TERRA SANTA

O anti-semitismo de Guilherme Boulos

Ricardo Gancz · 27 de Novembro de 2020 às 13:42

As idéias defendidas pelo candidato psolista têm como conseqüências a morte dos judeus e o fim do Estado de Israel

O crescimento expressivo de Guilherme Boulos e a possibilidade de que ele se torne o novo prefeito de São Paulo trouxe à tona o anti-semitismo já expressado tanto por ele quanto pelo PSOL, seu partido. Em sua defesa, Boulos fez um vídeo onde ele diz que visitou o Museu do Holocausto e que ele condena o anti-semitismo ao mesmo tempo que reafirma a solidariedade ao “povo palestino”.

Vejamos, portanto, quais são as idéias defendidas por Guilherme Boulos e o que ele quer dizer com solidariedade ao povo palestino e com a condenação do anti-semitismo. 

Em primeiro lugar, olhem para essa imagem:

 

Que lugar é esse onde Boulos aparece todo sorridente? Este lugar é o Monumento aos Mártires de Ramallah. Ele foi criado para honrar os terroristas que morreram tentando e freqüentemente conseguindo executar pessoas em Israel cujo crime simplesmente foi existir e estar em Israel. O monumento é dedicado especialmente aos terroristas que saíram de Ramallah.

Por exemplo, Yahya Abd-al-Latif Ayyash, conhecido como “Engenheiro” que foi responsável por preparar bombas e dispositivos utilizados por terroristas suicidas. Suas bombas tiraram a vida de mais de cem pessoas e feriram mais de 500. Israel conseguiu eliminar o terrorista em 1996 e ele não apenas teve um funeral de honra, com mais de 100 mil pessoas presentes, como ganhou nome de rua.

O monumento da foto onde Boulos aparece foi construído para homenagear pessoas como Yahya Ayyash, que dedicam suas vidas para ceifar a vida dos judeus e sonham com a aniquilação de Israel. O prefeito de Ramallah, Musa Hadid, disse na ocasião da inauguração do monumento que ele é feito “em amor e honra pelos que lutaram contra a injustiça e a ocupação”. O prefeito também disse: “A nossa mensagem quanto à extensão da terra segue os passos dos pioneiros, e ela vai do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão”

A nova retórica anti-semita do prefeito de Ramallah é facilmente identificável, pois ele explicita suas intenções: “o controle da terra que vai do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão”. Isso é, literalmente, o controle de toda a área onde Israel está situada. A esquerda, com a sua Grande Fake Mídia, normalmente omite esses elementos, facilmente encontrados na mídia árabe.

Outro elemento dessa retórica está no fato de que os atos terroristas não são descritos, mas sim substituídos por slogans como “luta contra a injustiça” e “ocupação”. Esse tipo de anti-semitismo é aceitável pela esquerda como um todo, pois a menção explícita ao terrorismo foi extirpada e substituída por termos aceitáveis e, mais ainda, as palavras “injustiça” e “ocupação” evocam sentimentos negativos em um ouvinte médio e, portanto, toda luta contra injustiça e ocupação passa a ser algo positivo. Em suma, a vítima passa a ser culpada e o terrorista agressor se torna um justo lutador pela liberdade.

Quando analisamos o que Boulos postou em seu Facebook em 2018, quando tirou essa foto, vemos o mesmo tipo de discurso:

Desembarquei hoje em Ramalah para uma viagem de três dias com o objetivo de levar nossa solidariedade ao povo palestino e o apoio a uma solução pacífica do conflito na região. Compondo uma delegação do PSOL, vamos nos reunir com movimentos sociais e lideranças políticas da causa palestina e com representantes de organizações da esquerda israelense, que trava importante batalha contra o governo de Benjamin Netanyahu pelos direitos dos palestinos.

Estamos do lado da democracia, com igualdade de oportunidades e sem discriminação, seja ela a islamofobia ou o anti semitismo. Defendemos o fim da ocupação militar da Cisjordânia e Faixa de Gaza, o direito de retorno dos refugiados palestinos e direitos iguais de cidadania para palestinos em Israel, em concordância com o direito internacional e as resoluções da ONU.

Esta viagem representa o compromisso de nossa pré-candidatura com a justiça e a paz, contra o militarismo. As informações que chegam agora de um novo massacre em Gaza, com três mortos e centenas de feridos pelo exército de Israel reforçam a urgência da pressão internacional para uma solução pacífica e humanitária.

https://www.facebook.com/guilhermeboulos/posts/1023926337757917

No primeiro parágrafo, Boulos se diz compromissado com a paz, com o diálogo e se solidariza com o povo palestino. O compromisso com a paz é um slogan: sem efetivamente saber o que ele quer dizer com isso, fica impossível emitir qualquer opinião. Contudo, a impressão que uma afirmação do gênero passa é positiva, tanto no sentido moral quanto no sentido pragmático.

O segundo parágrafo traz mais uma série de slogans: (1) defesa da democracia, (2) igualdade de oportunidades, (3) ausência de discriminação, (4) contra a islamofobia, (5) contra o anti-semitismo. O conteúdo desses slogans passa a ficar mais claro na segunda metade do parágrafo quando Boulos elenca as idéias que defende. Vejamos uma a uma.

a) Fim da ocupação militar da Cisjordânia e Faixa de Gaza

Simplesmente não há ocupação militar na Judéia (Cisjordânia é um nome inventado na década de 50, logo depois que a Jordânia invadiu e tomou parte das terras de Israel), nem na Faixa de Gaza. Quanto a esta última, Israel tinha o controle até o ano de 2005, quando aceitou a pressão de toda a esquerda para fazer um gesto pela paz. O então primeiro-ministro Ariel Sharon arrancou as pessoas de suas casas, evacuando vinte e uma municipalidades de Israel e deixando toda a infra-estrutura, principalmente de agricultura, para os futuros moradores. A esquerda elogiou a atitude como sendo um grande passo para a paz.

Os novos moradores imediatamente destruíram toda a infra-estrutura e meses depois o grupo terrorista Hamas já controlava o local e comemorava o fato de a Faixa de Gaza ser muito mais próxima de grandes cidades de Israel; isso permitiu que eles jogassem mísseis na população civil. Em 2020, o Hamas ainda tem o controle total da Faixa de Gaza.

Quando à Judéia, ela é dividida em três áreas: Na área A, a Autoridade Palestina possui total controle; na área B, Israel tem um acordo de coordenação de segurança com a Autoridade Palestina; na área C, o controle é de Israel. Na área C, moram cerca de 150 mil palestinos e 450 mil judeus. Por outro lado, nas áreas A e B moram cerca de 3 milhões de palestinos e os judeus são proibidos de morar.

Em nenhum desses lugares há qualquer tipo de ocupação militar. Contudo, Boulos não está somente mentindo. A “ocupação militar” que ele fala é justamente o controle de fronteiras e principalmente o impedimento de entrada de armas para a Faixa de Gaza e de terroristas para dentro de Israel. Seria a destruição do país por dentro e ao mesmo tempo a liberação de mísseis mais avançados e letais para serem lançados de fora.

b) Direito de retorno/direito de cidadania

O que a expressão “direito de retorno” evoca?

Se é um direito, é algo que a pessoa pode exigir (e alguém tem obrigação de cumpri-lo). Se há um retorno, é porque em algum momento houve uma presença.

A narrativa que Boulos propaga é que os árabes que hoje se chamam de palestinos foram expulsos por Israel e que retornar um é direito dos refugiados. Trata-se de mais uma mentira freqüentemente repetida pela esquerda. Vamos entender.

1 – Quando foi proposto um plano de criação do Estado de Israel em 1947, os árabes não aceitaram a criação de um estado judeu, independentemente de suas fronteiras. Seis nações árabes abertamente declararam guerra contra os judeus e convocaram os árabes que moravam em Israel para se unir à guerra. Essa foi a Guerra da Independência de Israel, e os refugiados são árabes que aderiram ao conflito, fugiram ou foram expulsos durante esse período, no total estimado de aproximadamente 710 mil. Aqueles que permaneceram em Israel ganharam cidadania israelense.

2 – Um número ligeiramente maior de judeus, 850 mil, foi expulso dos países árabes durante esse período. O Estado de Israel recebeu esses judeus, dando-lhe cidadania e todos os direitos, enquanto os países árabes se recusaram a fazer o mesmo com os refugiados, por acreditar que Israel seria eliminada e o local transformado em um novo país sob domínio árabe. Com o tempo, os refugiados passaram a ser integrados em outros países, perdendo efetivamente o status de refugiados.

3 – Os Estados Unidos financiaram a absorção dos refugiados árabes e judeus, investindo o equivalente 50 milhões de dólares para a absorção dos refugiados e dando mais 53 milhões para os países árabes cooperarem. Israel ganhou metade do investimento dado para os árabes, apesar de ter recebido mais refugiados. Nos dias de hoje, o investimento total seria equivalente a mais de 1,5 bilhão de dólares.

4 – Israel recebeu refugiados do Iraque, Iêmen, Síria, Tunísia, Egito e Marrocos, dando-lhes cidadania. A Jordânia e outros países árabes aceitaram o dinheiro americano, mas não resolveram totalmente o problema, uma vez que se recusaram a dar cidadania de forma completa aos refugiados, insistindo que aqueles árabes deveriam lutar para conquistar Israel.

5 - O UNHCR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) foi criado com o apoio dos países árabes, que receberam dinheiro americano para ajudar os refugiados, mas não resolveram o problema. No estatuto da agência, porém, a definição do que é um refugiado é única e exclusiva para os árabes que moravam em Israel.

6 – De acordo com as definições da própria a UNHCR, o número de refugiados hoje não seria maior do que 30 mil. Contudo, a ONU não aplica esse critério. Foi criada uma agência única, a UNRWA, que aplica um critério especial somente com relação aos árabes que moravam em Israel. Esse critério diz que diz que o status de “refugiado” se transmite de pai para filho, mesmo quando a família se encontra totalmente integrada em algum outro país. Por exemplo, as top models Gigi e Bella Hadid, que ganham milhões por ano, são cidadãs americanas se enquadram como “refugiadas palestinas” e são até mesmo elegíveis a receber ajuda da Agência da ONU caso se mudem para a Jordânia ou Líbano.

7 – De acordo com a UNRWA, o número de “refugiados palestinos” é hoje de mais de 5 milhões de pessoas.  Portanto, quando Boulos repete o discurso da Autoridade Palestina, do Hamas e Grande Fake Mídia e falam em “direito de retorno”, o que significa é que Israel deve abrir as portas para mais de 5 milhões de árabes (além, claro de ceder parte de suas terras para a criação do vigésimo terceiro país árabe da região). Se isso acontecesse, Israel deixaria de ser um Estado judaico.

c) ONU

Boulos clama pela aplicação das resoluções da ONU. Ele espera que o leitor associe a ONU com uma organização séria, honesta e neutra. O que Boulos não diz é que as tais resoluções não têm valor nenhum e nada mais são do que um amontoado de países que estão dispostos a falar e assinar as maiores bizarrices contra Israel como, por exemplo, que o Muro das Lamentações e o túmulo dos patriarcas são somente monumentos religiosos islâmicos. Não é o momento agora de fazer uma análise sobre os muitos anos de condenação automática sofrida por Israel na ONU (mas farei isso em meu livro e antes trarei uma prévia com exclusividade aqui no Brasil Sem Medo), mas se todas as resoluções contra Israel tivessem alguma validade e fossem levadas a cabo, como Boulos deseja, Israel já teria deixado de existir. 

d) A oposição ao anti-semitismo.

As idéias que Boulos defende têm como conseqüência a morte dos judeus e o fim do Estado de Israel. Ainda assim, ele é capaz de apresentar essas idéias até mesmo para alguns judeus sem ser taxado de anti-semita. Isso ocorre pois ele se antecipa e afirma que ele não é anti-semita e condena o anti-semitismo. Desse modo, ele se aproveita da fraqueza psicológica alheia que prefere não enxergar o mau quando o seu autor diz fazer o bem.

Passemos agora para o último parágrafo, onde vemos Guilhermos Boulos novamente usando dois slogans que resumem e reforçam os dois parágrafos anteriores: Ele diz defender a justiça e a paz. Após a análise do conteúdo efetivo de suas propostas, fica claro o que quer dizer justiça: o impedimento de Israel de se defender de qualquer agressão e a exigência que Israel abaixe seus escudos, abra suas fronteiras e seja tomada por quem quer ocupá-la, como disse o prefeito de Ramallah, do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão. Somente com justiça – a eliminação de Israel ou pelo menos dos seus meios de defesa – haverá paz.

Boulos, porém, não termina aí o discurso bífido que parece dizer uma coisa, mas quando olhado atentamente diz outra. Ele termina sua mensagem condenando o militarismo para imediatamente alarmar a todos sobre um NOVO massacre cometido por Israel em Gaza. 

O tal massacre que Boulos relata na verdade foi quando terroristas, membros do Hamas, atiraram contra soldados israelenses que se defenderam e eliminaram a ameaça. Vale notar que as regras que um soldado de Israel precisa se submeter antes de abrir fogo limitam bastante qualquer tipo de ação em circunstancias como essa e quando eles de fato abrem fogo é porque a situação era literalmente de risco de vida. Mas, para Boulos, um judeu eliminar um terrorista enquanto protege a sua vida do agressor se torna um massacre. Justiça, pelo que parece, seria se os judeus pintassem um alvo na testa e ficassem parados.

Eis o que, para Guilherme Boulos, é condenar o anti-semitismo.

― Ricardo Gancz é doutor em Filosofia, professor de Grego Clássico e Filosofia na Universidade Bar-Ilan, analista político e correspondente do BSM em Israel.

 


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