loas a Ronald Dworkin (ícone do progressismo de toga, do qual Moro também é fã) são muito mais graves do que as patacoadas no currículo (embora, naturalmente, erros maiores não apaguem os menores). De tudo que se depreende agora, temos que Kassio Nunes Marques seria, na melhor das hipóteses, um Barroso menos pavão. Um notável frakassio, se me permitem o trocadilho.

Mostra-me tua obra e eu te direi quem és. O diploma? Pode pendurar na parede, como fazia o Dr. Segadas.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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