ARTIGO

O Brasil entre a cruz e a foice

Braulia Ribeiro · 11 de Outubro de 2022 às 15:03

É tempo de acreditar em milagres. Sem milagres, não venceremos as forças das trevas que nos espreitam para dominar o país


Uma convocação sem selo de autoria circula no WhatsApp, ilustrando com perfeição o cerne religioso e ideológico das eleições: “Ao votar, unja uma urna”. O anúncio pede que o devoto unja suas mãos com óleo e ore pela urna eletrônica quando for votar, pedindo pelo bom funcionamento das urnas e para que milagrosamente a fraude e a corrupção sejam expelidas do processo eleitoral. Alguns católicos talvez prefiram usar a água benta a que usar o “óleo da unção,” como pede a convocação, que tem um estilo um pouco protestante. Desde que a água não afete o funcionamento da máquina, e que fique claro que ninguém está dizendo para que as urnas sejam imersas ou banhadas em água, o efeito é o mesmo. A ideia principal da campanha é que o cristão saiba incluir o Divino no momento do voto, implorando por uma intervenção milagrosa. Momentos desesperadores justificam medidas desesperadas.

A convocação tipifica a natureza da religião cristã brasileira, rica em simbolismos táteis. O Deus dos brasileiros se comunica com o mundo aqui embaixo e intervém nele.  O Senhor das hostes celestiais, Senhor do que é sublime e transcendente, se importa também com o que parece ser comezinho, temporário e imanente. O Divino, por incrível que isso pareça, tem um projeto político e civilizatório para o povo racialmente híbrido, culturalmente diverso e religiosamente devoto que vive em terras tropicais e subtropicais que ocupam grande parte da parte sul das Américas. Assim crê o brasileiro.

Permita-me fazer uma breve defesa teológica dessa fé. Nossa cabeça moderna, contaminada pelo ceticismo, olha com desconfiança para apelos desse tipo. Até pessoas que professam ser cristãos, se são mais educados nas ciências baconianas ou na filosofia iluminista, tendem a desprezar essa certeza da possibilidade da interação entre o material e o natural, que conhecemos na linguagem de fé como milagre. Esse “cristão” prefere crer na sorte, ou até no acaso, perspectiva que induz ao desespero e não ao conforto da fé, a admitir que algum tipo de mistério sobrenatural possa afetar a materialidade absoluta na qual está encapsulada a sua existência terrena. Para essa triste figura, a fé não passa de uma aquiescência racional a alguns princípios morais, que se tornam mais vagos a cada dia que passa. A maioria dos cristãos brasileiros, no entanto, não torce o nariz para o apelo da convocação. A fé simples dos tupiniquins ainda consegue resistir ao materialismo iluminista, que cria obstáculos racionais para que o mundo do divino se comunique com o mundo terreno.

Sobre o assunto, Olavo de Carvalho comentou em uma de suas aulas: “Se eu posso rezar para que Deus conserte o pneu de meu carro quando furado? Claro que sim. Se Deus não pode fazer isso para que serve então a minha fé?”

Na minha vida amazônica, quando jovem arrojada, explorando as matas sem medo e sem armas para proteção pessoal, contei com milagres para sobreviver. Parece estúpido, e talvez até tenha sido, mas todo salto de fé, não contém em si um nível de desafio ao “bom senso?” Certa vez, distante mais de dez dias de qualquer cidade com recursos médicos adequados, fui mordida por um cão hidrófobo. Logo perdi o cão de vista, deve ter morrido se atirando na água como acontecia quando a raiva atingia a aldeia. A enfermeira da Funai olhou para mim como quem olha para uma condenada à morte:

– Você tem que sair imediatamente daqui e se vacinar.

Acontece que nesse dia, por “acaso”, a aldeia indígena nunca visitada por ninguém estava recebendo uma lancha “voadeira” da Funasa, com agentes colhendo lâminas de malária. Não vou nem parar para falar da inutilidade desses dois serviços, uma enfermaria sem recursos nem vacinas de emergência, numa região onde a hidrofobia é endêmica, e um órgão de controle e diagnose da malária, também endêmica, que só visitas vilas de mês em mês. O fato é que em menos de duas horas depois da fatídica mordida lá estava eu na “voadeira” a caminho de uma vila onde pousavam pequenos aviões e trafegavam ônibus de passageiros, fora do período das chuvas. Ao chegar à vila, sem saber o que fazer, orei, rezei, me desesperei diante do Deus que eu sabia ser amoroso e compassivo perguntando o que deveria fazer. Em meu coração veio um verso bíblico como por um milagre: “O caminho da vida conduz o sensato para cima para que ele não desça à sepultura”. (Provérbios, 15:24)

O verso, entendido em contexto, é uma metáfora para a proteção de Deus, mas na hora não podia ter sido uma orientação mais literal. Entendi claramente que tinha que sair dali de avião, o que fazia todo sentido porque era a estação das chuvas e ninguém sabia quando chegaria o próximo ônibus.

Lá fui eu para o pequeno aeroporto da localidade, bem movimentado pelo garimpo, certamente ilegal, intenso na região. Ali fiquei plantada o resto do dia, pedindo carona a cada teco-teco que aparecia, sem sucesso. Depois das seis da tarde, as avionetas não voam mais. Eu não tinha onde ficar no vilarejo e fui pedir hospedagem entre os cristãos da única igrejinha batista do lugar. O pastor, boa gente, tinha a casa lotada, mas me indicou uma missionária estrangeira que “pendurava a rede” no galpão de alguém. E assim, junto com minha companheira de viagem, outra jovem inexperiente como eu, fomos conversar com a missionária pedindo um espaço para pendurar nossas redes no galpão. A senhora, uma americana, morava na região em condições muito simples, trabalhando na tradução do Novo Testamento para a língua do grupo indígena que eu também me dedicava a aprender. Margaret Sheffler se revelou uma pessoa extraordinária. Antes de vir ao Brasil, ela havia sido enfermeira entre outros indígenas no Canadá, na ocasião lidou com alguns casos de hidrofobia. Quando soube do me acontecera, apavorou-se.  Muito discretamente deixou o galpão depois que fomos dormir e foi à casa de uma pessoa para fazer um telefonema para alguém em Belém do Pará. No dia seguinte, às sete da manhã, ela nos acordou com uma  notícia. Nossas passagens estavam compradas, sairíamos às 9 horas no único voo de linha comercial da semana e em poucas horas estaríamos em Belém, onde alguém me levaria a uma clínica para tomar as vacinas contra a hidrofobia. E foi assim que meu “caminho da vida me conduziu ao alto”. Graças a um milagre divino e um ato de profunda compaixão e abnegação humanas.

Iríamos gastar juntos mais de um dia se eu resolvesse contar aqui todos os milagres que me aconteceram até hoje. A história que contei diz respeito à materialização sobrenatural da misericórdia divina utilizando pessoas de carne e osso, mas tenho outras em que pessoas não intermediaram e nem por isso o divino foi impedido de se manifestar. Para não assustar muito o leitor, escolhi uma mais adequada para nossos ouvidos materialistas. Mas o fato é que a fé cristã, para ser completa, tem que sim contar com milagres, tem que ver, ouvir e materializar milagres, afinal de contas, essa é a sua raison d’être.

Voltando às urnas, é tempo para milagres. Sem milagre, o Brasil não se livrará do destino de trevas que o espreita à distância.  Que venham milagres de transformação de biltres em gente de verdade, de homens menores em homens nobres, vileza em respeito, presunção autoritária em consciência política. Que venham milagres de virilização de um judiciário que até agora só conseguiu ter seu “pênis flácido levantando a a sua cabeça senil de uma maneira não muito masculina” (copio Montaigne, que copiou Albius Tibullus). E finalmente, que venham milagres que confundem algoritmos, que perturbem consciênciais morais, que destruam conluios e conspirações.

(Uma homenagem às duas margaridas internacionais que a providência divina ousou trazer ao Brasil, Croft and Sheffler (xepxep magarida’yã), especialmente ao anjo da guarda que se materializou para mim em Jacareacanga naquele chuvoso dia de março, Margaret Sheffler.)

 

 


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