IGREJA CATÓLICA

O cisma já começou na Alemanha

Especial para o BSM · 13 de Março de 2023 às 11:15

O que acabou de acontecer pode ser visto como o início de um novo cisma, muito mais perigoso e sério do que o de Martinho Lutero

 



Pe. Santiago Martín

Os historiadores normalmente colocam o início do cisma de Lutero no momento em que ele pregou as suas 95 teses contra as indulgências, à porta da igreja de Todos os Santos, em Wittemberg.

O ano era 1517, e Lutero levou quatro anos até ser excomungado. Quatro anos que, segundo os historiadores, foram também demasiado longos e que lhe permitiram fortalecer-se e dar à sua heresia a oportunidade de se espalhar por toda a Europa. O que acabou de acontecer, neste fim de semana na Alemanha, pode ser visto como o início de um novo cisma, muito mais perigoso e sério do que o de Lutero.

O Sínodo Alemão enfim terminou. Não houve a menor tentativa, da parte dos seus promotores, de aproximar os seus posicionamentos aos da Igreja Católica. Pelo contrário. Eles partiram conscientemente para o confronto. Fizeram-no usando métodos ditatoriais, tais como a proibição do voto secreto, para impedir que os bispos, que não concordavam com o que deveria ser aprovado, votassem contra. É claro que o poderiam ter feito — e alguns o fizeram —, mas os que se abstiveram tiveram medo de sofrer o assédio que os “tolerantes” infligem aos que não concordam com eles.

Aprovaram, entre outras coisas, a pressão pelo fim do celibato sacerdotal, a celebração de batismos e casamentos por leigos, bem como a pregação de homilias (e especialmente por mulheres leigas). Aprovaram a bênção de casais homossexuais e de todos os tipos de casais não casados. Aprovaram a ideologia de gênero, aceitando que o sexo de uma pessoa nada tem a ver com a sua biologia, mas é uma questão de vontade pessoal e, como se isso não fosse suficiente, mutável tantas vezes quanto o direito civil o permita.

Como resultado, aprovaram que as mulheres que se sentem ou afirmam sentir-se como homens — transexuais — possam ser ordenadas sacerdotes, o que de fato implicaria a existência de sacerdotisas, porque não só estas "sacerdotisas" seriam fisicamente mulheres, mas, uma vez tornadas sacerdotisas, poderiam dizer que se sentem novamente como mulheres.

Para usar as palavras de um dos poucos bispos alemães que decidiram permanecer católicos, por muito menos do que tudo isto acabou de ocorrer um cisma dentro da Igreja Anglicana: na Igreja Anglicana pode-se ser qualquer coisa e acreditar em qualquer coisa, desde que não se interfira no que os outros fazem ou acreditam.

Prevendo tudo isto e, sem dúvida, com a informação de que o que aconteceu iria mesmo acontecer, o Papa tornou pública no início da semana a composição do novo Conselho de Cardeais (que o aconselha no governo da Igreja). De forma muito marcante, deixou de fora o Cardeal Marx, Arcebispo de Munique. É verdade que incluiu outro cardeal — Hollerich, de Luxemburgo — que tem opiniões semelhantes às dos alemães sobre alguns pontos, mas a eliminação de Marx foi um sinal de que ele não gostou de seus conselhos ou de seus atos. Os Alemães não se importaram com o aviso do Papa. Estão preparados para implementar o que aprovaram, sem alterar uma vírgula. Algumas coisas entrarão em vigor imediatamente, outras demorarão um pouco mais. Mas eles o farão.

É o Papa — e só ele — quem tem a responsabilidade histórica de intervir o mais rapidamente possível. Só ele tem o ministério petrino. Já não é suficiente que alguns dos ministros superiores do Papa — tais como os Cardeais Parolin ou Ladaria — intervenham. São necessárias decisões claras e proibições expressas, para que fique muito claro que um bispo que implemente as medidas aprovadas pelo Sínodo está automaticamente demitido.

O tempo que foi perdido com Lutero não pode ser perdido agora. Se não forem tomadas medidas, o que aconteceu na Alemanha espalhar-se-á por todo o mundo e não tardará que americanos, belgas, suíços e mesmo latinos façam o mesmo, porque a passividade do Vigário de Cristo será interpretada como permissão tácita.

O que farão os cardeais e bispos que não concordam, por exemplo, com a existência de sacerdotisas transexuais quando elas existirem? O que farão os fiéis? Ficarão todos em silêncio como se nada estivesse acontecendo? Teremos chegado a este ponto de passividade?

É preciso continuar rezando, mas agora é necessário mais do que rezar.

Padre Santiago Martín, da Diocese de Madri, é autor do livro “O Evangelho Secreto da Virgem Maria”. É biólogo de formação e criador do movimento chamado Franciscanos de Maria, aprovado em 2007 pelo Papa Bento XVI.

 


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