FUNERAIS PROIBIDOS

O que acontece quando desritualizamos a morte?

Braulia Ribeiro · 8 de Agosto de 2022 às 12:21

Por quase dois anos fomos impedidos de celebrar adequadamente a partida de nossos mortos. Isso tem consequências desastrosas para a civilização
 

"A limitação de nossas vidas é a maior evidência de que Deus nos ama."
(Simone Weil)

No clássico A Imitação da Vida, de 1934, a grande atriz negra Louise Beavers faz o papel de Delilah Johnson, uma mãe que se sacrifica para criar a filha, que a abandona para poder “passar por branca”. Delilah adoece com a rejeição da filha e acaba morrendo só, sem revê-la. A cena mais comovente do filme é a do enterro de Delilah. Tendo ficado rica com uma indústria de panquecas, a velha mãe, que tinha vivido com simplicidade sua vida inteira, encomenda para si o único luxo a que se permitiu: um funeral pomposo, com carruagem, banda de música em procissão, um séquito de cavalos brancos. A filha que se afastara fica sabendo da morte da mãe; ela aparece quando o caixão deixa a igreja, e cai em prantos, arrependida, reconhecendo finalmente quem era a mãe. Quem assiste ao filme entende que o luxo da parada funerária honra a bondade e a virtude de uma vida de sacrifício e dedicação ao bem-estar de outros. A bondade tem honra própria e essa honra brilha na nossa frente quando uma pessoa boa se vai.

Todas as sociedades do mundo têm algum ritual para marcar a marcar a morte. Seja um funeral lúgubre com os presentes vestidos de preto, e uma procissão para o caixão ao som da marcha fúnebre, ou uma “celebração da vida” artificialmente alegre, que pretende ignorar a dor e a separação dos entes queridos que a morte nos impõe. O fato é precisamos marcar a passagem da vida para morte com algum tipo de ritual.

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