OTOMANISMO

Governo turco transforma a Basílica de Santa Sofia em mesquita

Brás Oscar · 15 de Julho de 2020 às 10:23

Decreto do presidente Recep Erdoğan choca os cristãos em todo mundo. Entenda por que essa é uma notícia trágica para a civilização

O governo turco vai transformar a Basílica de Santa Sofia em uma Mesquita. A Basílica, que já havia sido transformada em templo islâmico durante o cerco de Constantinopla, era atualmente um museu que simbolizava o compromisso da atual República da Turquia de conviver em harmonia com a herança cristã do país.

No dia 10 de julho, o presidente Recep Tayyip Erdoğan anunciou um decreto que selava o destino de um dos maiores monumentos históricos do mundo. A notícia repercute tragicamente para a Igreja Ortodoxa, principalmente para o patriarcado de Constantinopla, porém tanto cristãos ocidentais quanto orientais lamentam profundamente a situação.
 

A Igreja

A Basílica de Santa Sofia foi construída durante o governo de Justiniano, no Império Romano do Oriente. A obra começou em 532 e foi inaugurada no Natal de 537, em Constantinopla. O título dedicatório “Santa Sofia” não se refere à padroeira das viúvas e uma das primeiras santas da Igreja, mas literalmente à Sabedoria; seu nome completo em grego, Naós tis Agías tou Theoú Sofías, significa literalmente Igreja da Santa Sabedoria de Deus.

Erigida para ser a principal catedral bizantina, apesar do templo que hoje está ali datar do século VI, Santa Sofia tem origens ainda mais profundas. O atual edifício é o terceiro a ocupar o lugar sagrado, cuja primeira Igreja teve a sua construção ordenada em 337, no último ano do reinado de Constantino I, o imperador que reconheceu o cristianismo como religião do Império Romano. A Basílica foi palco das principais coroações bizantinas, testemunhou o cisma da Igreja do Oriente, várias revoltas como a Iconoclastia e a Revolta de Niké, sendo esta última causa da destruição do edifício anterior, que motivou a construção do atual.

Maior catedral do mundo por quase mil anos, até a construção da Catedral de Sevilha, na Espanha, no século XV, Santa Sofia foi tomada por hordas otomanas em 1453. Constantinopla estava cercada pelo Sultão Maomé II, O Conquistador, que autorizou seus homens a saquearem a cidade por três dias. O principal alvo foi a Igreja, que serviu de abrigo a população que se pôs em oração. Os padres foram mortos enquanto oficiavam a missa, os velhos foram mortos, os demais foram levados para serem vendidos nos mercados árabes de escravos. A Igreja foi vandalizada e em seguida, um ulemá recitou a shahada e converteu-a numa mesquita. Constantinopla caiu, o ultimo território do Império Romano caiu, ergueu-se Istambul, a nova capital do Império Turco-Otomano.

A profanação a Santa Sofia durou até 1931, quando Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da moderna República da Turquia, encerrou o funcionamento da mesquita, permitiu a recolocação e recuperação dos artefatos sacros cristãos e transformou a Basílica em um museu.

E agora, em julho de 2020, a decisão de Ataturk foi anulada por um decreto do Presidente Erdoğan. Um pequeno, porém influente grupo islâmico local, ligado à ideologia otomanista, após 15 tentativas judiciais frustradas, encontrou respaldo para seu pedido: a transferência da gestão de Santa Sofia do Ministério da Cultura para a Presidência de Assuntos Religiosos, e a conversão da basílica efetivamente numa mesquita. Erdoğan anunciou que 24 de julho será feita a primeira oração islâmica na futura mesquita, para oficializar o ato.

 

A Turquia e sua relação com a Europa

Um dos primeiros problemas desse quadro geopolítico é estabelecer se a Turquia é parte da Europa ou não. Partindo da convenção que coloca o Estreito de Bósforo como um dos limites entre Europa e Ásia, é por uma porção muito pequena de terra na margem oeste do estreito que a Turquia seria um país transcontinental.

Já o passado daquele território é, sem dúvida, extremamente ocidental. A Troia de Heitor e a Capadócia de São Jorge ficavam no atual território turco. Os anatólios, povo mais antigo conhecido que vivia naquela região, e todos os que os sucederam —frígios, cimérios, lídios e jônios — eram povos caucasianos. Toda a região também é associada ao Império Macedônico, de Alexandre, O Grande, e posteriormente, aos Impérios Romano e Bizantino. Até São Nicolau, a inspiração da tradição do Papai Noel, nasceu na atual Turquia.

Parece redundante dizer, mas, os turcos atuais, apesar de muçulmanos, não são etnicamente árabes. Eles descendem de uma mistura dos povos helênicos que ali vivam com um ramo do povo turcomano, que vivia no Mar Cáspio, entre o que é hoje a Rússia e o Irã, e chegou a região com o avanço do Império Otomano.

De fato, o único vestígio cultural do antigo Império Bizantino é atual Grécia. Os gregos são, resumidamente, os descentes dos bizantinos que não se converteram ao Islã, mantiveram a Igreja Ortodoxa e preservaram a língua grega, idioma oficial do Império Romano do Oriente. Apesar de o Império Otomano ter tolerado essa população cristã, eles não possuíam direitos civis e eram constantemente perseguidos.

A substituição cultural que houve na Turquia, de modo a torná-la, na prática, um país do Oriente Médio, torna muito difícil qualquer pretensão atual de considerá-los como parte da Europa, como é o desejo de muitos turcos, incluindo seu presidente, e também de muitos membros da União Europeia. Se aceitarmos a regra da convenção cartográfica, apenas 3% do país fica na Europa. Se aceitarmos a noção cultural de Europa, aí é que a coisa fica mais dissonante.

97% da população é muçulmana; as minorias cristãs e uma pequena população judaica que ainda subsistem estão cada vez mais legadas a guetos culturais, isso quando não são vítimas de perseguição, como foi o pogrom de Istambul, em 1955, que massacrou violentamente os cristãos de etnia grega, ou o atentado a sinagoga Neve Shalom, em 1986, quando um atirador matou 22 judeus durante o serviço religioso do sábado judaico, ou os carros bombas em frente as duas sinagogas de Istambul, em novembro de 2003, em um atentado comandado pela Frente dos Cavaleiros Islâmicos do Grande Oriente, que matou 20 pessoas e feriu quase 300.

Quando Ataturk fundou a moderna república da Turquia, em 1923, a proposta era, ao findar o teocrático Império Otomano, fundar uma república com valores democráticos mais alinhada ao Ocidente. O país aboliu as diferenças legais entre muçulmanos, cristãos e judeus, garantiu liberdade de culto e levou a termo grandes mudanças econômicas. No entanto, em poucas décadas da nova república pluripartidária, surgiram partidos islâmicos e otomanistas, e instigados por esses últimos, em 1960 o Chipre foi invadido e reclamado pela Turquia.

A propósito, o Presidente Erdoğan dá sinais claros de ser um adepto do otomanismo. Tal ideologia, grosso modo, consiste em reviver na atual Turquia as glórias passadas do ápice do Império Otomano, incluindo seus antigos territórios: a atual Grécia, parte do sudeste europeu avançando até poucos quilômetros ao norte de Budapeste, Israel, toda a terra das duas margens do Mar Vermelho, no Chifre da África e Península Arábica, toda as margens do Mar Negro, boa parte dos territórios aos sul do Mar Cáspio até a margem norte do Golfo Pérsico e boa parte do norte da África.

O lema oficial do Império Otomano era “O Estado Eterno”, e como toda teocracia islâmica, sua natureza era expansionista; seu avanço era tal que, os Estados Papais, os Cavaleiros de Malta, a República de Veneza e o Reino da Espanha se uniram para impedi-lo. Esse episódio, conhecido como Batalha de Lepanto, em 1571, salvou todo o Leste e Centro da Europa de serem islamizados.

No início do não tão distante século XX, o moribundo Império Otomano se aliou ao Império Alemão com a intenção de conseguir apoio para reconquistar esses territórios, e uniram-se à Tríplice Aliança da Primeira Guerra. Numa repetição macabra da história, hoje a principal voz que quer colocar a Turquia para dentro dos portões da Europa é justamente a chanceler alemã Angela Merkel.

Erdoğan vem ao poucos, com uma série de atos públicos, mostrando que apoia o ressurgimento do otomanismo: o fundador do grupo terrorista árabe Fatah, Mahmoud Abbas, foi agraciado publicamente numa cerimônia otomana, e vários termos otomanos já foram reinseridos no vocabulário burocrático e político turco. Seus críticos o acusam de desrespeitar os atuais valores republicanos e seculares e de querer autoproclamar-se como sultão.

A conversão da Basílica de Santa Sofia a uma mesquita, feita pelo Sultão Maomé II, representou, à época, a vitória do Islã sobre o último bastião do Império Romano. Erdoğan, ao repetir o ato de seu herói nacional, obviamente está realizando algo simbólico para seus correligionários otomanistas. Pouco importa se a Basílica atualmente era apenas um museu, prédio secular sem o status canônico de Igreja; a força do ato está justamente nisso: romper uma tradição de tolerância com secular, tipicamente ocidental.

O presidente turco certamente nos dará mais sinais de seus planos de expansionismo islâmico. Primeiramente, o objetivo é o campo cultural/religioso de seu próprio país. Enquanto isso, eles se preparam para entrar na Europa, dessa vez, pela porta da frente, sem um único tiro ou golpe de espada. Erdoğan se valerá da imagem de democracia que a Turquia tenta imprimir há mais de 90 anos, e mudará o discurso quando atingir seu objetivo, isso, de acordo com próprio Erdoğan que disse, em 1994, ao ser eleito prefeito de Istambul: “A democracia é como um trem: quando se chega ao nosso destino, saímos”.

― Brás Oscar é colunista e correspondente do Brasil Sem Medo em Portugal e  coapresentador do programa Conexão Europa no canal PHVox.


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