CRÔNICA

Meu Treze de Maio

Fábio Gonçalves · 13 de Maio de 2021 às 18:49

O escritor Fábio Gonçalves evoca as memórias do largo de sua infância



Quando criança não imaginava o 13 de maio com tantas cerimônias, com tanta história e tanta mística. Não me ocorriam Isabel, os pretos, Fátima, o Santo Padre. Meu 13 de maio de infância, o que importava, era o famoso Largo em Santo Amaro para onde ia atrás de querer ser craque de futebol.

Treinava no Joerg Bruder, clubezinho que fica ao lado do Terminal. Descia no Largo 13 de Maio. Ao pé dos casarões de muitas décadas, enegrecidos e esburacados do tempo, perfilavam-se barracas, estendiam-se lonas, erguiam-se portas de ferro. Temperos, sapatos, videogames, DVDs, carne seca, lingerie. Tudo do Paraguai, como dizíamos. Inclusive a carne seca. E as velhas putas nos becos, nos vãos mais sujos do Largo 13, logo cedo convidando à farra todos os homens, justos e injustos, mesmo os meninos da categoria fraldinha do Joerg Bruder, a qual muito orgulhosamente, na época, eu já havia superado.

Eram estreitos e escuros os corredores pelos quais me embrenhava, no Largo 13 de Maio, para chegar ao campo de barro onde brincaria as partidas mais sérias de todos os tempos, disputando com aquela meninada pobre, com gana de adulto, o sonho que nenhum de nós jamais viria a realizar, conforme apurei recentemente.

Mas o duro, na verdade, era tanto chegar ao Largo 13 quanto abandoná-lo, no entardecer. Não havia recursos para uma e outra operação. Na ida, vestido de futebol, fazia manha aos cobradores, pedia pra passar por debaixo da catraca. Não lembro de algum que me houvesse negado. Cobradores são os grandes patrocinadores do nosso fausto esportivo. São os padrinhos do futebol. Quantos jogadores de fama internacional já não contaram semelhantes benfeitorias? O nosso futebol começa de fato com os cobradores que deixam passar por debaixo da catraca os meninos-jogadores, que moram a léguas dos campos. Um viva a todos eles. Sem os cobradores, nem essa minguada glória teríamos a cantar.

A volta era mais desafiadora. Era preciso entrar no Terminal Santo Amaro e tomar o Jardim Luso. Se não fosse no Terminal, não haveria jeito de entrar no ônibus abarrotado, com passageiros espremidos janela afora, com as portas que nem se podiam fechar. Tinha que ser pelo Terminal.

Fui incluído no seguinte esquema, já elaborado por sabe-se lá quantas gerações de moleques do Joerg Bruder: ficávamos no último ponto antes do Terminal. Quando estacionava ônibus, pra deixar passageiro, aproveitávamos a ocasião e, pequeninos, nos enfiávamos no meio da massa, nos confundindo com ela, tapeando os cobradores que, definitivamente, não mereciam essa trapaça da gente.  

Daí era baldear no Terminal e o dia estava pago, graças a Deus.

Uma vez estávamos eu, o Valderrama, o Alemão e o Gordinho. Comíamos salgados a 5o centavos que o Valderrama comprara a todos nós com o passe do ônibus que sua mãe lhe dera — porque os meninos do Joerg Bruder, quando tinham, usavam o passe para comer salgados e churrasco grego e não se deixarem despencar de fome após os treinos tirânicos dos professores César e Mudinho.

Chegou a condução. Os meninos, sempre mais espertos que eu, mesmo segurando as coxinhas e os rissoles e os X-Tapas conseguiram achar lugar. Fiquei para trás, sozinho. Senti agonia imensa.

Baixava uma tarde melancólica. Olhei em derredor, a Catedral ali, os camelôs, os homens-placa, Vendo Ouro, o beco das putas, os ônibus entrando e saindo do Terminal. Senti o Largo 13 com desespero. Tive a cisma de que ficaria por ali, que passaria a noite junto aos cachaceiros, aos mendigos, junto ao homem da barraca de fumo de corda, que cheirava gostoso. Nunca meus companheiros haviam me deixado num aperto daqueles. Ocorreu-me certa esperança de que voltassem para procedermos a invasão conforme o bom costume, todos juntos, ninguém para trás, todos sãos e salvos a caminho de suas mães, que eram muito preocupadas, rumo às suas longínquas favelas, em São Mateus, no Jardim Ângela, em Diadema.

Não voltaram. Passaram quatro ou cinco ônibus dos que nos deixavam no Terminal e não tive a desfaçatez de invadir. Fiquei plantado e inerte, o choro vindo na garganta. Sozinho, não dava. Era a turma que me fazia valente.

Quase uma hora mais tarde chegaram dois rapazes da categoria de cima, turma de 1987 — sou 1990.

Pousou um busão dos que serviam. Abriu-se a porta de trás, desceram uma velha e uma moça. Os rapazes, um pouco mais comedidos e sutis, entraram, sentaram-se no degrau. Um deles me viu naquele desengano. Imaginou meu drama e me fez um gesto de cumplicidade. Saí da irresolução e saltei. As portas fecharam-se. Delicioso o som do ar comprimido fechando aquelas folhas de portas. 

Caiu a noite. Da janela do ônibus, vi um Largo 13 de Maio calado e triste. 


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