ORIENTE MÉDIO

Guerra em Gaza: Propaganda antissemita da grande mídia

Ricardo Gancz · 8 de Agosto de 2022 às 15:51

Professor Ricardo Gancz, correspondente do BSM em Israel, desconstrói a narrativa da mídia brasileira sobre os recentes conflitos em Israel



O plano de fundo é bastante conhecido por quem acompanha o que acontece em Israel e no resto do Oriente Médio. Constantemente, perto do verão, terroristas que são apoiados pelas doações do beautiful people da Europa e dos Estados Unidos, bem como financiados por países como Irã e Qatar, fazem ataques contra civis em Israel. Por vezes, os ataques são com tiros ou facas, não raro dando a impressão de algo isolado. Outras vezes, os ataques são com mísseis e foguetes, exigindo que mães e pais fiquem acordados de madrugada com o medo de ouvir uma sirene e ter que pegar seus filhos e chegar até ao abrigo reforçado antes do tempo previsto para o míssil cair.

Em cada localidade há um tempo estimado. Quem mora em Tel Aviv, por exemplo, tem 90 segundos. Quem mora em Ashkelon, 30 segundos. Em Sderot e entorno, somente 15 segundos para arrancar as crianças da cama e correr escada abaixo até o abrigo do prédio ou, se a pessoa tiver, até um quarto reforçado dentro da própria casa. Durante o período dos ataques, essa situação se repete diversas vezes ao longo do dia e da noite. Em Nachal Oz, por exemplo, hoje (07/08/22), homens, mulheres e crianças tiveram 15 segundos para correr até os abrigos às 12:20, 14:00, 14:03, 14:07, 14:11, 16:02. Ontem, foram outras tantas vezes.

O Governo de Israel é sempre muito lento para reagir e usa a vida dos ciadãos como peões em um jogo de tabuleiro. Se os mísseis não ultrapassam um certo número, não atingem o centro do país e não causam mortes, a decisão militar normalmente é de aguardar, mesmo que as custas do sofrimento de parte do país. Essa lentidão se deve em parte pela visão política de quem está no alto escalão do exército – são abertamente de esquerda, com tonalidades diferentes – e em parte pelo executivo que se curva perante a grande mídia internacional.

Quando há necessidade de agir, a grande mídia imediatamente condena Israel. Relatos são falsificados, mentiras são contadas. Chamadas são feitas de modo a evocar emoções de pena contra os pobres terroristas e seus apoiadores ao mesmo tempo que busca evocar emoções de ódio ao maldito agressor judeu. Conforme já escrevi anteriormente aqui no BSM, a nova retórica antissemita aceita um único tipo de judeu: aquele que se opõe à tradição religiosa tal como cumprida pelos judeus ao longo de mais de dois mil anos; aquele que rejeita os valores judaicos, isto é, os valores conservadores; aquele que rejeita a promessa de Deus para o povo judeu e rejeita a presença judaica em Israel. O judeu aceitável é um antijudeu que só lembra de sua origem judaica para defender a escória antissemita. Como hoje não pega bem usar o termo judeu, usam o termo israelense no lugar e fazem de tudo para criar uma narrativa de ódio à Israel e a todos – judeus ou não – que apoiam Israel.

Vejamos, então, como essa nova retórica antissemita foi aplicada pela grande mídia no Brasil. Irei elencar os seguintes pontos: (1) o contexto; (2) os relatos; (3) o estabelecimento de autoridades; (4) a evocação de emoções.

 

I – O Contexto

Em uma matéria jornalística séria, há pelo menos dois elementos que não podem faltar para descrever a situação atual. O primeiro é o financiamento dos grupos terroristas pelo Irã, que faz parte de qualquer situação envolvendo o Hamas ou a Jihad Islâmica e Israel. O segundo, o motivador pontual para o início deste conflito que, no caso, foi uma operação da Jihad Islâmica de utilizar mísseis teleguiados anti-tanques para atacar civis. O Sistema de defesa de mísseis israelense chamado de Domo de Ferro é incapaz de abater esses mísseis.

Vejamos o que o “jornal” O Globo falou sobre o primeiro (o negrito e o sublinhado é meu):

O Goebbels: A Jihad Islâmica, desde sexta-feira alvo de bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, é uma organização palestina fundada em 1981 que recebe apoio do Irã e tem comprometimento com a resistência armada contra o Estado judeu.

Criado (sic) por estudantes da Universidade Islâmica de Gaza, ela é vista como próxima ao movimento islâmico Hamas, que governa o enclave palestino desde 2007.

Os dois grupos apoiados pelo Irã — o inimigo número 1 de Israel — estão ligados à Irmandade Muçulmana, um movimento fundado no Egito no século 20.

A Jihad Islâmica atua principalmente em Gaza, mas também tem presença na Cisjordânia, um território palestino ocupado militarmente por Israel desde 1967.

O que há em comum entre esses parágrafos? A Jihad Islâmica não é descrita como uma organização terrorista, mas como uma organização criada por universitários que tem apoio do Irã. Igualmente, o Hamas não é descrito como um grupo terrorista, mas tão somente como uma organização islâmica. Os vários ataques com homens-bomba feitos tanto pelo Hamas quanto pela Jihad Islâmica são ignorados e, pelo visto, insuficientes para designá-los como terroristas.

Se isso não bastasse, eles são descritos como tendo comprometimento com a resistência armada contra o Estado judeu. Resistência é quando alguém está te atacando. No contexto de Israel, ela só poderia se aplicar se entendêssemos que o Estado de Israel deva ser destruído e todos os judeus de lá devam ser mortos ou expulsos de modo que a presença de um só judeu em Israel é por si só considerada uma agressão. Essa é precisamente a visão do Hamas e da Jihad Islâmica que o Goebbels está amplificando.

Por outro lado, Israel é quem ocupa militarmente território palestino e que bombardeia a Jihad Islâmica. Para o leitor honesto que não sabe que jamais existiu “território palestino”, o somatório das descrições dá a entender que Israel é a agressora que resolveu bombardear uma organização criada por um grupo de jovens universitários. A concessão d’O Goebbels ao descrevê-los como é comprometido com a resistência armada ajuda a amplificar a impressão de um Golias israelense bravamente combatido pelo David da Jihad Islâmica. Pura propaganda, padrão Goebbels.

Mas, esperem! Onde está a motivação dos “ataques” israelenses? A matéria só irá mencionar alguma coisa bem no final, quando parte dos leitores inclusive já recebeu a informação que julgava necessária e passou para outra. Ainda assim, está escrito da seguinte forma:

Israel disse que os bombardeios contra o enclave foram uma ação preventiva para evitar um ataque iminente contra civis israelenses. Na sexta-feira, o premier Yair Lapid, acusou o grupo armado de ser "um representante do Irã que busca destruir o Estado de Israel e matar israelenses inocentes".

Em um comunicado, a Liga Árabe criticou a “feroz agressão israelense”. A Jordânia destacou a “importância de acabar com a agressão”.

Quando O Goebbels fala negativamente sobre Israel, o tom é incisivo e direto. Israel bombardeia; Israel ocupa; Israel agride. Pouco importa se a ocupação só está na mente de uns. O que importa é a descrição de forma incisiva. Por outro lado, apesar da divulgação sobre a ação militar com mísseis antitanque teleguiados ter sido bastante ampla, a matéria faz somente uma descrição bastante geral.

A motivação israelense se deu pela gravidade da situação. Mísseis teleguiados incapazes de ser abatidos pelo sistema do Domo de Ferro poderiam causar um número imenso de mortes. Israel, então, decidiu que era uma linha vermelha e que os terroristas deveriam ser eliminados.  Lendo somente a notícia, a impressão que dá é que Israel é dando uma desculpa para agredir. Ao retratar a “acusação” do primeiro-ministro Yair Lapid em termos gerais, ignorando a ameaça imediata e concreta, o leitor é certamente induzido novamente a reforçar a mensagem da matéria de Israel como sendo agressora.

Se o leitor ainda estava com algum resquício de dúvida, o parágrafo seguinte, que enfatiza a palavra “agressão” serve para dissipá-la. Para o leitor que chegou até aqui e entendeu que Israel é a grande vilã do conflito, essa afirmação serve para resumir e confirmar.

 

II - Relatos

Vejamos agora dois relatos sobre o conflito. A manchete do ULOL diz: Bombardeios israelenses em Gaza deixaram 24 mortos incluindo 6 crianças, dizem palestinos.

Na Falha de São Paulo, a manchete foi: Israel ataca Faixa de Gaza pelo 2º dia, e número de mortos chega a 24.

Já n’O Goebbels, em matéria publicada há pouco sobre um possível cessar-fogo, o corpo da matéria diz:

Com mediação do Egito, Israel e a Jihad Islâmica mantêm negociações para pôr fim às hostilidades na Faixa de Gaza, onde o número de mortos subiu neste domingo para 31, incluindo seis crianças e quatro mulheres, em meio ao terceiro dia de ataques israelenses contra o território palestino, que também deixou 265 feridos. Segundo vários veículos de imprensa, há previsão de que um acordo seja anunciado às 20h locais

As chamadas para a notícia do Ulol e da Falha bem como o corpo do texto d’O Goebbels deixam implícito que foi Israel que matou todos, deixa a entender que os mortos eram pessoas inocentes e deixam a entender que também as crianças foram mortas por Israel.

Pouco importa que quase todos os mortos eram terroristas, membros da Jihad Islâmica. Pouco importa que Israel cancela operações se irão prejudicar civis (por exemplo, nesta filmagem em tempo real). Pouco importa que os terroristas usem crianças, filhos deles próprios e de seus apoiadores como escudos-humanos para que Israel não os ataque e, se os atacar, que eles possam culpar Israel. Pouco importa que, no caso, haja um vídeo da região onde as crianças morreram com um míssil sendo disparado e explodindo perto dos terroristas.

Sempre haverá um O Goebbels, ULoLs e Falhas de mundo inteiro para fazer propaganda pró-terrorismo. Mesmo que depois admitam que realmente as crianças não morreram por um ataque israelense, os terroristas jamais serão culpados, muitas vezes Israel será culpada de forma indireta e, de qualquer modo, o interesse pelo assunto já terá se esvaído e os efeitos da propaganda não serão reversíveis. Por isso mesmo, Ahmed Tibi, parlamentar árabe, conhecido por apoiar terroristas, culpou Israel pela morte das crianças, mesmo sabendo da existência de provas irrefutáveis do contrário. Seu tweet obviamente repercutiu no mundo e foi bastante retransmitido. Há pouco, ele apagou, mas isso é irrelevante. O que importa é que a propaganda foi realizada com sucesso.

 

III – As autoridades

O que a grande mídia faz normalmente não é inventar dados. Às vezes, eles omitem o que é muito inconveniente para a narrativa e não é de fácil acesso para que o leitor descubra que estão omitindo. Contudo, o principal meio da propaganda feita por ela se dá ao descrever os mesmos fatos de modo a provocar uma determinada reação no leitor.

Junto da descrição dos fatos, há referência a “autoridades”. Por “autoridade” quero dizer testemunhas, grupos, instituições e governos que são usados como fonte para validar algo que está sendo dito ou para apresentar um ponto de vista. A escolha destas autoridades, como elas são descritas, como e por quem elas são contrastadas podem facilmente direcionar o leitor a uma determinada conclusão. Por exemplo, quando dizem que o nosso professor Olavo de Carvalho não foi um filósofo ou que ele não tem respeito entre os acadêmicos e se recusam a publicar uma nota sobre quem fale o contrário, passam para o leitor as seguintes idéias:

1 – Que os acadêmicos têm a capacidade de julgar a obra do professor Olavo;

2 – Que ao menos algum desses o fez, tendo lido toda ou a maior parte de sua obra publicada bem como conhecido toda ou a maior parte de suas aulas gravadas;

3 – Que vários o fizeram e nenhum viu nada de bom ali.

Percebam que enquanto o terceiro elemento é o que está explicitamente afirmado, os dois primeiros são premissas que pegam carona com o que é dito explicitamente e são naturalmente aceitas sem que o leitor perceba.

Neste conflito, o uso de autoridades ficou em torno do governo de Israel, por um lado, e dos terroristas e seus apoiadores, por outro. Por exemplo, com relação às crianças mortas pelos próprios terroristas, a Falha escreveu:

 

O dia teve ainda uma troca de acusações envolvendo a morte de crianças. Segundo o Hamas, algumas delas foram atingidas em um ataque próximo a um campo de refugiados em Jabalia. Israel negou ter feito ações que mirassem a região e atribuiu os óbitos a uma explosão causada por um foguete da Jihad Islâmica cujo lançamento falhou.

Um vídeo, cuja autenticidade não pôde ser verificada de forma independente, mostra o que seria um foguete partindo de Gaza à noite e então tendo o curso desviado, caindo nas cercanias de uma área urbanizada.


Israel e Hamas são tratados de forma similar, como “autoridades” tendo o mesmo valor no tocante a veracidade das informações. Isso fica claro pela escolha do termo “troca de acusações, que subentende acusações feitas por ambos os lados sem nenhuma delas ter alguma comprovação de verdade. A mensagem sobre essa “troca” se dá ao dizer que segundo o Hamas, as crianças foram atingidas por um ataque de Israel e que Israel negou o ataque e atribui a causa a um lançamento falho do foguete.

Apesar de haver um vídeo, a Falha fez questão de colocar a autenticidade em dúvida, muito embora o vídeo seja claramente da localidade em questão, tendo surgido no dia em questão, em horário que a morte das crianças aconteceu. Essa reticência jamais é encontrada no discurso dos terroristas deixa implícito que sequer estávamos falando de duas “autoridades” com o mesmo status. Na verdade, a palavra dos terroristas é mais aceita e mais fidedigna do que a dos israelenses que sofrem com o terror. Qualquer semelhança com o discurso pró-bandido não é mera coincidência.

 

IV – A evocação das emoções

Evocar emoções não é somente usar advérbios de intensidade ou pintar um quadro alarmista. Falando somente de textos, as emoções são evocadas também a partir dos termos escolhidos para serem empregados, na ordem das palavras, na ordenação dentro do próprio texto e sempre em conjunto com o conteúdo do texto em si. Além disso, a sequência de impressões causadas pelo texto, se bem construídas, podem levar a um crescendo que irá culminar na evocação de uma ou mais emoções e na associação destas emoções com o tema em questão.

Um exemplo, é quando após uma sequência de parágrafos que induzem o leitor a idéia de que Israel, a ocupadora, estava agredindo um reles organização criada por estudantes universitários – que sucessivamente geram uma impressão negativa de Israel e positiva dos terroristas – O Goebbels oferece o contraditório, trazendo uma fala em nome do governo de Israel de modo geral e sobre o primeiro-ministro de forma específica. Vou colar novamente o trecho:

Israel disse que os bombardeios contra o enclave foram uma ação preventiva para evitar um ataque iminente contra civis israelenses. Na sexta-feira, o premier Yair Lapid, acusou o grupo armado de ser "um representante do Irã que busca destruir o Estado de Israel e matar israelenses inocentes".

Em um comunicado, a Liga Árabe criticou a "feroz agressão israelense". A Jordânia destacou a "importância de acabar com a agressão".

Para além do que escrevi quando tratei disso pela primeira vez, vale notar o seguinte: o texto vem, desde o início, tratando de Israel negativa, como se ela fosse a agressora. Este é o tom do texto. O fato de O Goebbels oferecer um contraditório causa uma aversão ainda maior no leitor. O motivo é que após o acúmulo de impressões negativas, um ponto de vista oposto iria dar tanta ênfase e gastaria tantas linhas quanto o fez para o outro lado. Isso ou iria oferecer ao leitor pontos de vista efetivamente distintos ou, no mínimo iria abrandar as impressões geradas até aqui. Contudo, quando a “defesa” de Israel é descrita como feita de modo geral e vago, sem nenhuma situação concreta, isso reforça e amplifica a mensagem de Israel como sendo maléfica. Junto com essa amplificação, há o parágrafo sobre a liga árabe que, uma vez em cada frase, descreve Israel como agressora.  

Devemos também observar o emprego dos termos pois a impressão que eles causam no nosso processo imaginativo é muito diferente dependendo da forma que ele é empregado. Imaginem uma situação onde dois carros estavam andando em direção oposta e se encontraram. É muito diferente de quando dois carros estavam correndo em direção oposta e se chocaram. Tanto o uso do verbo que descreve a velocidade dos carros (andando/correndo) quanto do momento da colisão (se encontraram/se chocaram) dão impressões diferentes. Ambas as formas seriam aceitáveis para descrever uma mesma situação, mas a impressão causada pelo leitor quanto à violência da batida é bem diferente. Quando esse tipo de descrição é constantemente aplicado de uma forma a um grupo e de outra forma a outro grupo não há como negar a intencionalidade.

Vejam, por exemplo, que ao descrever o foguete lançado pelos terroristas que ainda assassinaram as crianças em Gaza, toda a descrição é feita de modo a causar uma impressão de dúvida:

Um vídeo, cuja autenticidade não pôde ser verificada de forma independente, mostra o que seria um foguete partindo de Gaza à noite e então tendo o curso desviado, caindo nas cercanias de uma área urbanizada.

O texto começa colocando em dúvida a autenticidade do vídeo, digna de um relações-públicas dos terroristas da Jihad Islâmica. Isso por si só já gera no leitor uma reticência quando ao conteúdo. O texto, claro, constrói a realidade de que o vídeo não teve como ser verificado de maneira independente. Isso, claro, é uma mentira. Mas, soa bem e já bloqueia o leitor quanto ao que aconteceu. Se, no futuro o jornal vier a se retratar, a questão sempre poderá retornar a autencidade do vídeo. (Alguém lembra de como a grande mídia interncional reagiu com relação aos e-mails da Hillary Clinton? E do notebook do Hunter Biden? Aproveito o espaço e digo que quem quiser ver os mais de 100 mil e-mails, pode baixá-los aqui.)

Esse tipo de técnica não é nada mais do que uma distração para que não se discuta questões muito mais urgentes. No caso, é para não ter que descrever, explicar, discutir e julgar a ação dos terroristas e seus apoiadores bem como suas consequências. Após o questionamento da autenticidade do vídeo, o texto se vale do uso do futuro do pretérito (seria) que indica uma condicional. O uso da condicional reforça o questionamento sobre a autenticidade do vídeo e abranda ainda mais a impressão no leitor das ações dos terroristas. Ao invés de evocar choque, raiva, revolta e desgosto sobre terroristas que tentavam lançar foguetes para matar crianças e acabaram matando outras crianças sem querer pois a trajetória do foguete não seguiu como eles planejaram, a impressão gerada é de uma distante possibilidade ou mesmo a de uma alegação fictícia de Israel (afinal, a autenticidade não pôde ser verificada).

Um último exemplo. O andamento da matéria, tal como o andamento de uma música bem construída, gera no leitor/ouvinte uma sequência de impressões que no seu somatório levam a evocação das emoções. No meio digital, os textos vêm acompanhados de fotos e de hiperlinks que podem potencializar a mensagem. Quando começamos a ler sobre um possível cessar-fogo e sobre a agressão israelense que causou 31 mortos, vemos logo dois links para outras notícias sobre Israel:

Moradores de Gaza sentem medo e desespero por escalada de violência entre Israel e Jihad Islâmica

ONU acusa Israel de ser a principal causa do conflito com os palestinos

Via de regra, o leitor não irá interromper a notícia para ler outra sobre o assunto. A manchete, claro, serve para chamar a atenção dele para uma notícia similar. Sejam essas manchetes geradas por um bot, sejam elas estrategicamente colocadas, uma vez que elas tocam no assunto, elas podem amplificar ou reduzir as impressões causadas pelo texto bem como as emoções evocadas. No caso, a manchete fala sobre os moradores de Gaza com medo. Nada fala sobre os moradores de Israel que nos últimos dois dias receberam centenas de 600 foguetes em sua direção.

Antes de ler a manchete para a outra notícia, o leitor já estava sendo levado a ter impressões negativas de Israel. Aqui, a manchete amplifica essas emoções ao mencionar somente os moradores de Gaza. Este efeito é ainda mais potencializado quando o leitor vê a manchete logo em seguida: ONU acusa Israel de ser a principal causa do conflito com os palestinos. Salvo se o leitor acompanha a política em torno da ONU e souber como a organização nada mais é do que um circo ou tiver lido obras como a La Face cachée de l'ONU do Michael Schooyans, a manchete não precisa nem ser lida.

A manchete já informou que Israel é a culpada. Ou seja, que Israel e não os terroristas da Jihad Islâmica que é culpada pelo sofrimento dos moradores de Gaza. Que Israel não reagiu aos ataques terroristas, eliminando-os, mas sim matou civis e crianças covardemente. Aceitando essas premissas, nada mais natural do que aceitar que a Jihad Islâmica é, como disse O Goebbels, uma organização criada por universitários que está comprometida com a resistência armada. Por fim, nada mais natural do que acreditar que é a Jihad Islâmica que merece apoio.


IV – Um último exemplo

Antes de concluir, peço que o leitor se atente a um outro exemplo. Hoje, o Brasil 247 publicou a seguinte manchete:

Ultranacionalistas israelenses invadem Mesquita de Al-Aqsa em meio a bombardeios em Gaza.

A chamada da notícia é assim:  O parlamentar de extrema-direita Itamar Ben-Gvir liderou um dos grupos que invadiram a mesquita.

No corpo da notícia lemos:

A invasão começou por volta das 7h, horário local, e continuou por três horas, enquanto os israelenses marcavam o feriado judaico de Tisha B'av, informa o site Middle East Eye. De acordo com a mídia local, pelo menos 1.000 israelenses invadiram a mesquita pela manhã. Uma nova invasão está planejada entre 13h30 e 14h30, organizada por grupos de extrema-direita que defendem a destruição do local sagrado.

Como parte de um entendimento de décadas entre a Jordânia e Israel, não-muçulmanos não podem realizar nenhum ritual religioso dentro dos limites da Mesquita de Al-Aqsa, nem os símbolos israelenses podem ser exibidos.

O artigo ao menos acertou uma: o dia de hoje é um feriado religioso para os judeus. O dia marca a lembrança da destruição dos dois templos que existiram em Jerusalem. Judeus religiosos no mundo inteiro marcam o dia fazendo jejum completo de comida e água por 25 horas e usam o dia não somente para se lamentar sobre o passado, mas também para fazer uma introspecção sobre os elementos que levaram à destruição, em particular do afastamento de Deus do próprio povo. A introspecção é feita para reconhecer os erros do passado e não cometê-los novamente. Como parte do dia, muitos visitam o Har haBait, que quer dizer Monte do Templo.

O Monte do Templo é um enorme pátio que fica logo atrás do Muro das Lamentações. Neste pátio também há a Mesquita Al Aqsa. Os judeus que sobem no Monte do Templo simplesmente fazem uma caminhada ao longo do perímetro do local sem nem entrar no Domo da Rocha nem na Mesquita Al Aqsa pois pela própria lei judaica uma vez que ambas as construções foram feitas no local onde os templos antigamente se situavam, é proibido entrar lá. As visitas, portanto, são somente ao pátio, passando longe da mesquita.

Sabendo da importância do local para os judeus, uma vez que o Monte do Templo é o local mais sagrado e mais importante para o judaísmo, há uma luta da parte de alguns árabes de impedir completamente toda a qualquer visita ao local. Estamos falando de um pátio, várias dezenas de metros longe da mesquita e de um local onde é comum vermos meninos árabes jogando futebol e jovens fazendo churrasco. Porém, uma vez que este é o símbolo máximo judaico, há um gigantesco esforço para coibir o quanto possível a presença dos judeus.

O esforço já deu seus resultados. Muito embora os judeus possam normalmente entrar no local (como eu já fiz várias vezes), os horários são extremamente limitados e os visitantes não podem rezar, nem mesmo brevemente em silêncio completo. Haver a mera presença de judeus neste pátio (que não tem absolutamente nada de sagrado para os muçulmanos) é motivo de ataque por parte de terroristas e de seus apoiadores. Eles rotineiramente dizem que os judeus estão invadindo a mesquita quando na verdade eles passaram bem longe dela. Foi o que aconteceu hoje.


V - Comparando os dois tipos de propaganda

O gênero da matéria do Brasil 247 é o mesmo das matérias d’O Goebbels, do ULoL e da Falha: são propagandas que visam fazer o leitor a criar uma reação com relação a Israel e aos terroristas. Há um aspecto lógico-racional com dados e um conteúdo, há autoridades que são louvadas e outras que são menosprezadas ou criticadas e há uma tentativa de evocar emoções que são associadas a Israel. No fim das contas, a propaganda não passa de um discurso epidítico cujo objetivo é condenar Israel e associar certas emoções negativas com Israel e todos que a apoiam bem como amortizar qualquer possível reação negativa aos que combatem Israel e todos que a apoiam.

Se o gênero é igual, elas se diferenciam no modus operandi e no público alvo. A matéria de mídias como O Goebbels tendem a partir de alguns dados da realidade e de descrevê-los de modo que o resultado da descrição seja as vezes falso, mas sempre muito parciais e limitados. Esse tipo de mídia se vale de um prestígio de outrora e, com sua propaganda, induz os leitores a reagir emocionalmente perante certos tópicos.

A matéria do Brasil 247 é baseada em uma mentira factual pueril e simples de ser verificada. Por isso mesmo, a grande mídia evita esse tipo de notícia pois ela é facilmente refutável. Ainda assim, o leitor que tenha visto a notícia sem investigar pode facilmente ser enganado e acreditar que além de ter assassinado as crianças, os israelenses ainda invadem mesquitas dos árabes. Chamar os invasores de ultra-nacionalistas e de extrema-direita é só a cereja do bolo. Contudo, o leitor-alvo desse tipo de propaganda é aquele que já possui essa visão negativa e ouvir o nome Israel já gera uma reação emocional negativa. Esse leitor irá acreditar sem questionar e, se alguém apontar que tal notícia não saiu em lugar algum, ele rapidamente irá falar sobre o lobby judaico-sionista que censurou a verdade.

O leitor do O Goebbels de hoje, quando ele já criou aquela reação emocional a certos assuntos já está pronto para entrar nos mistérios do Brasil 247 e da Caros Amigos.

 

VI – Conclusão

Quem chegou até aqui pode me perguntar sobre a necessidade de gastar todo esse tempo para escrever/ler tantas linhas sobre um assunto que talvez seja óbvio. Os motivos são quatro.

O primeiro é que ainda hoje um número muito grande de pessoas não sabe o estado miserável que se encontra o jornalismo hoje em dia.

O segundo é que Israel é vilipendiada no Brasil por toda a máquina de propaganda existente e as vozes dissonantes são afônicas.

O terceiro é que alguém precisa documentar o que acontece hoje.

Finalmente, o motivo mais importante: esta é a realidade que estamos vivendo e é a realidade que nossos filhos e netos irão crescer. A ilustração que aqui apresentei trata de Israel, mas poderia tratar de outros assuntos. Isto é, o mecanismo permanece razoavelmente estável, mudando apenas os particulares. Compreender esse mecanismo é de suma importância para cada pai e mãe que pensa na educação de seus filhos. Alguém há de prepará-los para lidar com essa máquina de propaganda e o preparo só poderá vir de casa.


Ricardo Gancz é doutor em Filosofia, professor de Grego Clássico e Filosofia na Universidade Bar-Ilan, analista político e correspondente do BSM em Israel.

 


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