ANÁLISE POLÍTICA

O destino da Revolução Brasileira: o que a direita precisa fazer

Eduardo Matos de Alencar · 21 de Fevereiro de 2023 às 15:28

Eduardo Matos de Alencar, escritor e colunista do BSM, aponta os caminhos para superar a derrota de 2022 e começar a reagir




A direita brasileira está em crise e não faltam razões para isso. A apatia parece ter tomado conta do campo político diante da percepção de trapaça generalizada do processo eleitoral e da repressão sistemática conduzida pelas Cortes, agravada particularmente após os atos tresloucados do último dia 8 de janeiro.

Com lideranças políticas acuadas e sem um direcionamento claro, a massa de brasileiros que antes se mostrava disposta a se manifestar nas ruas agora padece impotente, amargando o ressentimento, enquanto o consórcio formado pela esquerda, setores do Superior Tribunal Federal (STF) e grandes veículos de imprensa estabelece as diretrizes do novo governo e sua base de dominação para os próximos anos.

O atual estado de coisas não é animador, mas precisa ser superado. O avanço do domínio socialista é uma ameaça real para o futuro de milhões de brasileiros e demanda uma reação organizada da sociedade. É preciso aproveitar o contexto de vazante no processo revolucionário para aprendizado, criação de novas formas de associação e renovação da ação política direta.

Para tanto, é preciso uma avaliação correta da conjuntura na qual estamos imersos. Isso significa desenvolver um entendimento claro sobre como chegamos até aqui e quais são as alternativas existentes para reação, ao alcance de quem, em quanto tempo e sob quais condições.


Análise de conjuntura

As razões para o presente estado de coisas são várias, de curta a longa duração, não raro sobrepostas.

Bolsonaro foi eleito como símbolo unificador de antagonismos que se encontravam longamente represados na política nacional. Essa vitória foi palmilhada por transformações sociais importantes. O trabalho desenvolvido pelo filósofo brasileiro Olavo de Carvalho desde os anos 1990 foi de crucial importância para quebra da hegemonia de esquerda no campo cultural. Com o advento da internet e das redes sociais, seus artigos, livros e cursos se popularizaram e renderam frutos em diversas camadas da cultura brasileira, criando uma espécie de esfera pública alternativa no país.

Isso possibilitou o surgimento de um ecossistema que inclui intelectuais, artistas, influenciadores de internet, veículos de comunicação, editoras, produtoras culturais, ativistas políticos e outras iniciativas mais ou menos relacionadas. Mais ainda, estabeleceu um vocabulário de preocupações e um campo discursivo próprio, que influencia dezenas de milhões de brasileiros, com conceitos e parâmetros de interpretação da realidade nacional que foram desenvolvidos e amadurecem à margem das instituições produtoras de cultura mais tradicionais, antes historicamente submetidas ao domínio da esquerda.

No campo da política, esse movimento mais profundo foi sobreposto a outro. Em 2013, a eclosão das Jornadas de Junho surpreendeu o mundo, num levante autenticamente popular e múltiplo, uma revolta difusa e descentralizada contra o sistema político tradicional.

Em menos de um mês, milhões de brasileiros conseguiram produzir um abalo sísmico na vida política brasileira, expulsando a esquerda militante das ruas, recuperando símbolos nacionais, acuando um governo fortemente estabelecido e precipitando erros da classe política que deram ensejo para o aprofundamento da crise.

Foi numa tentativa canhestra de dar resposta a Junho de 2013 que o Congresso aprovou o marco legal que possibilitou o surgimento da Operação Lava Jato no ano seguinte. Esta aumentou o efeito corrosivo de descrédito das instituições, revelando ao país os grandes esquemas de corrupção da Nova República e os canais de financiamento do projeto de poder do PT e do Foro de São Paulo.

Depois de uma vitória apertada nas urnas, Dilma Rousseff veria seu governo desabar em menos de dois anos. Poucos meses após as eleições, uma massa ainda maior de brasileiros tomou as ruas de centenas de cidades, iniciando as maiores manifestações da história nacional. O petismo tentou reagir na mesma moeda, mas sem conseguir qualquer equivalência.

Dessa vez, a massa outrora difusa e amorfa parecia encontrar nos símbolos nacionais e na rejeição à esquerda no poder as razões para uma ação com objetivos claros. Pela primeira vez na nossa história recente, grupos de direita organizados gritavam slogans e palavras de ordem que até então eram inconcebíveis em manifestações de rua, pedindo mais liberdade, menos impostos, mais segurança e fim da corrupção. Numa situação econômica de rápida deterioração, diante dos avanços da Lava Jato e da pressão das ruas, as oligarquias tradicionais do sistema político ofereceram a cabeça da presidente para tentar arrefecer os ânimos e reestabelecer o equilíbrio.

Em 2018, a eleição de Bolsonaro viria provar que esse sacrifício fora em vão. O ex-capitão foi eleito com a campanha mais barata da história, com tempo de televisão irrisório, uma coligação partidária enxuta e nenhum grande apoio de peso da parte dos caciques da política tradicional. O fenômeno, ainda que guardasse certa semelhança com a eleição de Donald Trump nos EUA, não tinha qualquer paralelo na história recente das democracias modernas.

No governo, Bolsonaro tentou equilibrar um arranjo de antagonismos que agregava militares, agentes de segurança pública, neopentecostais, políticos tradicionais do Centrão, lavajatistas, liberais, empresários, alunos do professor Olavo de Carvalho, representantes do agronegócio, entre outros grupos mais ou menos organizados, incluindo uma pletora de aproveitadores de toda sorte, que viu na ascensão do líder popular uma oportunidade para conquistar recursos e posições de poder. Com um programa genérico, sem militância ou partido organizado, o novo governo enfrentaria uma série de oposições, dentro e fora da máquina pública, em brigas não raro infrutíferas.

Esse arranjo inicial foi se remodelando conforme as oposições se avolumavam e os próprios grupos se digladiavam internamente. Pouco a pouco, caíram os lavajatistas, grande parte dos alunos do professor Olavo de Carvalho, entre outros. Esses processos foram alavancados pela pandemia, que trouxe um arrefecimento do apoio governista nas ruas, acompanhado de uma forte investida institucional contra o governo e seus apoiadores, capitaneada pelo STF, com forte respaldo político, institucional e midiático.

Diante dos impasses, a resposta do governo foi procurar meios de garantir a governabilidade, tecendo acordos políticos com oligarquias regionais e procurando encaminhar uma agenda mínima de mudança. Com isso, foi possível aprovar uma reforma da previdência e outras medidas regulatórias relevantes, de caráter liberal. Outras agendas terminaram sendo deixadas de lado, por falta de interesse, habilidade política ou possibilidade de acomodação.

Nesse ínterim, em alguns poucos momentos Bolsonaro parece ter flertado com um perfil plebiscitário, de enfrentamento político direto, que se alternava com longos momentos de apaziguamento e negociação. Esse perfil populista radical se expressou com mais vigor durante a aprovação da reforma da previdência, retornado novamente com as manifestações do 7 de setembro de 2021. Nesses momentos, em que o Presidente parecia pescar no Rubicão, sinalizando para a disposição de romper com a lógica do sistema político brasileiro, as expectativas elevadas da sociedade nunca recebiam como resposta um projeto sólido de transformação do sistema político e das instituições.

Ainda assim, Bolsonaro chegou ao pleito de 2022 com vantagens significativas. A melhoria dos indicadores econômicos foi bastante acentuada nos quatro últimos meses antes de outubro. E o Presidente possuía números positivos em termos administrativos, com redução recorde do número de homicídios, aumento exponencial de programas de transferência de renda, digitalização do governo, marcos regulatórios importantes para a liberalização da economia, criação de uma nova estrutura de crédito para estimular o empreendedorismo, entre outras.

Entretanto, com uma campanha fraca em termos estratégicos, não foi capaz de apresentar esse quadro de maneira coerente para a sociedade, numa imagem de promessa de mudança que fosse pouco mais que a bricolagem que o bolsonarismo parecia representar até então. Por outro lado, as tentativas de elevar a temperatura contra a candidatura de Lula foram todas sistematicamente anuladas pela ação do Superior Tribunal Eleitoral (TSE).

Blindado institucionalmente, contando com o apoio de parte significativa da classe política e dos grandes meios de comunicação, o candidato petista levaria o pleito com uma reduzidíssima vantagem. Sua vitória se deu na contramão dos sinais emitidos pelas eleições legislativas e estaduais, com forte predominância de aliados e apoiadores do Presidente. E afundou o país no pessimismo e na revolta.  

Nos meses seguintes, o bolsonarismo flertaria com uma última tentativa de intervenção disruptiva. Diante das suspeitas levantadas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas, somadas à intransigência do TSE, figuras importantes do governo parecem ter flertado com a construção de uma resposta intervencionista da parte das Forças Armadas, esteada numa interpretação schimittiana do artigo 142 da Constituição Federal. Parte substantiva dos apoiadores mais aguerridos do Presidente se sentiram instigados com essa possibilidade e acamparam na frente dos quarteis.

Pouco depois do Natal, seja por falta de apoio ou disposição para o confronto direto, Bolsonaro entregou os pontos e embarcou rumo aos Estados Unidos. O restolho de apoiadores mais radicalizados fizeram uma última manifestação tresloucada no dia 8 de janeiro, que deu ensejo para uma repressão ainda mais generalizada, conferindo certo gás ao governo que se iniciava em meio à desconfiança reinante.

Os próximos passos do consórcio que se apropriou do poder estão bem estabelecidos até aqui. A estratégia passa pelo aumento do controle sobre a sociedade, como forma de anular o potencial disruptivo das redes sociais e das aglomerações urbanas. E, a partir daí, retomar os acordos pouco republicanos que tem marcado a governabilidade no presidencialismo de coalizão, para continuar implementando a agenda de revolução cultural de longa duração que tem destruído a sociedade brasileira, contando, dessa vez, com a blindagem institucional garantida pelo STF e com a proteção de um forte aparato midiático.

 

O que fazer

Existem motivos de sobra para o retraimento de muitos ativistas e lideranças políticas em face desse cenário. Operando como uma agência reguladora do discurso público, as Cortes já demonstraram que seus limites são maleáveis e a repressão pode cair em cima de qualquer um que pareça representar uma ameaça aos objetivos do consórcio ora no poder.

Isso impõe barreiras claras para a ação política, principalmente considerando os métodos de ação adotados até aqui pela direita conservadora. Em um cenário assim, a hiperexposição pela internet e a convocação para manifestações de rua podem ser o prenúncio de cassação de direitos políticos ou mesmo de prisões arbitrárias, ao arrepio do devido processo legal.

Logicamente, em algum momento, pode ser que as contradições se agravem a tal ponto que não restará outro caminho de ação a não ser correr o risco do enfrentamento direto. Nesse caso, a única chance de levar a um bom término um movimento de radicalização residirá justamente na sua capacidade de responder à repressão com mais ajuntamento, mais protestos e mais contato corpo a corpo com a elite política e suas forças de repressão.

Pelas mesmas razões, as alternativas existentes para ação política não podem depender exclusivamente de uma pessoa ou da existência de um partido. Enquanto os conservadores esperarem alguma ação de políticos eleitos ou do ex-presidente da República para começarem a agir, estarão sempre a reboque das estruturas coercitivas a serviço do consórcio que se apropriou do poder.

O processo revolucionário de perfil conservador que se iniciou em oposição ao avanço gradual do socialismo no Brasil não pode ser domesticado tão facilmente. As contradições internas que levaram o país a um tal estado de coisas continuam presentes e tendem a se acentuar. Especialmente porque essa não é uma luta de natureza meramente política. Não se trata de preservar liberdades ou costumes estabelecidos, ou de implementar uma boa administração, sem corrupção e calcada na eficiência. Trata-se de uma batalha de fundo espiritual, contra uma forma particularmente anticristã de socialismo, que por diferentes vias procura destruir os fundamentos naturais da sociedade humana e combater toda forma autêntica de religião. Em vários países do mundo o mesmo problema se repete, com o mesmo ímpeto de reação disruptiva, mesmo diante de derrotas políticas pontuais, justamente pela gravidade do que está em jogo.

O problema então para construir uma resposta eficaz contra esse atual estado de coisas passa por driblar os instrumentos de poder que fazem frente ao desejo generalizado por mudança. Em um contexto assim, faz-se necessário um conjunto de ações descentralizadas, que precisam ser estruturar em camadas distintas da prática política. Elas podem ser separadas analiticamente em cinco eixos inter-relacionados, que devem ser estruturados sem a necessidade de uma coordenação central ou liderança estabelecida: (1) a construção de um Novo Estado Brasileiro; (2) a ampliação, a diversificação e o fortalecimento dos ecossistemas existentes; (3) a formação de quadros; (4) ocupação de espaços; e (5) a retomada do trabalho do negativo.

Por construção de um Novo Estado Brasileiro, entenda-se todo o esforço intelectual, cultural e formativo para estabelecer visões alternativas da ordem política nacional, respeitando os valores e tradições do país, mas com abertura para experiências diferentes. Isso passa por revisitar as contribuições de diferentes ideologias e correntes políticas, incluindo o liberalismo, o Estado administrativo, o populismo, o patrimonialismo e mesmo algumas advindas da esquerda.

A direita precisa entender que muitos dos limites da experiência do governo Bolsonaro foram também limites intelectuais e de imaginação institucional das elites políticas, econômicas e militares que ocupavam posições chave no Estado brasileiro, incluindo o próprio Presidente da República. É preciso desenvolver uma avaliação crítica e alternativas de superação das aporias do sistema político brasileiro, do arranjo institucional da Constituição de 1988, das políticas públicas implementadas no país nas mais diversas áreas e mesmo do regime econômico de capitalismo de compadrio com forte dominância do sistema financeiro, que se instaurou no Brasil desde meados do século passado.

Temas como reforma do Judiciário, reforma política, reforma administrativa, reforma tributária, políticas públicas, economia política, Poder Moderador, centralização, regionalismo, municipalismo, subsidiariedade, experiências internacionais diferenciadas e novos arranjos constitucionais precisam ser debatidos pelos intelectuais, políticos e influenciadores do campo, pelas editoras, produtoras e associações culturais, em fóruns públicos e espaços reservados, em publicações e canais de discussão política, em instituições e think tanks especializados.

O sistema político brasileiro é um arranjo limitado para mudanças, que foi apropriado por uma aliança entre esquerda socialista, corporativismo burocrático, financismo usurário, elites globalistas e oligarquias regionais, capaz não só de bloquear ímpetos reformistas, como também de expandir seu controle sobre a sociedade de maneira lenta e progressiva. Esse cenário não vai ser alterado que não seja por uma agenda revolucionária, paradoxalmente calcada na defesa de princípios conservadores e restauração de uma sociedade sã.

Contudo, esse processo não vai encontrar sua concretização se não passar pela construção de imagens alternativas de mundo, um mapa mental dos caminhos que podem ser trilhados para a construção de uma alternativa consistente ao atual estado de coisas, capaz de deslocar o eixo de atenção das elites aptas a conduzir processos de transformação da sociedade e criar agendas consistentes de atuação política de curto, médio e longo prazo.

Isso se relaciona com a ampliação, diversificação e fortalecimento dos ecossistemas existentes. É preciso desenvolver um conjunto de esforços para a criação de novas instituições capazes de implementar agendas positivas. Isso significa ação política direta, mas também formação, debate, divulgação de ideias, intervenção na sociedade. Inclui o trabalho de escolas, universidades, think tanks, publicações especializadas, organizações não-governamentais, projetos sociais, associações de caridade, associações comunitárias, sindicatos, associações culturais, entre outras.

Não é mais possível operar com respostas fáceis para problemas complexos. O Brasil é uma sociedade fora de controle, dominado por uma elite socialista em conluio com oligarquias regionais, com problemas de insegurança, fronteiras abandonadas, desorganização comunitária, desestruturação familiar, cultura de aborto, disseminação de drogas, deterioração do patrimônio histórico, analfabetismo funcional generalizado, desorganização urbana, burocracia ineficiente, ativismo judicial, entre outros. Encontrar soluções para essas questões passa por desenvolver iniciativas em associações civis, que são o laboratório de qualquer ação governamental consistente, mas que só serão capazes de propor algo novo na hora que se depararem com o dia a dia das populações afetadas.

Nesse sentido, muito do esforço e dos recursos empregados até aqui para organizar manifestações pode ser deslocado para ações cotidianas de maior consistência no tempo. Os cristais da massa, isto é, os grupos pequenos e rígidos, bem delimitados e de grande durabilidade, que servem para desencadear as massas, precisam ampliar sua capacidade de atuação, para além das grandes manifestações. Existe uma ampla gama de leis de incentivo no país, que podem servir como arcabouço legal e meio de financiamento para a criação de novas associações e organizações civis. Empresários que já financiam iniciativas políticas e culturais na direita podem deslocar seus investimentos para projetos e associações com finalidade estratégica. Senadores, deputados e vereadores devem empregar recursos de emendas para fortalecer esse tipo de iniciativa, que também costumam ter ótimos retornos políticos.

A formação de quadros, por sua vez, se institui com a massificação desses agrupamentos. Ela inclui quadros para ação política direta, mas também para o exercício da administração pública e em outras instâncias de atuação vertical. O coordenador de um projeto social que lida com problemas de desestruturação familiar é um ótimo quadro para incorporação numa prefeitura aliada. O público desse projeto, por sua vez, se bem trabalhado, é matéria prima em potencial para ação política direta. Jovens com destaque intelectual e comprometimento com a causa devem ter acesso a financiamento de carreira para ocupação de posições estratégias no serviço público. E funcionários bem localizados na burocracia que demonstrem interesse precisam ser corretamente orientados. É possível desenvolver espaços de formação descentralizados, voltados para ensinar as pessoas a operarem nesses diversos níveis de atuação. Escolas, universidades, think tanks e plataformas de ensino tem um papel especial nisso, mas a formação inclui também o trato cotidiano com a coisa, o enredamento de uma personalidade na resolução de problemas práticos.

Finalmente, a ocupação de espaços precisa ser executada de forma sistemática. Ela se dá pela conquista progressiva de posições nas instituições políticas, culturais, militares, de ensino e no jornalismo, expelindo adversários e colocando pessoas comprometidas com uma agenda de mudança. Enquanto o conservadorismo nacional só tiver expressão política numas poucas personalidades do Congresso, ele será refém não só dos instrumentos de controle da ação e do discurso que têm sido implementados, mas de mecanismos tradicionais de cooptação, como o suborno, a chantagem, a pressão dos pares etc.

O que pode provocar uma mudança consistente é a massificação de agentes políticos, muitos dos quais operando nas sombras, em redes organicamente articuladas, mas sem relação de dependência bem estabelecida, o que garante que não possam ser facilmente mapeadas ou desarticuladas. O Poder não aceita vácuo e não floresce na tibieza. Posições conquistadas devem ser ampliadas sempre, tendo em vista o fim que se quer atingir.

Da mesma forma, é preciso ter em mente a importância do governo Bolsonaro para a formação de quadros políticos com certa experiência. Centenas de profissionais aprenderam a lidar com a coisa pública com algum nível de razoabilidade. Entenderam seus limites e potencialidades. Por isso, a seriedade de atores políticos que ganharam posição legislativa ou nos estados também deve se medir pelo seu compromisso em absorver essas pessoas.

Não faz mais qualquer sentido uma atuação parlamentar que se foque somente na eficiência, sem pensar em preparar pessoas para sua expansão em outras esferas. Esse é um dos critérios importantes também para julgar projetos eleitorais de natureza pragmática, em eleições municipais ou estaduais. Os que não tem consciência da importância de uma agenda revolucionária para conter o avanço do monstro socialista não devem ser valorizados, a menos na absoluta falta de opções viáveis. 

Outros espaços também devem ser conquistados, como conselhos tutelares, conselhos de saúde, associações de bairro, sindicatos etc. Cada organização que se cria ou se conquista é uma fonte de recursos, que devem ser empregados para especializar pessoas na prática política e na administração pública. Em algumas situações, isso pode exigir discrição, trabalho lento, aproximações sucessivas. Nem sempre é conveniente declarar as intenções políticas para agir com eficácia.

Finalmente, exista a necessidade premente de retomada do trabalho do negativo. A nova direita conservadora nasceu das polêmicas encetadas por Olavo de Carvalho em artigos, livros, vídeos e postagens de internet. Os alvos preferenciais dessas polêmicas sempre foram a intelectualidade engessada e emburrecida da academia e do jornalismo, bem como a elite política estabelecida. A arte do deboche desenvolvida pelo filósofo e sua verve retórica influenciaram a formação de milhares de pessoas, de intelectuais genuínos a jovens ativistas digitais que dedicam parte do seu tempo à criação de memes e outras piadas desmoralizantes.

Entretanto, a experiência de governo, que veio com um apelo permanente para a defesa do terreno conquistado nos últimos quatro anos, contribuiu para o crescimento de certo utilitarismo no campo da direita, que relegou a segundo plano a tarefa de denúncia, exposição e desconstrução de seus adversários. De repente, só o trabalho de administrar a coisa pública e ganhar eleições pareceu ter alguma importância. É óbvio que algo além do enfrentamento retórico midiático precisa seja construído, mas a força que esse meio tem de enfraquecer o campo discursivo da esquerda não pode ser ignorado.

Essa retomada implica sua prática no Parlamento, nos espaços de debate público, nas redes sociais, nos veículos de mídia e nos livros. Existe uma geração inteira de jovens que não foi influenciada pelo crescimento meteórico do professor Olavo de Carvalho e outras personalidades do campo da direita. Com o tempo, esse número tende a aumentar. E seu potencial de servir de massa de manobra para a esquerda socialista é realmente perigoso.

Por isso, as mentiras da esquerda devem ser sempre estudadas, lembradas, recontadas e desconstruídas novamente. Também porque a entrada do país numa agenda de capitalismo woke agressiva a partir da pandemia não tem sido contrabalanceada por nenhuma personalidade ou estrutura com expressão cultural forte o suficiente. Não existe trabalho repetitivo nesse campo. E todo o esforço do negativo, que serve para aprofundar as contradições do consórcio ora no poder, enfraquecendo sua legitimidade e apelo popular, deve ser valorizado.

Essas cinco frentes de atuação se encontram inequivocamente relacionadas e são interdependentes. Isso significa que o resultado político final, a sua força de mudança, o fim último do processo revolucionário, vai depender de quão equilibrada é a imagem que se produz da realização prática de cada uma das frentes. Uma atuação política que se foque somente em eleições para conquista de cargos vai se render inevitavelmente ao fisiologismo e, consequentemente, à influência de organizações e outros vetores que atuam a longo prazo. Uma massa de agentes políticos que se acomodar no trabalho do negativo vai somente criar resistência nos seus inimigos e fortalecer uma reação proporcional para conter seu efeito corrosivo.

Em algum momento, todas essas iniciativas poderão ser unificadas na figura de um movimento ou organização centralizada. Isso vai depender, porém, da multiplicação de atores estratégicos, do nível geral de maturidade política, da cristalização de uma visão de sociedade alternativa e da disponibilidade de recursos. O acúmulo de forças por si mesmo vai gerar sua necessidade de institucionalização. As contradições internas do consórcio que ora se instaurou no poder podem precipitar novos momentos de ação política direta, de caráter disruptivo. O seu nível de sucesso, entretanto, vai depender do quanto o conservadorismo nacional avançar em cada uma das frentes de batalha aqui descritas.

― Eduardo Matos de Alencar é doutor em sociologia pela UFPE. É autor do livro “De quem é o Comando? O desafio de governar uma prisão no Brasil” (Record, 2019), premiado pela Biblioteca Nacional.

 


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