BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA

Sem identidade nacional não há patriotismo que dure, diz Mauro Ventura

Cristian Derosa · 7 de Setembro de 2022 às 17:33

Em conversa com o BSM, o cineasta Mauro Ventura falou sobre as comemorações e a necessidade de ir além da política na direção de uma verdadeira ampliação da consciência nacional

No dia em que o Brasil comemora 200 anos de sua Independência, os atos populares chamaram tanta a atenção do país que preocuparam a oposição e os demais candidatos à presidência, tamanha foi a demonstração de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Mais do que apoio político, os atos parecem confirmar que o brasileiro vem ficando mais patriota. Mas o patriotismo visto nas ruas com tanta magnitude seria fruto de uma verdadeira consciência de identidade nacional?

Para o cineasta Mauro Ventura, diretor do documentário Bonifácio: O fundador do Brasil (2018), essas duas realidades precisam ser observadas e discutiras para entendermos o impacto real desse reavivamento nacional que temos visto com Bolsonaro. De um lado, o impacto da manifestação com as cores nacionais e, de outro, um conhecimento profundo do que distingue o Brasil. Ventura também faz críticas à organização do Bicentenário, com eventos feitos às pressas e de última hora, o que ele considera inadequado à importância da data.

"Primeiro, o que a gente consegue ver, o que é óbvio: é grande, vigoroso, emocionante. É um momento difícil de acontecer na história de qualquer país, algo que deve ser considerado e deve ser aproveitado. Não se pode dissipar essa força. E esse é o problema. Porque essa aglutinação de forças, ela se dá muito, hoje, por conta da figura de um homem. Por conta da referência, da imagem de Bolsonaro, da imagem política de Bolsonaro. O que é surpreendente como ele consegue, ainda que apanhando de todos os lados, tendo seu tapete puxado constantemente, ele consiga se manter de pé e com uma força de apoio popular tão grande assim", diz Ventura.

"Mas é aí que a força popular deve ser alicerçada? Na figura de um homem ou numa multiplicidade cultural que identifique essa massa, que faça com que essa massa se identifique na realidade?", questiona.

Para o cineasta, não é possível acreditar que esse patriotismo perdure sem uma identidade de nação que possa alcançar aspectos mais profundos da alma nacional. "As pessoas não conhecem os personagens da sua própria história, aqueles que foram heróis, aqueles que foram vilões de fato ou aqueles que conduziram a história", explica Ventura, acrescentando que estes fatores poderão tornar mais perenes o ímpeto popular que vemos nas manifestações atuais.

Ventura ressalta ser complicado analisar os fatos enquanto acontecem, mas acredita que o Brasil não poderá fugir dessas duas realidades que em geral aparecem de forma mais ou menos contraditória com o desejo nacional. "É a magnitude do fato em si, mas um questionamento do que subjaz nas camadas mais subterrâneas que fundamentam a coisa", conclui.

Ventura exmplifica o trabalho da Brasil Paralelo e filmes produzidos por ele, como Bonifácio, que buscam fazer com que "nós possamos ter uma referência para onde olhar e ir um pouco além do nosso horizonte de consciência", explica, salientando a importância de transcender aquilo que se apresenta no nosso próprio tempo.

 

O bicentenário

 

Desde o início do ano de 2022, muitos se questionaram sobre o que seria feito para as comemorações do Bicentenário. Mauro Ventura conta que esteve próximo dos organizadores desde o governo Temer, quando questionava sobre a organização e ideias para a data que se aproximava. Para ele, os 200 anos da independência de um país exigiam muito mais empenho.

"A gente trabalhou muito pouco. Todos nós, por uma série de fatores", explica, mas acrescenta que não há justificativas. "A gente tinha condições de estar muito mais adiantado". 

Ventura conta que tratou com todos os atores envolvidos desde o governo Temer e a preocupação era sempre com o possível "não desenrolar" das coisas, o risco de se fazer pouco. "Tanto que até quatro meses atrás tudo o que a gente tinha era um site. O site do Bicentenário", conta.

"Todas as coisas que aconteceram foram de última hora", relata, incluindo a queima de fogos, show de luzes, entre outras atrações. Mas ainda assim, diz Ventura, tudo em Brasília. "A gente tem um território gigantesco que poderia estar sendo preparado para isso. Não é uma comemoração de um dia, né? É a comemoração de 200 anos que a gente esqueceu, no meio desse tempo, de continuar comemorando", desabafa e acrescenta que produtos o Brasil tem. Enumera o Brasil Paralelo, filmes e livros que foram lançados sobre a história do Brasil.

Além de Bonifácio, filme que retrata o principal fundador do Brasil, a produtora de Ventura, a IVIN Filmes, também produziu Alma Portuguesa, também relacionada a essa busca pela consciência de uma identidade nacional. Ventura diz que muita coisa poderia ter sido melhor nas comemorações do Bicentenário. "Temos material cultural para disseminar", diz.

"A identidade de um povo se dá com a celebraç~çao dos grandes feitos em comum, dos grande snomes em comum. É isso o que a gente deveria fazer. Um show de luzes é um negócio abstrato demais, subjetivo demais para que as pessoa entendam a importância da situação", conclui.

O filme Bonifácio, O fundador do Brasil, será reexibido na plataforma da IVIN Filmes, neste dia 7 de setembro, às 21h. Para assistir ao documentário, clique aqui.

 


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