CHILE

Mesmo após derrota, Boric insiste em mudar Constituição

Lucas Ribeiro · 8 de Setembro de 2022 às 17:29

Apesar do resultado claríssimo das urnas, o presidente de extrema-esquerda pode ignorar a mensagem do povo chileno   
 




O Chile vivenciou no último domingo uma vitória acachapante do rechaço a nova constituição ultraesquerdista. Superando todas as expectativas das pesquisas, a rejeição à constituição socialista atingiu 62%. A vitória acachapante dos patriotas chilenos pode ser simplesmente ignorada pelo presidente Boric – que quer insistir no processo constitucional.

Em menos de dois anos, os chilenos mudaram de opinião drasticamente. No plebiscito de entrada, em 2020, 78% dos chilenos pediram uma nova constituição. Agora, apenas 38% aprovaram o texto apresentado. Como isso aconteceu? É o que tentaremos explicar nesse artigo.

O fracasso da nova constituinte vem do que foi a sua força inicial. Como a esquerda estava em grande maioria na assembleia constituinte, e a direita estava enfraquecida, o resultado foi um projeto constitucional completamente radicalizado e ultraprogressista. Assim, foram aprovadas medidas desconectadas dos anseios do povo chileno: “plurinacionalidade” (com a formação de estados indígenas); o fim do Senado; uma Justiça com enfoque de gênero (ou seja, uma justiça com supremacismo feminista); a legalização e liberação do aborto; a relativização da propriedade privada; a migração para um regime de pensões público e com piores rendimentos; educação com ideologia de gênero; insegurança jurídica para o setor mineiro.

Analistas de esquerda na imprensa buscaram justificar o fracasso dizendo que a “aprovação” perdeu para a “rejeição” por causa da disseminação de fake news, como escreveu a jornalista esquerdista Sylvia Colombo. Essa é uma visão comum dentro da bolha progressista da imprensa nacional e internacional; pura narrativa. É difícil para jornalistas de esquerda reconhecer apoiaram uma constituição amplamente radicalizada. O texto rejeitado pelos chilenos é visto pela militância como um avanço nos “direitos sociais” e na “inclusão”. Trata-se de um pensamento completamente desconectado dos valores médios do latino-americano.

A legitimidade da vitória da “rejeição” (“rechazo”) foi arrasadora. Houve mais votos neste plebiscito de saída do que nas eleições presidenciais de segundo turno no ano passado. Mais de 13 milhões de chilenos foram votar neste último domingo. O plebiscito de que permitiu iniciar os trabalhos constituintes em 2020 teve a participação muito menor, com apenas 7,5 milhões de participantes; destes, 78% votaram para mudar a constituição Neste último domingo, com o conhecimento de uma Constituição radicalizada, a votação da “rejeição” foi maior do que todos os votos do plebiscito inicial de outubro de 2020. Outro ponto fundamental é que a rejeição teve 50 pontos percentuais a mais entre os 20% mais pobres do país. Nessa faixa, a rejeição ganhou com 75,1% contra 24,9%, deixando claro que essas pautas são de uma elite progressista chilena e não do povo, segundo o jornal Bio Bio Chile.

A queda devastadora de um 78% de aprovação para apenas 38% e a subida da rejeição de 22% para 62% ocorreram em razão de um texto constitucional ultraprogressista em matéria política e neochavista em matéria econômica. A opção da “aprovação” teve amplo financiamento e apoio do próprio governo Boric, que deveria ter agido como chefe de Estado e não como representante da sua proposta, usando toda a máquina a favor da confirmação da nova constituição. Mesmo assim perdeu de forma retumbante.

O principal opositor de Boric, José Antonio Kast, foi contundente: “Este triunfo da rejeição também é um tremendo fracasso do presidente Gabriel Boric e de todo o seu governo e isso se tem de ser dito forte e claro. Presidente Gabriel Boric, esta derrota também é sua derrota, a agora você tem o dever de assumir o mandato constitucional e governar para todos os chilenos e não apenas para um setor.

Líderes da direita latino-americana comemoraram a derrota da constituição socialista. O líder argentino do “La Libertad Avanza”, Javier Milei, disse que a proposta constitucional planteada é “panfleto liberticida” e carregado de “ideais socialistas”. A senadora colombiana Maria Fernanda Cabal disse que o Chile derrotou o “comunismo disfarçado de boas intenções”.

Já o presidente ultraesquerdista Gustavo Petro que até um dia desses falava que não deveria opinar e nem se manifestar sobre políticas de outros países com base no princípio da soberania entre as nações, destilou sua insatisfação e afirmou após a vitória da “rejeição”: “Pinochet revive”.

 

E agora, o que vai acontecer?

O presidente socialista Gabriel Boric fez um discurso festejando a festa da democracia, e ao mesmo tempo ignorando a contundente mensagem do povo chileno.

Boric disse: “Este 4 de setembro a democracia chilena sai mais robusta, assim viu e reconheceu o mundo inteiro (...) O povo chileno não ficou satisfeito com a proposta de Constituição que a Convenção apresentou ao Chile, e por fim decidiu rejeitar de maneira clara nas urnas”. Contudo, ao invés de finalizar o processo revolucionário e constitucional, o presidente afirmou em seguida algo oposto a primeira afirmação: “Esta decisão dos chilenos exige de nossas instituições e atores políticos que trabalhemos com mais empenho, com mais diálogo, com mais respeito e carinho, até chegar a uma proposta que nos interprete a todos, que nos dê confiança, que nos interprete como país (...)”.

Apesar dessa decisão de seguir com o processo constitucional, o próprio Gabriel Boric já tinha dito que se encerrava a participação com a rejeição no plebiscito de saída. Ele afirmou claramente: “Há duas alternativas: aprovar ou reprovar a nova constituição”.  Além disso, nesse processo de revolução e processo constitucional foi alterada a atual Constituição Chilena, que no artigo 142 afirma textualmente: Si la cuestión planteada a la ciudadanía en el plebiscito ratificatorio fuere rechazada, continuará vigente la presente Constitución.”. Ou seja: se a questão colocada aos cidadãos no plebiscito ratificatório for recusada, continuará vigente a atual Constituição.

No entanto, os exemplos históricos recentes demonstram que a esquerda nunca aceita uma derrota. Do mesmo modo que aconteceu no plebiscito do desarmamento no Brasil, durante o governo Lula, e na votação dos acordos de paz com as Farc na Colômbia, durante o governo Santos, o resultado das urnas poderá simplesmente ser ignorado no Chile.

 


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