DIÁRIO DE UM CRONISTA

No jardim da santa da minha rua

Paulo Briguet · 8 de Janeiro de 2023 às 11:41

Uma visão do futuro na manhã de domingo
 

 


Hoje é domingo, Dia do Senhor, e faço o meu passeio pelo jardim de Madre Leônia. Em russo, domingo é voskressenie, ressurreição. Apesar dos erros da Rússia, sobre os quais alertou Nossa Senhora de Fátima em 1917, creio que esse nome para um domingo é um dos tesouros que a Rússia tem a oferecer ao mundo, como a literatura de Tolstói e Dostoiévski e a música de Shostakovitch.

Ressurreição. É nesse milagre, o maior de todos os milagres, que eu penso diante da oliveira plantada para comemorar os 40 anos da Páscoa definitiva de Madre Leônia Milito. Não sei já contei a vocês, mas a serva de Deus Madre Leônia está sepultada a alguns metros da minha casa aqui em Londrina. Fundadora da Congregação das Claretianas, hoje presente nos cinco continentes, Madre Leônia tem um processo de beatificação sendo analisado pela Santa Sé. Já conheci duas pessoas que foram salvas pela intercessão de Leônia. Um deles levou um tiro no coração; o outro estava em coma profundo. O primeiro teve uma relíquia da madre colocada sobre seu peito; o segundo foi trazido de volta à vida pela visão da jovem Leônia.

Alguns podem se alegrar de ter uma santa em seu país; outros, em seu estado; poucos, em sua cidade. Eu me alegro por ter uma santa em minha rua.

Tudo aquilo nos faz lembrar a bondade de Madre Leônia: este jardim, esta oliveira, esta igreja, esta escola, este asilo, esta via crucis, esta gruta, estes caminhos de pedra. Hoje a santa da minha rua estende seus braços amorosos por várias partes do planeta.

Mas há um lugar que me comove mais do que todos: o parquinho das crianças. Quando passo por ali, lembro-me de meu pai e de seu filme preferido: Viver, de Akira Kurosawa. É a história de um burocrata dostoievskiano que descobre estar com câncer terminal e decide criar um parquinho para as crianças de seu bairro.

Sempre que vou ao parquinho da Madre Leônia, sinto-me perto de meu pai, que nos deixou há 14 anos. E hoje, especialmente hoje, eu vi uma cena que me fez pensar nele: uma formiga carregava uma pétala maior e mais pesada do que ela.

É a imagem do meu futuro.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


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