DIÁRIO DE UM CRONISTA

Memórias de um sobrevivente da pandemia

Paulo Briguet · 30 de Março de 2021 às 11:28

Minha jornada pessoal pelos vales do medo e da morte


A história que vou contar aconteceu comigo no longínquo ano de 1986. Certa vez li a carta de um escritor em que ele utilizava a mesma palavra —longínquo —para se referir ao ano de 1937. Mas o autor escreveu a carta em 1964; portanto, a uma distância de 27 anos. Eis que agora escrevo aos 50 anos de idade para narrar acontecimentos de minha adolescência, distantes quase três décadas e meia.

E, no entanto, como o ano de 1986 parece próximo! De tal forma aquele episódio determinou o curso de minha vida e ficou entranhado em minha alma, que é como se eu estivesse narrando fatos ocorridos no dia de ontem.

Em 1986, eu tinha 16 anos e cursava o 2º colegial em uma escola particular da cidade de Araçatuba. Morava com meus pais (ele, bancário; ela, professora) e com minha irmã, cinco anos mais nova. Éramos uma família de classe média. Meus pais haviam enfrentado muitas dificuldades econômicas na juventude, mas conseguiram, à custa de grande esforço, uma boa formação profissional e uma vida confortável, embora sem luxos. Tínhamos casa própria, dois carros e um cachorro.

O ano de 1986 foi marcado, no Brasil, pela edição do Plano Cruzado. Uma grande mobilização nacional e uma campanha veiculada pela mídia —com o slogan “Tem que dar certo!” — elevaram o governo de José Sarney e seu ministro da Fazenda, Dilson Funaro, à categoria de heróis e a níveis de popularidade raramente vistos no país. O plano consistia, basicamente, numa loucura: congelar os preços da economia, na tentativa de que vencer a inflação. Algo assim como quebrar o termômetro para acabar com a febre.

Mas com que entusiasmo essa loucura foi recebida por uma população carente de heróis e atos de coragem! Quando os produtos começaram a sumir das prateleiras —efeito inevitável do congelamento de preços —, a fúria do povo se voltou contra os comerciantes e empresários em geral, vistos como gananciosos e inimigos da pátria. Houve político que foi pessoalmente até o campo para confiscar bois nos pastos, supostamente escondidos pelos maldosos pecuaristas. Foi um momento de insanidade coletiva.

A ilusão acabou logo após as eleições de novembro de cada ano. Dos 23 estados então existentes, 22 elegeram governadores do PMDB, partido do presidente Sarney. No dia seguinte, o governo decretou alta dos combustíveis, o congelamento começou a derreter e a inflação, como uma infecção oculta por uma dipirona, voltou com força total. Naquelas eleições, o PMDB também elegeu uma esmagadora maioria de deputados e senadores —os mesmos que escreveriam e promulgariam a nova Constituição Federal dois anos depois.

No plano internacional, o acontecimento mais marcante daquele ano foi o desastre atômico de Chernobyl, na União Soviética, com um número até hoje incalculável de mortos e sequelados. É possível dizer, com toda a segurança, que a explosão de Chernobyl, em abril de 1986, foi o começo da queda da União Soviética, ocorrida cinco anos depois. Na ocasião, as autoridades soviéticas tentaram de toda forma esconder e minimizar as dimensões da tragédia, exatamente como fariam os seus camaradas chineses com o vírus de Wuhan em 2019.

A radiação nuclear, assim como o vírus, é uma ameaça silenciosa e traiçoeira, que inocula seu veneno destruidor não apenas no corpo, mas também no intelecto e no coração do ser humano. Naquele ano tão dramático, eu fui atingido por esse inimigo invisível.

Estava eu conversando com dois amigos, à sombra de uma figueira, quando um deles, que chamarei de César, apanhou um figo do chão e me mostrou algumas marcas na superfície do fruto:

—Tá vendo isso? São os morcegos.

Fiquei em silêncio, mas guardei aquilo no coração. Naquela noite, tive sonhos ruins em que via uma caverna repleta dos mamíferos voadores —identificáveis apenas por seus minúsculos olhos que brilhavam na escuridão.

Dias depois, saí para beber cerveja com colegas do grupo de teatro amador do qual fazia parte. Em determinado momento, depois que o último bar fechou, alguém teve a ideia de pular os muros do cemitério local para beber sem a interferência de ninguém (afinal, éramos todos menores de idade e não podíamos consumir bebidas alcoólicas). Lá dentro, no meio dos túmulos, alguém teve a ideia de fazer uma sessão de ginástica alternativa. Entre risos bêbados, improvisamos uma série de exercícios.

Numa noite de sábado, com os mesmos colegas de teatro, atiramo-nos na piscina de um clube da cidade. Morcegos davam voos rasantes e chegavam a tocar a flora da água. Todos riram muito. Menos eu.

Em uma festa na casa do amigo Thales, que ficava no fim de uma rua sem saída, à margem de uma ferrovia que não existe mais, enquanto todos bebiam cerveja na varanda, resolvi brincar com um cachorrinho preto que por lá apareceu. O bicho se aproximou; quando acariciei seu pescoço, ele tentou morder a minha mão. Não chegou a perfurar a minha pele; apenas um de seus dentes roçou-me as costas da mão, deixando um minúsculo arranhão, quase imperceptível. Voltei para a varanda e continuei bebendo, como se nada houvesse acontecido.

O dia seguinte, domingo, passou como um sonho. Trancado em meu quarto, ou melhor, no quarto alternativo que eu tinha montado nos fundos de casa, passei o dia ouvindo um disco sombrio do Pink Floyd e olhando para a marquinha vermelha nas costas da minha mão. Só tive contato com meus pais e minha irmã na hora do almoço, durante o qual permaneci em silêncio, quase sem tocar na comida. Quando minha mãe, com a doçura de sempre, perguntou se eu estava bem, limitei-me a dizer que estava com um pouco de dor de cabeça. E voltei para o Pink Floyd. Nosso cachorro dormia atrás da máquina de lavar. Não quis brincar com ele.

Na segunda-feira, as duas primeiras aulas eram de matemática. Zé Fernando, o professor gordo e bonachão, gostava de fazer piadas durante as explicações. No quadro-negro, depois de fazer a demonstração de um teorema, inseriu com giz ao final a sigla “c. q. d.”

—E o que isso quer dizer? —perguntou ele à classe.

Suselaine, que sempre se sentava na primeira fila, respondeu com voz firme:

Como queríamos demonstrar.

Zé Fernando sorriu e replicou:

— Você diz isso porque é uma menina de boa família. Na verdade, é Caralho, Que Difícil!

A classe inteira caiu na gargalhada. Menos um aluno: eu. Zé Fernando, sempre muito observador, foi até o fundo da sala, enquanto o restante da classe resolvia um novo exercício, e perguntou em voz baixa:

—Tudo bem, Paulo? Aconteceu alguma coisa?

Até então, eu estava com a cabeça baixa, fingindo ler alguma coisa no livro de matemática. Quando levantei o rosto, o professor notou que meus olhos estavam marejados e meus lábios tremiam.

—Eu não tô bem, não, Zé. Preciso de um médico. Me dá licença, por favor.

Joguei meu livro na mochila, levantei-me da carteira e, sob o olhar atônito do professor, saí da sala.

No pátio vazio (todos estavam em aula), encontrei Claudinho, o bedel.

—Claudinho, abre o portão. Eu não estou bem, preciso sair.

—Mas no meio da aula, Paulo? Você não está interpretando, não?

(Como eu fazia teatro, ele me considerava um ator.)

—Não, Claudinho. É sério, abre o portão pra mim.

Naquele instante, ele deve ter visto um grande desespero na minha expressão, pois imediatamente tirou o molho de chaves do bolso e, tomando-me pelo braço, levou-me até o portão de saída.

Quando me vi na rua, era como se o mundo estivesse desligado. As lojas do centro da cidade estavam abrindo as portas, mas eu não consegui atinar com nada. Caminhei como um zumbi pela Rua Duque de Caxias, claudicando como um bêbado, indiferente à passagem dos carros e ao som das portas metálicas sendo abertas pelos lojistas. Ao passar pelo bar da esquina, senti o cheiro do café preparado pelo japonês, mas esse odor, que costumava evocar prazer sempre que eu passava pelo mesmo lugar, agora me fazia sentir náuseas e uma pressão nas têmporas, como se meu cérebro estivesse sendo invadido por um agente inimigo. Eu suava e tremia, como uma chaleira esquecida no fogão. Virei a esquina do hoje extinto Araçatuba Clube —onde havia a piscina em que os morcegos deram rasantes —e olhei para a igreja de Monsenhor Vitor Mattei. Mas segui em frente, apoiando-me nos muros da escola em que havia estudado anos antes, até que avistei uma placa defronte a uma pequena casa branca:

Dr. José Manzoni —Pediatra e Clínico Geral

Entrei na sala de espera e avistei a secretária, uma senhora de meia-idade, que parecia haver acabado de chegar. Ela me olhou por trás de seus óculos de lentes retangulares, dos quais pendiam duas correntinhas douradas:

—Você tem consulta marcada, moço?

— Não tenho, não. Mas é um caso de emergência. Preciso falar com o doutor!

Quando pronunciei essas palavras, notei que minha voz saiu trêmula e rouca, como se alguém estivesse me dublando em um gravador defeituoso.

A secretária me olhou em silêncio. Não havia ninguém mais na sala.

—Bom, como ainda não chegou nenhum paciente do dia, vou ver se o doutor pode atendê-lo.

Ela entrou no consultório. Depois de um rápido diálogo murmurado entre a secretária e o médico, ela voltou com os óculos nas mãos, e com eles apontou a porta do consultório:

— O Dr. Manzoni vai atendê-lo. Pode entrar.

Com cerca de 70 anos, José Manzoni era um veterano da medicina local, um homem que havia cuidado de várias gerações de araçatubenses. Usava óculos, era calvo, tinha um bigode preto e não sorria. De uma maneira que eu não podia compreender no momento, aquele médico representava para mim uma esperança de salvação única e irrepetível.

— O que o traz aqui, garoto?

Trêmulo, suado, mas estranhamente convicto, eu disse:

—Doutor, acho que eu estou com uma doença grave. Uma doença sem cura.

Rapidamente fiz um relato dos meus sintomas e mostrei-lhe a marca nas costas de minha mão esquerda.

Depois de me examinar, ele me olhou por alguns segundos e perguntou:

—Garoto, quais são os nomes dos seus pais?

Respondi.

—Pois saiba de uma coisa. Tenho 50 anos de profissão e posso lhe dizer com toda certeza: você não tem nada. Agora me dê licença, tenho pacientes para atender.

 

***

 

Quando saí de novo à rua, as coisas pareciam um pouco menos desesperadoras. Senti-me envergonhado como nunca, e isso foi uma bênção: por alguns instantes o vexame venceu o desespero. Tudo que eu queria era voltar para casa e me isolar no quarto dos fundos. No entanto, quando eu cheguei em casa, minha mãe esperava-me na porta. Meu pai também estava lá; ele havia saído mais cedo do banco ao receber a notícia. Ao abrir a porta, ela disse:

 —Que aconteceu, meu filho? Me ligaram do colégio dizendo que você saiu no meio da aula... Nós ficamos muito preocupados!

Sentei-me com eles à mesa da cozinha e confessei tudo. Relatei, em pormenores, tudo que eu vinha sentindo nos últimos dias. Nunca me esquecerei da expressão de piedade e desamparo que se assenhorou do rosto de minha mãe —uma expressão que ela manteria por muitos meses, diante do meu desespero. Durante toda a conversa, meu pai permaneceu em silêncio, fumando.

Depois, fui para o meu quarto —o quarto dos fundos, da música e dos livros. Ace, o nosso cachorro, quis acompanhar-me, mas eu o repeli com aspereza. A partir daquele momento, nunca mais toquei no pobre vira-lata.

Nada me interessava: nem o cachorro, nem a música, nem os livros. Havia uma pequena televisão em preto e branco que eu levara para meu refúgio. Deixei-a ligada, sem som, por várias horas, e adormeci profundamente. Então vi meu bisavô português, Antônio, abandonado no Brasil aos sete anos de idade. É um menino de olhos verdes e cabelo claríssimo. Ao lado do irmão mais velho, também menino, Antônio contempla o navio que leva sua família de volta para a terra natal. Em seguida, aparece outro Antônio, com a pele escura do deserto de Múrcia. É um homem alto e magro. Em desespero, ele socorre o ciclista que acabou de atropelar com seu Aerowillys. É o meu avô espanhol.  Ele quer me dizer alguma coisa, mas não consigo ouvir...    

Quando acordei, o jornal das dez mostrava um funcionário do governo fechando um supermercado por “crime contra a economia popular”, sob os aplausos da população. Era uma cena muda, mas não me animei a aumentar o volume da pequena TV. Desliguei-a e fiquei observando o pequeno olho branco no meio da tela. O calor da noite era grande, mas eu mantinha as janelas e a porta hermeticamente fechadas, para que nenhum morcego pudesse entrar. No entanto, precisava ir até o banheiro e me lavar. Levei algumas horas para finalmente tomar coragem, sair do quarto e percorrer os dez metros que me separavam do banheiro. Já era madrugada, todos estavam dormindo.

Tomei um longo banho, não sem antes fechar as janelas do banheiro. No entanto, depois de me enxugar, senti a necessidade de lavar as mãos. Tinha ouvido, durante uma aula de Higiene e Saúde, que o tempo ideal para a limpeza completa equivale a uma oração do Pai-Nosso. Na frente do espelho embaçado pelo vapor do banho, eu liguei a torneira e comecei a ensaboar meus dedos pronunciando as palavras que conhecia tão bem desde os tempos do catecismo:

—Pai Nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome...

Enrolado na toalha, saí em meio à escuridão e ouvi um pequeno murmúrio vindo da sala. Era minha mãe que rezava a Ave-Maria.

 

***


Acordei às 6h40 da manhã, como todos os dias. Tomei um gole do café preto que minha mãe oferecia. Ela apenas perguntou:

—Está melhor, meu filho?

—Um pouco.

O colégio ficava a uns dez quarteirões de distância, às margens da linha de ferro. Naquele dia escolhi seguir pela Silva Jardim, uma rua estreitíssima, por onde só um carro passa por vez. No final dessa rua, havia um bar conhecido como Fecha Nunca. Naquele momento —sete da manhã — não havia nenhum cliente. Aproximei-me devagar do balcão e disse ao dono do boteco, um gordo com cara redonda de sono e um lápis em cada orelha:

—Quero uma lata de Coca-Cola, três latas de Skol e um caixa de Dentynes.

Ele hesitou por um momento, coçou a orelha a ponto de quase deixar cair o lápis da orelha esquerda, e finalmente respondeu com uma pergunta:

— Isso é pra você?

—A Coca-Cola e o chiclete são pra mim. A cerveja é pro meu pai tomar na hora do almoço.

—Ah, tá.

Ele foi até a geladeira, pegou as quatro latas e o chiclete e me entregou dentro de uma sacola de plástico. Desenrolei diante dele uma nota de cinco cruzados e disse:

—Pode ficar com o troco.

Coloquei a sacola com as latas e o chiclete dentro da minha mochila. Assim que virei a esquina, abri a lata de Coca-Cola e despejei todo o conteúdo no bueiro. Em seguida, abri a primeira das três latas de Skol e bebi de um gole só.

Entrei mascando chicletes no colégio. A primeira coisa que fiz, antes mesmo da primeira aula, foi lavar as mãos no banheiro.

—Pai Nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome...

Mas não era uma oração; tratava-se apenas de uma medida de tempo.

 

***

  

As semanas seguintes foram de absoluto desespero, resultante da convicção de que eu estava infectado por um vírus incurável, que me levaria à morte da maneira mais dolorosa possível. Todos os dias eu acordava com a sensação de que algo estava bloqueando a minha garganta e uma angustiante pressão nas têmporas. Minhas mãos tremiam e eu procurava evitar ambientes iluminados: o único lugar em que eu realmente me sentia bem era o quarto escuro dos fundos. Acabei sendo expulso do grupo de teatro depois de brigar com o novo diretor.

Ir às aulas todos os dias era uma tortura, por vários motivos. No colégio, eu tinha contato com outras pessoas, que poderiam estar infectadas de maneira assintomática e aumentar a carga viral que já consumia o meu organismo. Essas pessoas falavam, riam, tossiam, espirravam, tocavam em superfícies possivelmente infectadas. O vírus não estava só nas pessoas, mas também nos objetos que foram manipulados por elas. Havia também os animais: cães, gatos, morcegos, pássaros, insetos, todos eles vetores do vírus que estava reservado para mim, somente para mim.

Os livros e os jornais que eu lia continham mensagens subliminares: espíritos do mal diziam, por meio de números e combinações de letras, a hora e o dia em que o vírus finalmente passaria ao seu último ataque. Atingido esse momento fatal, uma combinação de sofrimentos indescritíveis me levaria a desejar a morte como um mal menor, pela cessação da dor.

Um número passou a me perseguir: 909. Até hoje, mais de 30 anos depois, tenho uma sensação ruim ao mencioná-lo. Eu o via por todos os lados: nas matérias de jornal; na lista telefônica; nas letras das músicas que já não escutava; nas apostilas do colégio; nas embalagens dos produtos; nos endereços de meus amigos; no calendário; nos programas sem som da minha pequena TV; e nos meus sonhos.

Longa parte do dia eu passava fazendo cálculos com números de telefones, números de casas, números de páginas, horários, preços, volumes, qualquer coisa que pudesse ser mensurada. Essas operações sempre acabavam me conduzindo ao número fatal, ao veredicto aritmético que me vigiava com sua seus três olhos assassinos.

Entre uma sessão de cálculo e outra, eu me levantava apenas para ir ao banheiro e lavar as mãos, repetindo mentalmente a antiga oração. Cheguei a lavar as mãos mais de 50 vezes por dia.

 

***


Um dos poucos lugares em que eu me sentia bem, além do quarto dos fundos, era a biblioteca pública. Sim, os livros poderiam estar infectados, mas era um risco que eu precisava enfrentar para conhecer a verdade. Folheando obras de filosofia, li um trecho das “Meditações Metafísicas”, de René Descartes, que me causou uma profunda impressão.

Nesse livro, o filósofo francês desenvolve o conceito de “dúvida universal e hiperbólica”. Começando por refutar as experiências sensoriais como critério da verdade —pois os sentidos nos enganam —, Descartes evolui para uma dúvida ainda mais radical, descrita nos seguintes termos:

“Suporei, pois, que não há um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas são exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado da falsa crença de ter todas essas coisas. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento; e se, por esse meio, não está em meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo”.

Eu não sabia, mas naquela tarde, quando deixei a biblioteca, estava também dando as costas a Deus. O veneno inoculado por Descartes em minha alma era muito mais letal do que o vírus das minhas tormentas. A partir daquele momento, eu estava entregue à ilusão gnóstica de que a realidade, tal como a conhecemos, é produto de uma mente maligna, que se compraz com a nossa ilusão e o nosso sofrimento. Nos anos seguintes, a minha adesão à ideologia marxista teria como base essa revolta metafísica contra Deus.

Dias depois, fui procurado por uma senhora amiga da família, que soube de meus problemas por intermédio de uma conversa com minha mãe. Essa amiga me levou a um centro espírita, onde passei por várias “mesas brancas”, durante as quais diversos espíritos falavam pela boca dos presentes. Certa vez, um dos participantes afirmou que um espírito muito sábio, um homem de ciência, tinha uma mensagem para me transmitir: a de que eu era um médium, sendo todos os padecimentos que eu atravessava resultantes de uma mediunidade não desenvolvida. A mesma amiga da família, semanas depois, levou-me a uma sessão de candomblé. A visão das entidades e os cânticos umbandistas acabaram por me atormentar ainda mais. Não o digo aqui para criticar a amiga que me levou a esses lugares —tenho certeza de que ela se compadecia de minha situação e agiu com as melhores intenções —, mas o fato é que as experiências com o espiritismo e o candomblé acabaram por me afastar ainda mais da fé pura com que eu fora agraciado na infância. A ideia de voltar à Igreja se tornava cada vez mais distante, e assim permaneceria por quase vinte anos.

Na escola, as coisas só pioravam. Abandonei completamente os estudos e, durante as aulas, caçoava dos professores. Quando chegou a semana de avaliações do segundo semestre, fiz questão de entregar todas as provas em branco. Na margem das folhas de prova, eu escrevia mensagens em código, que na verdade eram pedidos de socorro. Afinal, eu iria morrer em breve, do que adiantava tirar boas notas ou pensar no futuro? O mundo era apenas uma ilusão criada pelo Gênio Maligno.

“Quem deixa de acreditar em Deus, passa a acreditar em qualquer coisa.” E quais eram as “coisas” que me restavam diante da inexistência de um Criador infinitamente bom e misericordioso? Apenas duas: o prazer e o poder. Mas, para chegar até eles, eu tinha de pedir permissão ao meu novo senhor: o medo. Era preciso, então, buscar os prazeres fáceis, aqueles que não me expunham ao perigo de ser recontaminado pelo vírus. Olhar para as necessidades do próximo, retribuir o amor dos que me amavam, abandonar o egoísmo ou dedicar-me a atividades intelectuais não eram ações que me conduziam a esses prazeres e poderes baixos. Nasciam em mim uma preguiça e uma ira das quais sofro as consequências até hoje.

 

***


Sem saber mais o que fazer, meus pais me levaram ao consultório do Dr. Renato. Certa manhã, depois de sair com uns amigos e me meter numa briga de bar, acordei certo de que havia recebido mais uma carga do vírus, e implorei a eles que me dessem a vacina. Não havia nenhum motivo racional para fazer isso, mas meus pais não viram outra opção além de atender minhas súplicas.

Dr. Renato era um homem jovial e simpático, um dos médicos mais respeitados da cidade. Era também um sujeito alegre, que nas horas vagas gostava de tocar e cantar antigas serestas para os amigos. Ao me ver naquele estado, tentou conversar um pouco sobre música, mas logo viu que isso não seria possível. Tudo que eu queria naquele momento era ser vacinado —e eu já sabia que Dr. Renato era o médico responsável por autorizar a vacinação em casos de contaminação pelo vírus.

—Paulo — ele disse, em tom paternal —, você é um rapaz jovem e saudável. Não há nenhuma razão para que você tome essa vacina. São muitas doses, com efeitos colaterais consideráveis. Eu não estaria agindo bem se permitisse.

Uma semana depois, meus pais resolveram tirar um período de férias e me levaram para um hotel campestre na cidade de Ibirá, um balneário de águas termais. Foram cinco dias de uma angústia insana. Sem perceber o mal que fazia a meus pais e à minha irmã, permaneci quase o tempo todo trancado no quarto do hotel, com as janelas fechadas, para impedir a entrada de animais que me trariam uma nova carga do vírus.

Minha mãe chorava, meu pai sofria em silêncio.

 

***


Como vocês, meus sete leitores, podem notar, eu sobrevivi à minha pandemia pessoal. Mas ela me deixou uma ferida que levaria duas décadas para cicatrizar: o medo. Durante a minha longa noite longe de Deus, percorri caminhos trevosos dentro do meu egoísmo e das mentiras que fazia questão de contar para mim mesmo. Por isso hoje, quando vejo tantas pessoas dominadas pela angústia e divididas pelo rancor, sinto uma profunda compaixão. As lágrimas de minha mãe, a dor silenciosa de meu pai, agora que eles já não estão mais aqui, me inspiram a continuar lutando e dizendo, contra toda a dor e todo medo:

Perdoai as nossas ofensas,
Assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido
E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do mal. Amém.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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