DIÁRIO DE UM CRONISTA

O anjo do nascimento

Paulo Briguet · 8 de Outubro de 2020 às 16:13

Um conto em homenagem ao Dia do Nascituro

 

Em memória de Bernard Nathanson (1926-2011)


 

Caro dr. José:

Estávamos preparando a ceia de Natal quando decidi retirar-me para a grande mesa de madeira da sala e ler as notícias do dia. Costumo fazer isso de manhã, antes que todos acordem, às vezes quando ainda está escuro. Hoje, não. A casa está repleta de pessoas queridas entre elas meu filho, minha nora e meus netinhos gêmeos de dois anos , por isso adiei a leitura do noticiário para o fim da tarde. Um dos hábitos que herdei de meu pai é ler os obituários. Isabel dá risada, diz que isso é mania, coisa de velho, mas eu não ligo. Leio diariamente todos os nomes dos falecidos, suas idades, suas referências, seus locais e horários de sepultamento, e fico imaginando se algum dia os vi, se eventualmente cruzei com eles pelo caminho desta vida, se por acaso lhes dirigi a palavra ou participei, mesmo como coadjuvante, de suas trajetórias no mundo. Secretamente rezo por todos eles, sem exceção, porque eram todos templos do Consolador, e em algum momento, ainda que fugaz, mereceram a vida eterna. Pois hoje eu li o seu nome na lista dos falecimentos.


O jornal informa que o sr. morreu dias atrás, aos 85 anos, de causas naturais, em sua chácara no distrito do Espírito Santo. O obituário, de apenas três linhas, informa que o seu corpo foi sepultado no cemitério distrital que um dia, há muitos anos, conheci como repórter, e posso dizer, sem medo de errar, que é um dos menores cemitérios do planeta, próximo a uma capela dos tempos da colonização. Sei que o sr. dedicava especial atenção a essa capela, frequentando-a todos os dias e cuidando da limpeza e da conservação do altar, das imagens sacras, dos bancos de peroba. Foi nessa igrejinha, dedicada ao Paráclito, que nos vimos pela última vez, na semana em que recebi a notícia de que seria avô de dois meninos. Rezamos juntos diante do altar, em silêncio, depois fomos para casa ouvir uma cantata numa velha vitrola.

Quando li o seu nome no jornal, fechei os olhos. Meu filho, com um dos meninos no colo, perguntou se eu estava me sentindo bem. “Não foi nada, João. Acho que exagerei um pouco na cerveja ontem. Vou até o escritório rezar um pouco.” Ele deu de ombros e sorriu carinhosamente; o outro menino estava chamando o pai na varanda.

Caminhei até a prateleira dos livros, retirei dentre os volumes uma velha Bíblia que pertencera a meu pai e rezei um salmo em silêncio. Repeti tantas vezes a oração até decorar os versos. Meu pecado está sempre diante de mim.

Choveu muito naquela tarde de domingo em Londrina. Minhas mãos tremiam enquanto eu folheava a lista telefônica. Liguei para seis médicos que eu havia conhecido em entrevistas para o jornal e me pareciam dignos de confiança. Nenhum deles atendeu. Então, Isabel sugeriu-me o seu nome. Nos sonhos, quando tenho de fazer algum telefonema importante, eu sempre me confundo com os números. Pois foi exatamente o que aconteceu naquele dia. Antes de acertar o número de sua casa, fiz duas ligações erradas. Liguei para um bar e para uma igreja. Neste número, uma gravação informava o horário das missas e confissões.

Você atendeu a ligação depois do terceiro toque. Percebi que estava escutando música. “Espere um momento. Vou baixar o volume da vitrola.” Achei engraçado o uso do termo “vitrola” para se referir ao aparelho de som. Nos poucos instantes em que você se levantou para diminuir o volume da música, notei a combinação de vozes e violinos. “Os trovões estão fortes”, você disse, ao voltar.

Marcamos uma consulta na manhã de segunda-feira. As lojas começavam a fazer propaganda para as vendas natalinas. O taxista que nos levou era boliviano ou paraguaio; até hoje não sei exatamente, porque falava com um sotaque muito carregado e não conseguimos entender nada. Um cachorro de rua olhou com doçura para Isabel quando eu a ajudei a sair do carro. No bazar de quinquilharias, do outro lado da rua, uma caixa acústica cinzenta tocava o disco de Luis Bordon, “A harpa e a cristandade”. As calçadas ainda estavam úmidas.

Havia um pote de ração ao lado da porta da clínica. Não havia secretária. Ficamos esperando numa poltrona alaranjada de feltro, muito semelhante ao estofamento da Brasília do paraguaio (ou boliviano). Na parede, havia a gravura de um coração com uma legenda: Inveni cor meum. Você mesmo surgiu à porta e nos conduziu por um longo corredor até o consultório.

O exame foi rápido. “Três meses”, você disse. Por alguns segundos, a sua boca se moveu silenciosamente na meia-luz do consultório amadeirado, como se estivesse recitando um poema. “Três meses, doze semanas, noventa dias. Um homem não fica maior se você disser a sua altura em centímetros. Mas também não fica menor.”

Em um gesto rápido, você abriu a gaveta da escrivaninha e retirou de lá uma pequena peça de gesso. Pediu que eu estendesse a mão direita e colocou o objeto no centro da palma. Isabel soltou um grito. Você moveu os lábios por mais alguns instantes e informou: “Isso que você tem na mão é uma réplica exata do seu filho. Que tal dar a ele o nome de João?”

Enquanto eu segurava o boneco de gesso, Isabel chorava como uma criança. Atrás da mesa, havia uma estante de livros e um busto de gesso. Com a mão esquerda, também trêmula, apontei a estátua: “Quem é esse homem, doutor?” Você respondeu: “João Sebastião Bach. O autor da música que eu estava ouvindo na vitrola ontem, quando você ligou. Sabia que ele teve vinte filhos?”

Obrigado, José.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM. 


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