BSM NA COPA

O Brasil contra o time de camisa vermelha

Paulo Briguet · 24 de Novembro de 2022 às 18:23

Assistindo à estreia da Seleção no acampamento do Tiro de Guerra. Ou melhor, assistindo a outra coisa

“O dia em que o povo brasileiro estiver mais preocupado com a política do que com a Copa do Mundo, o Brasil finalmente começará a mudar.”
(Dr. Eneas)
 



Há 40 anos, o Brasil teve uma dura estreia na Copa do Mundo da Espanha contra um time de camisa vermelha: a temida União Soviética. Eu tinha a idade atual do meu filho e sabia praticamente tudo sobre a seleção de Telê Santana. Até hoje guardo na memória os nomes e números dos 22 jogadores escalados para aquela Copa. Todos os meninos da minha idade colecionavam as figurinhas das 24 seleções participantes, que vinham nos pacotinhos dos chicletes Ping Pong. Nunca masquei tanto chiclete em minha vida como em 1982.

Exatamente quatro décadas depois, eu volto a ver Brasil contra um time de camisa vermelha. Em 1982, a Sérvia ainda não existia, ou melhor, estava incorporada à República Socialista da Iugoslávia. Mais uma vez, o futebol parece ser um comentário da vida. Estava aqui fazendo as contas: segundo o grande cientista político Rudolph Joseph Rummel, autor do livro Death by Government e criador da expressão democídio (assassinato do povo), os ditadores soviéticos mataram 61,9 milhões de seres humanos entre 1917 e o fim da URSS, em 1991. Na Iugoslávia, durante o reinado do ditador comunista Josef Broz Tito, entre 1953 e 1980, quase 1,1 milhão foram assassinadas pelo regime. Mas o banho de sangue nos Bálcãs não terminaria aí: durante o período em que ficou no poder, entre 1989 e 2000, o líder do Partido Socialista da Sérvia, Slobodan Milosevic, foi responsável por uma série de crimes contra a humanidade, e terminou seus dias na prisão. Felizmente, o atual governo da Sérvia parece não ter nenhuma relação com esses tempos sombrios. Como todos sabemos, o verdadeiro inimigo vermelho do Brasil não é a Sérvia.

A Copa de 1982 começou tensa para o Brasil. Nosso time – que tinha Zico, Sócrates, Falcão, Éder e outros craques – atacava muito, mas todas as tentativas de gol esbarravam numa muralha humana chamada Rinat Fayzarakmanovitch Dasayev, o goleiro soviético. Mas piorou. Aos 34 minutos do primeiro tempo, o meia Andrey Mikhailovitch Bal arriscou um chutinho despretensioso, da intermediária, e o nosso querido goleiro Valdir Peres (até hoje injustamente lembrado por isso) engoliu um frangaço. Caí no choro.

O Brasil hoje está como aquele menino de 12 anos estava no intervalo de Brasil x União Soviética na Copa da Espanha: inconsolável diante da perspectiva de uma derrota injusta. Por isso, ciente de que hoje a maioria das pessoas conhece os 11 nomes time adversário (aquele tribunal de uniforme sombrio) muito melhor do que os 11 nomes dos titulares da Seleção Brasileira, resolvi assistir ao Brasil x Sérvia no acampamento dos patriotas no Tiro de Guerra de Londrina.

Para minha surpresa, entre as mais de mil pessoas presentes, pouquíssimos acompanharam a estreia da Seleção Brasileira na Copa do Qatar. Ao contrário do que se esperava, não foi montado nenhum telão para que os patriotas vissem o jogo. O protocolo do acampamento continuou seguindo normalmente: de hora em hora, os manifestantes cantam o Hino Nacional, cantam o Hino da Independência, rezam o Pai-Nosso e gritam juntos as palavras de ordem:

 

Todo poder emana do povo!

Feliz a nação cujo Deus é o Senhor.

Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil.

Comunismo, não!

Corrupção, não!

Censura, não!

Queremos viver em liberdade.

Queremos o código-fonte.

Viva a liberdade!

A nossa bandeira
Jamais será vermelha!

Eu já falei, aprende aí
A nossa Copa é aqui!


 


Bal, o autor do gol soviético em 1982, é xará do deus maligno dos fenícios que aparece no Antigo Testamento. Claro que o jogador nada tem a ver com as maldades de Baal (leio aqui que o meia aposentado morreu de mal súbito, jogando bola, em 2014). Mas a um cronista de sete leitores não devem escapar as coincidências. Principalmente considerando que hoje estamos enfrentando um Baal, que se julga dono do país e tenta destruir todos aqueles que tentam impedir os seus atos malignos. Hoje os brasileiros não estão simplesmente lamentando um gol legal do adversário na Copa, mas estão sofrendo com uma série interminável de gols impedidos e assinalados por aquele que deveria ser o juiz da partida!

Os brasileiros de verde e amarelo querem a vitória do Brasil, mas na verdade estão desacostumados com esse tipo de jogo em que há regras claras e o juiz trabalha para o cumprimento das leis. Muito pelo contrário, o que esses torcedores viram nos últimos anos foi uma longa partida em que um dos times pode afrontar as regras sem a menor cerimônia. De repente, o juiz pode trazer de volta ao campo um jogador que havia cometido uma série de faltas criminosas e fora exemplarmente expulso. E esse mesmo jogador agora não apenas quer levantar a taça após ter feito uma série de gols irregulares, como também quer a expulsão (e o banimento do futebol) de todo o time adversário.

 

 

No jogo dos últimos três anos, o time verde e amarelo foi obrigado a jogar sem chuteiras; foi proibido de fazer passes em longa distância; foi proibido de entrar na grande área; foi proibido de cobrar faltas ou escanteios; finalmente, foi proibido de chutar a gol. E quando o técnico resolveu pedir o VAR, o juiz simplesmente respondeu que não há necessidade de VAR – e multou o técnico em 22 milhões.

Nesta Copa de outro mundo, um dos times em campo é roubado, enganado, perseguido, censurado e até preso. O outro time é incentivado, paparicado, protegido, blindado, incentivado e apoiado descaradamente pela equipe de arbitragem. Enquanto isso, os guardas à beira do gramado assistem a tudo impassíveis. Eles respeitam as quatro linhas. Só havia uma esperança para o time de verde e amarelo: a intervenção da torcida. Afinal, dizem que o futebol existe para ela.

Eis a torcida, no Tiro de Guerra. Há quase um mês, eles estão concentrados neste local, esperando que alguém tome uma atitude contra esse juiz que rasgou o regulamento e beneficiou descaradamente o time de camisa vermelha.

Em 1982, viramos o jogo contra a União Soviética, com gols de Sócrates e Éder. Infelizmente, perdemos para a Itália nas quartas-de-final. No entanto, aquilo era só Copa. Em 2022, o jogo envolve a nossa vida. Se o L. subir a rampa, teremos uma tragédia muito pior que a do Sarriá. O Brasil não pode perder para o time de vermelho.

PS: Ah, sim. Eu já ia me esquecendo. O Brasil venceu a Sérvia por 2 a 0 na estreia da Copa do Qatar. Os dois gols foram de Richarlyson.

 

 

 


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