DITADURA COMUNISTA

Liberdade religiosa na China? (Parte 2)

Eduardo Meira · 16 de Setembro de 2020 às 15:16

Eduardo Meira, colunista do BSM, completa seu impressionante da repressão às religiões pelo Partido Comunista Chinês. Hoje, ele analisa a terrível situação de cristãos e muçulmanos perseguidos pelo regime
 

Cristãos

Não é novidade que cristãos são perseguidos no mundo, desde sempre. Na China, obviamente, não poderia ser diferente. No entanto, desde a posse de Xi Jinping a situação piorou. Relatos de cristãos locais mostram algo que vai além do fechamento de igrejas tradicionais (como a “Early Rain Covenant Church”), da demolição de templos e monumentos cristãos e da proibição de cultos: o governo proíbe também símbolos e imagens cristãs dentro das próprias casas dos fiéis. O mais simbolicamente assustador dessa medida é que agentes do governo entram forçadamente nas residências dos fiéis e mandam retirar os símbolos, muitas vezes ordenando que se coloque uma imagem de Xi Jinping ou de Mao Zedong no lugar. Muitos se questionam como os agentes descobrem que existe em uma residência, em meio a milhões, símbolos ou cultos cristãos. A resposta é simples: denúncia. Chineses são doutrinados desde a infância a servir e venerar a supremacia do Partido Comunista Chinês.

A meta do Partido Comunista Chinês é modelar a igreja e a fé cristã aos dogmas do Partido. “A China se opõe firmemente ao comportamento infundado dos Estados Unidos”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, referindo-se a um recente discurso de Mike Pompeo sobre liberdade religiosa. No discurso, Pompeo afirmou que deve haver uma preocupação especial com relação à China no que concerne à liberdade religiosa. Ainda segundo Geng, “o governo chinês protege a liberdade de crenças religiosas de seus cidadãos de acordo com a lei”. O truque do partido está sempre no finalzinho das frases, quando pronunciam a famosa expressão “de acordo com a lei”. As leis chinesas são severas contra o que entendem como terrorismo, subversão, traição e tentativa de difamar o Partido. Acreditar em Deus sobre todas as coisas, por exemplo, implica acreditar que esse tal “Deus” é maior que o Partido Comunista Chinês. Isso é inaceitável.

As autoridades chinesas afirmam que há em torno de 20 milhões de cristãos na China. No entanto, organizações como a Portas Abertas, com sede na Holanda, ou a China Aid, dos EUA, calculam que há de 80 a 100 milhões de cristãos naquele país, e que os números não param de crescer. Infelizmente esses milhões de fiéis têm que esconder sua fé, sob a ameaça de não conseguirem empregos, terem seus negócios sabotados pelo governo e até serem presos. Um sem-número de casos de pastores e padres que são presos e assassinados – ficou famoso o caso do pastor Li Biaguang, executado pelo Partido Comunista Chinês – por não seguirem as indicações do Partido e serem considerados promotores de subversão e traidores. Um caso recente foi do pastor Wang Yi, condenado a nove anos de cadeia e uma multa de 50 mil yuanes por liderar uma igreja considerada clandestina pelo Partido, a Early Rain Covenant Church em Chengdu. Ele escrevera, antes de ser preso, uma célebre carta, a qual pediu para que sua congregação divulgasse caso fosse preso:

A Bíblia nos ensina que, em todos os assuntos relacionados ao evangelho e à consciência humana, devemos obedecer a Deus e não aos homens. Por esse motivo, desobediência espiritual e sofrimento corporal são as duas maneiras pelas quais testificamos para outro mundo eterno e para outro rei glorioso. É por isso que não estou interessado em mudar nenhuma instituição política ou jurídica na China. Eu nem sequer estou interessado na questão de quando as políticas do regime comunista que perseguem a igreja mudarão. Independentemente de qual regime eu vivo agora ou no futuro, enquanto o governo secular continuar a perseguir a igreja, violando a consciência humana que pertence somente a Deus, continuarei minha fiel desobediência. Pois toda a comissão que Deus me deu é permitir que mais chineses saibam através de minhas ações que a esperança da humanidade e da sociedade está apenas na redenção de Cristo, na soberania graciosa e sobrenatural de Deus.” (Fonte: Gazeta do Povo, edição de 02/01/2020)

A China possui dois tipos de igrejas cristãs: aquelas registradas na Associação Patriótica Católica Chinesa, consideradas legais e controladas pelo Partido Comunista Chinês, e aquelas não registradas, consideradas clandestinas e severamente perseguidas. Tal associação tem uma série de regras, como exigir que o padre ou pastor seja um funcionário do Partido, pago pelo governo e que professe a doutrinação socialista nas igrejas.

 

Acreditar em Deus sobre todas as coisas implica acreditar que esse tal “Deus” é maior que o Partido Comunista Chinês. E isso é inaceitável para o regime chinês

 

Em fevereiro de 2018, o governo chinês baixou uma lei que regula as práticas religiosas na China. Em seu artigo segundo, a lei afirma que, precipuamente, “todos os cidadãos têm liberdade religiosa”. No entanto, os artigos seguintes trazem vários “desde que”. Como exemplos, entre outros: a Igreja Católica não pode se sujeitar a autoridades estrangeiras (no caso específico, ao Vaticano); grupos religiosos não podem praticar atividades religiosas fora dos estabelecimentos autorizados nem receber doações; as mensagens religiosas via aplicativos de “chat” passam a ser monitoradas e proibidas; crianças não são permitidas nos cultos, etc.

Em setembro de 2018, a Santa Sé assinou um acordo com a China, reconhecendo a associação como legítima. Segundo o Vaticano, este foi um grande passo para as tratativas com Pequim a respeito da liberdade de crença. Entre outros termos do acordo, a China é reconhecida como autoridade para os bispos que podem ser nomeados pelo Vaticano para liderar a arquidiocese chinesa. Como resultado, em fevereiro de 2020 o Partido Comunista fez algumas alterações naquela famigerada lei de 2018. A partir de então, a lei passou a tolerar algumas das proibições feitas anteriormente; contudo, todas as lideranças religiosas devem aderir à liderança do Partido Comunista Chinês, implementando os valores fundamentais do socialismo e promovendo unidade nacional, harmonia religiosa e estabilidade social. Além disso, as organizações religiosas devem espalhar os princípios do Partido Comunista Chinês e os líderes devem propagar suas doutrinas. Cânticos religiosos são tolerados, mas cânticos socialistas, nacionalistas e em louvor ao Partido Comunista Chinês devem ser incentivados. Até a Bíblia (e o Corão) passará por um processo de nova tradução, aos moldes do Partido Comunista Chinês.

Rafael Fontana, jornalista brasileiro e cristão, que morou na China de 2015 a 2018, relata: “Nas catedrais de Pequim as missas eram realizadas em chinês, inglês, francês, espanhol e italiano. Essas missas eram gravadas em câmeras e também tem funcionário do Partido Comunista monitorando in loco. Teoricamente eles não devem se revelar, mas nas missas em espanhol ou italiano, por exemplo, onde a grande maioria dos fiéis eram estrangeiros, víamos chineses desconhecidos lá, que certamente eram funcionários do Partido. A vida de Padre lá não é fácil. O Padre D. Carlo, da comunidade Italiana/espanhola de Pequim, dava aulas de Italiano para poder complementar a renda, pois o dinheiro não era suficiente. Lembro-me que em setembro de 2018, logo uma semana após a assinatura do acordo entre o Vaticano e Pequim, colocaram um mastro com a bandeira do Partido Comunista Chinês em frente à igreja, o que provocou uma rejeição ainda maior daqueles estrangeiros que frequentavam a Igreja ao Partido Comunista Chinês”. Rafael Fontana foi frequentador, dentre outras, da Catedral do Sul em Pequim, igreja que tem mais de 400 anos (fundada em 1605) e foi projetada pelo Sacerdote Matteo Ricci.

 

Muçulmanos (uigures)

Uigures são uma minoria de muçulmanos que habitam a região de Xinjiang, na China. Tal região é um ninho de tensões há muito tempo. Basicamente, a cultura, a etnia e os costumes do povo uigur não têm semelhança alguma com os chineses (han). Em regra, sequer o característico olho puxado eles têm, além de terem um idioma próprio, do ramo de línguas turcomanas, que é escrito em alfabeto árabe. Outrora dominada pelos uigures, a região, que já foi chamada de “Uigurstão” ou “Turquestão Oriental” até declarou sua independência no início do século, mas foi retomada em 1949 pelo regime comunista.

Apesar de ser considerada pela China uma região autônoma, Pequim exerce fortíssimo controle, o que se transformou em insatisfação e levantes. Como estratégia de dominação, o governo passou a mandar chineses han para trabalhar e povoar a província, de forma que hoje em dia a maioria da população é formada por estes chineses. Os aproximadamente dez milhões de uigures que sobraram são vistos, de forma geral, como terroristas pelo regime. A população chinesa nutre altíssimo grau de preconceito para com os uigures.

Este que aqui vos fala foi – bizarramente – alvo de preconceitos contra uigures por dezenas de vezes quando morava na China. Explico: o fato de eu falar chinês com sotaque e ter feições levemente árabes fazia com que os chineses pensassem ser eu mesmo um uigur. Em algumas situações, garçons recusavam-me atendimento, taxistas não paravam ou, se paravam, ficavam com medo de serem assaltados. Não raro, pessoas na rua xingavam-me com ofensas usadas especialmente contra os uigures e até a polícia já me parou algumas vezes, perguntando se eu era de Urumqi (a capital de Xinjiang).

Em consequência das insatisfações e do sentimento antichinês, em 2013 um carro com uigures atropelou e matou quatro cidadãos pequineses. O governo, então, passou a classificá-los como terroristas e chegou a clamar pelo reconhecimento internacional desta classificação, algo que jamais aconteceu. Ainda assim, o regime os persegue, proibindo que exerçam sua religião (o Islã), prendendo-os sem explicação alguma e os mandando para “campos de reeducação” que não passam, na verdade, de verdadeiros campos de concentração, com lavagem cerebral e tortura.

Estima-se que mais de um milhão de muçulmanos uigures foram presos sem explicação alguma e levados para estes “campos de reeducação”. Segundo Pequim, “tratam-se de centros que oferecem educação voluntária e treinamentos para conter o extremismo”. No entanto, vários organismos internacionais vêm denunciando a prática da tortura, lavagem cerebral e, como não poderia deixar de ser, extração e tráfico de órgãos para transplantes.

Campos de reeducação para uigures não passam de campos de concentração, com lavagem cerebral, tortura e até denúncias de extração e tráfico de órgãos

Em 2019, documentos secretos do Partido Comunista Chinês foram vazados a um consórcio internacional de jornalistas investigativos, que atuaram com várias redes de mídia de vários países. Dentre os documentos, havia um memorando feito pelo secretário-adjunto do Partido Comunista Chinês, Zhu Hailun, com uma série de determinações aos funcionários dos campos, incluindo formas de doutrinação, torturas psicológicas e humilhações. Os documentos faziam ainda referência à quantidades de prisioneiros, como por exemplo quinze mil uigures do sul da província que foram enviados aos campos em apenas uma semana.

A principal missão do Partido Comunista Chinês é impor uma reversão ideológica no povo uigur. Nos campos de concentração, impõem o aprendizado do Mandarim, atribuem pontos pela devoção ao Partido e pelo grau de “deseslamização”. No âmbito público, foram proibidos em Xinjiang referências culturais ao islamismo, como lenços na cabeça, barbas grandes, nomes que soem islâmicos e foram instituídos centros de doutrinação à crianças.

O Partido Comunista Chinês insiste em afirmar que se tratam de métodos para coibir o separatismo, a desordem social e o terrorismo. No entanto, não é necessário ser profundo conhecedor dos métodos comunistas de dominação, doutrinação e lavagem cerebral para saber que a guerra do Partido é contra a liberdade religiosa.

— Eduardo Alves Meira é administrador de empresas e especialista em geopolítica asiática. Foi coordenador do Departamento de Português da Faculdade de Letras no Instituto de Mídia de Hebei.

 


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