LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Marx, o mal e a desintegração do indivíduo

Braulia Ribeiro · 21 de Outubro de 2022 às 17:19

Não há nada de correto nem positivo na censura que os socialistas tentam justificar



O comentarista político americano Dennis Prager diz: “Enquanto o socialista se preocupa em mudar o mundo inteiro para que ele possa ser feliz, o conservador se ocupa em mudar a si mesmo”. Em outras palavras, o conservador sabe que o mundo sempre nos trará problemas e infelicidades, pessoas que irão nos ofender e maltratar, circunstâncias que não nos serão favoráveis. Portanto, em vez de tentar mudar o mundo e calar as pessoas ao nosso redor para que não nos ofendam, temos que cultivar virtudes e hábitos interiores que nos ajudarão a vencer quando o mundo nos é desfavorável: coragem, perdão, graça, perseverança na adversidade, resiliência.

Essa sabedoria “conservadora” antigamente não tinha lado político, era apenas o senso comum. Pais até pouco tempo não preparavam os filhos para reagir aos bullies da escola denunciando o agressor, ou lutando para expurgar da escola de todo aquele que não se comporta estritamente dentro da linha, abolindo as “falas violentas”, como agora se vê quase como norma. Sabia-se que num ambiente de jovens ainda em formação sempre haveria brigas, desentendimentos e até bullying. O importante para os pais era ensinar o filho a reagir internamente, com firmeza de caráter e convicção de seu próprio valor e identidade. Podia até brigar, se fosse necessário, mas o importante era resolver a questão de pessoa a pessoa. Caráter é isso, saber trabalhar seus problemas de acordo com a sua consciência moral.   

Na questão da vitória contra os vícios era a mesma coisa.  Nunca se cogitou pensar que a vitória contra as drogas não depende de uma mudança da atitude da sociedade em relação ao viciado, ou da legalização. A vitória contra o vício é sempre pessoal, requer a mudança de atitude do viciado em relação à sua vida. O indivíduo tem que reconhecer seu poder sobre seus próprios problemas.  Quando um viciado começa o processo de recuperação, a primeira coisa que ele aprende é assumir responsabilidade por sua própria cura. Esse “assumir responsabilidade” pode significar se render ao Poder Superior (linguagem dos Alcoólicos Anônimos) se declarando incapaz de vencer o vício. Aí está o paradoxo. Ao se render a Deus, o alcoólatra ganha agência. Ser submisso a Deus significa se tornar responsável por suas próprias ações e escolhas. Jogar o blame game, como se diz em inglês, o jogo de culpar esse ou aquele ou as circunstâncias por seus problemas impede a recuperação. “Você só consegue mudar aquilo pelo que é responsável.” Esse ainda é o mote principal dos terapeutas de comportamento, e até que substituam o processo de recuperação por uma injeção forçada ou uma operação de cérebro vai ser o único caminho. Presença de Deus = ser humano responsável e resposta moral.  usência de Deus = culpa da sociedade e resposta política.

A cosmovisão esquerdista rejeita essa concepção de que problemas pessoais podem ser resolvidos individualmente. Manipulam estatísticas para transformar os problemas sociais em questões “sistêmicas”. Essa ideologização das lutas da vida provocou uma mudança no senso comum. Se antes se pensava que com coragem, perseverança e bom caráter podíamos vencer a pobreza e o vício e melhorar relacionamentos, agora só se admite a culpa “sistêmica” ou coletiva. A solução para todos os problemas da humanidade é sempre uma solução política. A consciência moral, essência da fé cristã, foi substituída pela consciência política.

Mas como a ideologia marxista que hoje domina o pensamento da maioria chegou aí?  Para que a solução dos problemas esteja em você, nas suas decisões individuais, esse “você”, indivíduo, tem que existir. Temos que admitir uma existência própria, individual, e com essa existência uma consciência própria que nos diga o que é o certo e o errado. Essa consciência é a mola-mestra das nossas ações na terra que nos capacita a agir e a lidar com a consequência delas. Para operar livremente, a consciência humana precisa de um ambiente político livre. No ambiente em que a expressão individual é permitida, em que as ideias são discutidas abertamente, a consciência pessoal tem espaço para ser construída, e pessoas são capazes de agir de acordo com as suas escolhas virtuosas ou não. No ambiente livre destinos são criados e decididos; não são “dados” às pessoas.

Esse mundo não é perfeito, e sempre vai revelar desigualdades. Marx, ao teorizar sobre o ser humano e seu destino em sociedade, não admite o ser individual, e por consequência, rejeita a ideia da  consciência moral.  Em alguns trechos dos seus “Primeiros Escritos – Manuscritos Econômicos e Filosóficos (citados por Voegelin em Science, Politics & Gnosticism), Marx rejeita claramente a ideia da “existência” do individuo – criando uma ontologia da humanidade que é um subproduto da natureza, o que lhe permite se definir apenas na sua condição material de espécie, ou sociedade. “Um ser que não tem a sua natureza fora de si mesmo não é um ser natural, portanto não participa na existência da natureza.” A ojeriza marxiana por tudo o que é metafísico – não material – vem daí, de uma insistência em negar o que a realidade nos esfrega na cara. Para existirmos como seres sociais, temos que primeiro existir como seres individuais. Marx, um indivíduo, sabia que negar esse aspecto da existência seria construir uma mentira, mas não se preocupava em trabalhar sua filosofia a partir da verdade. Para criar um construto que absolutizava o social – e portanto o político –, ele tinha que eliminar as bases para uma possível crítica. O maior questionamento que fazemos sobre a humanidade é o da origem. Uma teoria de origem também tem que ser uma teoria do valor pessoal. Para criar uma ideologia onde a vontade política pudesse ter primazia sobre todos os outros tipos de razão possível, Marx preferiu propor uma origem estritamente material que não permitisse inferências metafísicas. Assim, todo o valor humano seria reduzido apenas à sua materialidade social. Mas não fez isso através de provas lógicas e argumentos sólidos. Ele o fez meramente proibindo o leitor de questionar. Diz Marx que para o homem socialista: “Quando você questiona sobre a criação da natureza e do homem, você abstrai da natureza e do homem. Deixe de lado essas abstrações e a pergunta desaparecerá. Não pense, não me questione”.  Ou seja, se você é marxista, tem que aceitar sem perguntas a ideologia que limita o ser humano e sua consciência à realidade social.

O mesmo movimento (i)lógico é feito por Auguste Comte ao construir sua ideologia positivista. Para Comte, qualquer um que perguntasse sobre o propósito e o destino transcendente do ser humano tinha de ser ignorado. Essas pessoas, segundo Comte, tinham que ser silenciadas com “medidas apropriadas”, até que o positivismo alcançasse a hegemonia.

Segundo Voegelin, essa supressão de questionamentos é necessária para a construção de uma ideologia que pretende dominar sobre a percepção da realidade.  O autor de um construto desses não pode obviamente permitir que os buracos lógicos, incoerências e deficiências sejam facilmente identificados. Para isso, tem que apenas recorrer a ridicularizar, evitar e suprimir possíveis perguntas. Marx, quanto Comte e também os arquitetos do nazismo – outro exemplo clássico de negação ideológica da realidade – precisam da aquiescência dos “devotos” a uma filosofia que os autores sabem ser falsa. Para que a mentira se sustente, os questionamentos devem ser considerados irrelevantes.

Voegelin chama isso de gnosticismo, pois tais ideologias assumem ter um conhecimento perfeito e absoluto sobre a realidade. Pensadores como Marx e Comte sabem que a sua construção ideológica entra em colapso assim que as perguntas certas começam a ser feitas. Mesmo assim eles insistem em seu engano. Por isso Voegelin considera Marx um autor intencionalmente fraudulento, um vigarista na definição mais clássica da palavra.

Por que considerei relevante voltar a esse tema agora? Porque ainda existem hoje pessoas no Brasil confundidas sobre a tão vilipendiada “polarização”. Existem até os que acreditam que a censura imposta agora aos meios de comunicação é algo positivo, inspirado por algum senso equivocado do que seja “certo” na convivência social. Já ouvi até cristãos defendendo o amordaçamento dos comentaristas mais belicosos em nome da cordialidade e da paz...

A censura substitui a moral pelo político. Ao invés de afirmarmos o que é certo, de acordo com a nossa consciência moral, somos obrigados a aceitar o que é considerado certo pelo poder político que domina sobre nossa capacidade individual de discernir o bem e o mal.  Se você observar bem, vai perceber que para os socialistas de plantão não existe a moral – só existe o político.

Não há nada correto nem positivo na censura. A livre expressão é o oxigênio da democracia e da moral. Da possibilidade de livre expressão depende a sobrevivência da consciência individual. O poder totalitário só se repele com uma consciência livre. Pense nisso Brasil no dia 30 de outubro.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"