RUMO AO ABISMO

Nova constituição socialista no Chile? É a cultura, estúpido!

Lucas Ribeiro · 26 de Outubro de 2020 às 18:35

País mais próspero da América Latina foi seduzido pelo canto da sereia do socialismo do século XXI

O Chile ontem caminhou alegremente rumo ao abismo. O país mais próspero da América Latina foi seduzido pelo canto da sereia do socialismo do século XXI. No último domingo, dia 25 de outubro, o povo chileno votou de forma arrasadora por uma nova constituição. Do total de votantes, 78% dos chilenos votaram pela aprovação de uma nova constituição.

Qual é o contexto da convocação dessa nova constituição, quais os atores ganhadores dessa jornada plebiscitária e quais as ideias que permeiam o imaginário dos futuros redatores da nova constituinte?

A ideia de uma nova constituição surge quando coletivos de estudantes e de movimentos de extrema-esquerda incendiaram (literal e simbolicamente) o país em outubro de 2019. A partir da justificativa de um aumento no preço das passagens do metrô, diversos grupos de esquerda passaram a questionar o aumento do transporte ao mesmo tempo que traziam infinitas bandeiras, tal qual ocorreu no Brasil em 2013. Diferentemente do Brasil, no qual o caos iniciado pelo Movimento Passe Livre (vinculado ao PSOL) acabou sendo engolido por uma maré conservadora que iria se encontrar nas ruas em 2015 e 2016, no Chile os setores de extrema-esquerda saíram vencedores.

Os vencedores dessa jornada foram, principalmente, o Partido Comunista Chileno e a Frente Ampla do Chile (uma coalizão de movimentos de extrema-esquerda chilenos). O Partido Comunista Chileno inclusive lidera as pesquisas de opinião para as próximas eleições presidenciais ― como não ocorria desde Allende. Esses partidos seriam algo similar ao PT, PSOL e PCdoB; ou ainda, o chavismo na Venezuela e o Podemos na Espanha.

As ideias vencedoras desta jornada incluem nacionalização (estatização de bens estratégicos), pensões estatais, saúde estatal, ideologia de gênero, indigenismo socialista, abortismo e afins. Em resumo, teremos uma mistura de chavismo venezuelano somados com políticas identitárias radicais da safra mais recente.

Qual o significado dessa nova constituição para o Chile? A nova constituição do Chile representa uma enorme vitória para o socialismo latino-americano. A forma mais simples de entender o que ocorreu é espelhar como seria o equivalente no Brasil: imaginem que uma nova constituição fosse escrita com a predominância de partidos como PT, PSOL e PCdoB. Pois esse é o caminho do Chile atualmente. O passo de ontem foi a confirmação de uma carta branca para uma nova constituinte (e os atores citados anteriormente), e devemos ter em conta que o caldo cultural no Chile é completamente favorável à esquerda e a extrema-esquerda. Ao ter em conta esses redatores da nova constituição chilena, não se pode esperar uma constituição como a americana ou qualquer uma que fosse desejável, uma vez que as forças políticas ganhadoras são a fina flor do socialismo do século XXI.

Em termos internacionais, a nova constituição chilena foi celebrada por personagens e instituições como: Nicolas Maduro, Dilma Rousseff, Evo Morales, Grupo de Puebla, FARC, Foro de São Paulo e todo e qualquer líder socialista de expressão na América Latina. A partir de quem celebra, não é difícil compreender quem são os vencedores e o que virá por aí.

Por fim, devemos lembrar que essa vitória da esquerda chilena e latino-americana é consequência do fracasso e debilidade da direita no país andino. É o que se chama a “direitinha covarde” (“derechita cobarde” segundo Santiago Abascal). Essa posição política nada mais é do que uma direita “limpinha” e sem valores, crente de que apenas por conseguir resultados econômicos superiores terá sua fatia eleitoral garantida. A disputa política engloba a batalha cultural, e essa centro-direita representada por Sebastian Piñera sempre esteve numa posição defensiva. A esquerda chilena, por sua vez, fez a lição de casa da ocupação de espaços nas universidades, na imprensa e na cultura; conseguiu dominar o debate público. Além do gramscismo como estratégia geral, devemos recordar da tática aplicada pela esquerda que o cientista político argentino Agustin Laje chama de “lógica molecular”.  Não existe uma condução centralizada, mas sua força está numa multiplicidade desconexa que se junta e desfaz continuamente para atacar ou recuar. E a lógica molecular se aglutina em grupos distintos como feministas, coletivos homossexuais, anarquistas, estudantes, indigenistas e afins que se juntam numa solidariedade orgânica. Portanto, a grande lição que devemos levar do Chile é o contrário do que dizia o assessor de Bill Clinton. Não é a economia! O correto seria dizer: ― É a cultura, estúpido!


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