DIÁRIO DE UM CRONISTA

O crack venceu o Liceu

Paulo Briguet · 22 de Agosto de 2022 às 17:31

Fundado há 137 anos, colégio do bairro em que nasci vai fechar as portas por causa da Cracolândia
 


Aos 137 anos de atividade, o Liceu Coração de Jesus anunciou que vai fechar as portas. Localizado no bairro de Campos Elísios, na área central de São Paulo, o Liceu é uma das escolas mais tradicionais da capital paulista e formou milhares de alunos desde a sua fundação por padres salesianos, com o importante apoio da Princesa Isabel, em 1885. Pelos bancos do Liceu passaram diversas gerações de brasileiros, inclusive alguns famosos, como o ator Grande Otelo e o compositor Toquinho. Nos tempos áureos, o Liceu chegou a ter mais de 3 mil alunos e a oferecer cursos de graduação. Mas, nas duas últimas décadas, o colégio foi vencido por um inimigo implacável: o tráfico de drogas. Desde que a Cracolândia se instalou nas ruas e praças dos Campos Elíseos, o número de alunos começou a decair. A criminalidade e a insegurança crescentes do bairro afugentaram os alunos. Neste ano, restavam apenas 190 estudantes matriculados. Em comparação, a Cracolândia reúne cerca de 700 usuários de drogas, que transitam como zumbis pela região, em situação degradante, transformando a rotina da vizinhança em um inferno. A Cracolândia é uma ferida – mais do que isso: uma metástase – no coração de São Paulo.

O Liceu está no meu coração. Em 17 de janeiro de 1971, foi na paróquia do colégio que eu recebi o sacramento do batismo. Ali eu nasci de novo na água e no Espírito, como disse Jesus a Nicodemos. Recebi a notícia do fechamento do Liceu com um sentimento de tristeza e angústia, como se estivessem demolindo a minha casa de infância. Até porque eu passei meus primeiros 12 anos de vida morando com minha família a algumas quadras do Liceu, no bairro de Campos Elísios. Como é triste ver o destino do bairro em que nasci!

O batismo deste futuro cronista de sete leitores, em 17 de janeiro de 1971

Morar naquela região não tem sido fácil para os que lá permaneceram. Desde o surgimento da Cracolândia, os moradores de Campos Elíseos sofrem com a insegurança, com os assaltos e com o mau cheiro terrível que emana dos excrementos, dos restos de comida e dos corpos dilacerados dos usuários de crack. De um lado, moradores aterrorizados e trancados em casa. Do outro, farrapos humanos que perderam qualquer resquício de dignidade e liberdade e se encontram devastados pela escravidão do vício. No entanto, eles são vítimas: vítimas daqueles que lucram com os bons negócios do tráfico. Para se ter uma ideia, um usuário de crack consome cerca de 10 “pedras” por dia. Cada pedra custa R$ 10. Multiplique isso por 700, depois pelos 30 dias do mês, depois pelos 365 dias do ano – e você concluirá que o comércio de crack é um negócio lucrativo. Como é que se deixou a situação chegar a esse ponto?

Preocupado com a repercussão negativa do fechamento do Liceu, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), propôs transformar o colégio em uma escola municipal, com mensalidades pagas pela Prefeitura. Pessoalmente, acho que apenas marketing, uma tentativa do prefeito de mostrar que está tomando providências. Sou bastante cético quanto a soluções que passam pela estatização de qualquer coisa. Hoje, o prédio do Liceu já abriga uma creche da Prefeitura, um abrigo para catadores de lixo reciclável e outros programas sociais do município. Eu não me surpreenderia se amanhã algum assistente social esquerdista propuser levar a Cracolândia para lá.

A minha esperança está na Igreja. Continua ali a linda paróquia em que, há 50 anos, um sacerdote de Cristo me batizou em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Filho do Homem nos ensinou que é necessário nascer de novo – e também nos garantiu que as portas do inferno não prevalecerão. Então, rezemos pela ressurreição do Liceu – e pelas almas dilaceradas do crack.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


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