extrema-imprensa

Há cinco anos, a grande mídia protestava contra leis de controle da internet; hoje apoia a censura

Fábio Gonçalves · 6 de Julho de 2020 às 18:20

O que mudou?

“Absolutamente assustador”. “Um golpe na democracia”. “É inacreditável”. Foi com essas palavras de espanto e horror que Maria Beltrão, apresentadora do Estúdio I, programa vespertino da Globonews, se referiu, em 2015,  ao Projeto de Lei 1589, o avô do PL das Fake News.

Elaborado pela deputada Soraya Santos (MDB, à época PMDB), o projeto de 2015, apoiado pelo então presidente da Câmara Eduardo Cunha, falava em punir severamente, com pena de até 6 anos de cana, quem, se utilizando de perfis fakes, fizesse críticas mais duras a políticos e espalhasse ódio nas redes sociais — sim, essas palavrinhas mágicas, fake e ódio, já circulavam nas rodas de conversa dos iluminados.

Na ocasião, o colunista da Folha de São Paulo Ronaldo Lemos, convidado do Estúdio I para comentar os meandros daquele projeto ditatorial, ironizou: “O que dá a entender é que os políticos têm um medo danado da internet”. [Não parece um extremista de direita segundo os critérios atuais da Globonews?]

Mas, se é verdadeiro o adágio de Heráclito de Éfeso, segundo o qual não é possível nos banharmos duas vezes no mesmo rio, posto que a realidade esteja em permanente transformação, a regra deve se aplicar também às opiniões dos jornalistas profissionais e aos seus conceitos do que seja “absolutamente assustador”, do que signifique um “golpe na democracia”, do que pareça “inacreditável”. Tudo muda. Tudo é devir.

Isto porque, cinco anos depois, agora em junho de 2020, a mesma Maria Beltrão e o mesmíssimo Ronaldo Lemos, no mesmo Estúdio I, não fizeram as mesmas caretas de indignação ou os mesmos discursos grandiloquentes em defesa da liberdade diante da escalada de censura que temos vivenciado.

Comentando a nova Lei da Censura, Ronaldo Lemos, a despeito de algumas críticas ao texto do senador Alessandro Vieira, endossou a narrativa conspiracionista de que haja grandes redes patrocinadas para disseminar, na internet, o ódio e as fake news — seja lá o que essas signifiquem — e que isso, o que ele chama de “profissionalização do ódio”, deve, sim, ser combatido pelo Estado.

Alegando-se preocupados com essas tais redes de desinformação, políticos e juristas brasileiros procuram há mais de um ano, sem o mínimo sucesso, essas gangues virtuais. Tudo o que se apresentou até agora na CPMI das Fake News ou no Inquérito das Fake News foram ilações, disse-me-disse e mentiras para malbaratar desafetos políticos.

Ainda assim, com base apenas nessas meras alegações, indivíduos — todos de direita — cuja participação em qualquer esquema criminoso jamais ficou comprovada estão sendo presos e amplamente censurados. [E a Beltrão, obediente à dialética de Heráclito, agora não acha assustador, antidemocrático, inacreditável].

Resta claro que toda essa conversa fiada contra notícias falsas e redes de desinformação é a nova desculpa da classe política para calar a boca de seus críticos mais aplicados. A diferença é que agora, diferente de 2015, a grande imprensa, bastante prejudicada pelo sucesso dos meios de informação que vicejam na internet, em defesa dos próprios interesses, se tornou importante aliada dos censores.

Assista aos dois vídeos:

O primeiro, de setembro de 2015, que tem sido compartilhado nos últimos dias, sumiu da plataforma da GloboPlay. Encontramos no YouTube, publicado em maio de 2016.

O segundo, de junho deste ano, está disponível aqui

 


Gostou desse conteúdo? Há muitas outras matérias de excelente nível de informação e análises exclusivas para nossos assinantes. Você pode optar por 3 planos de assintura: a assinatura mensal por apenas 29/mês, a assinatura trimestral, por 87/trimestre e a assinatura anual, por 290/ano (2 mensalidades gratuitas) e garantir acesso a todo o conteúdo premium do Brasil Sem Medo.