RELIGIÃO E POLÍTICA

Estado laico ou cristianismo: Quem defende a liberdade?

Braulia Ribeiro · 31 de Agosto de 2022 às 17:19

Um comentário sobre a defesa do “estado laico” feita pelo candidato presidencial do Novo

 



No último domingo, durante o debate dos presidenciáveis da Rede Bandeirantes, um dos candidatos soltou uma pérola que vale a pena comentar. Segundo Luiz Felipe D’Ávila, candidato do partido Novo, - “a única salvaguarda da liberdade religiosa é o estado laico.”

A demonstração de ignorância do Sr. D’Ávila deveria ter sido acompanhada de tosse ou outras expressões enfáticas de desdém. Ao contrário, ninguém protestou, todos aquiesceram como se ele estivesse afirmando que o céu é azul e a grama é verde.

Será que a ignorância dos candidatos é tão grande assim? Ignoram os crimes horríveis cometidos durante a Revolução Francesa em nome da implementação do estado laico, que vitimou até seus próprios idealizadores?  Se o cenário da época se repetisse hoje, o próprio candidato Luiz Felipe D’Ávila em poucos meses teria sua cabeça devidamente removida de seu corpo pela mão de seus adversários políticos.  Vergonhosamente, os debatedores fingiram ignorar os milhões de mortos da União Soviética, um modelo rigorosíssimo de estado laico (como o termo é entendido no Brasil, apesar da Constituição de 1988 prever a colaboração entre a fé e o estado)  ou, ainda melhor para os que desprezam a religião, um estado declaradamente ateu, que vitimou milhões de cristãos, judeus, muçulmanos, intelectuais de todos os tipos e gostos só por se atreverem a discordar do tal governo laico. Seria interessante ver como D’ Ávila se comportaria em um dos campos de concentração da Sibéria.

E o maior estado laico do mundo, a República Popular da China? Se alguns acham que o cristianismo, por representar a “ultrapassada moral ocidental”, merece de alguma forma a perseguição, a nossa velha camarada China é bem eclética nesse quesito. Persegue tudo e todos que ousam se posicionar contra o absoluto domínio político-ideológico criado e imposto ao gosto do Partido. A Revolução Cultural perseguiu até eliminar tradições culturais milenares, como a filosofia de Confúcio, o taoísmo de Zhuang Zhou, tão admirado no ocidente, o budismo e todo vestígio da cultura antiga. À moda dos revolucionários franceses, os jovens soldados de Mao, imbuídos de um zelo que os levava a denunciar até os próprios pais, protagonizaram um período de terror  hoje conhecida como “Terror Vermelho” para reconstruir a sociedade do zero, eliminando as quatro noções “antigas” que representavam a China tradicional: cultura antiga, ideias antigas, hábitos antigos e costumes antigos. Essa política deixou as cidades e universidades sem bibliotecas, sem templos, sem altares e sem igrejas. Até as roupas de vários estilos que representavam diferentes regiões e culturas foram substituídos por um uniforme com as mesmas peças usadas por homens e mulheres porque as diferenças culturais relativas ao gênero também foram eliminadas. Qualquer expressão de criatividade nas artes e na música tinha que se focalizar numa coisa apenas: a grandeza inigualável do representante máximo do Partido Comunista. Caso contrário, seria classificada como vaidade burguesa e banida junto com seus artistas. Apesar da Revolução Cultural ter oficialmente terminado com a morte de Mao em 1976, o PC continua no controle do que seja verdade, cultura e moral na China, e com ele a perseguição religiosa.

Gostaria de desafiar o Sr. Luiz Felipe a visitar os campos de internamento onde os comunistas ainda hoje aprisionam os dissidentes religiosos da minoria muçulmana uyghur por se negarem a renunciar a sua fé. Ou, quem sabe, melhor seria se o Sr. D’ Ávila, Sra. Tebet, Sra. Thronicke, Sr. Gomes, Sr. Lula da Silva, todos eles defensores da famosa laicidade do estado e dos valores seculares da modernidade, fossem convidados a visitar juntos os lugares em que os membros da seita Falun Gong chinesa eram aprisionados. Quem sabe ali eles iriam entender como a “laicidade” do governo informa seu tratamento da diversidade religiosa. Não vou entrar em detalhes sobre o assunto, pesquise você, leitor. Morando em Nova York, tive muitos encontros com dissidentes chineses que imigraram, mas não se esquecem do que passam seus colegas, amigos e familiares debaixo do poder chinês. Alguns deles já velhinhos, trabalham ainda com muito esforço para expor uma injustiça ignorada pelo Ocidente, distribuindo pela cidade folhetos cheios de fotos que expõem a violência a que foram submetidos de uma maneira bem explícita.

Será que tenho de explicar de novo para o Sr. Luiz Felipe D’Ávila que uma análise da influência política da modernidade vai nos conduzir à constatação inevitável da associação da razão com arbitrariedade? Uso o termo “modernidade” em sua definição filosófica.  O que caracteriza a “modernidade” nesse sentido é principalmente a separação entre o divino e da razão. A partir do século XVI, o humanismo renascentista escorrega para fora de sua moldura inicial, que partia do reconhecimento da dignidade humana enquanto criação divina, e cria um novo paradigma em que a dignidade e o valor humano não dependem do ser divino. A razão vai se tornando independente da fé em Deus, até se tornar uma ideia oposta a ela. A razão humana se torna a fé no que é humano. O homem passa a ser a medida de todas as coisas – inclusive a moral.

Essa percepção também presume que podemos criar novas maneiras de ser baseada nos critérios desenvolvidos por nossos sábios, os filósofos e cientistas, sem considerar a tradição moral e religiosa da sociedade, sem levar em conta a experiência humana anterior, o que deu certo na história e o que não deu. Hoje em dia os “progressistas” não se detêm nem diante da configuração biológica do ser humano, e estão renegando concepções antes definidoras de nossa natureza, como a nossa separação dos animais e das máquinas. Esses homens sábios, racionais e laicos são donos absolutos da verdade. Sentem-se capazes de reinventar a própria humanidade e tudo o que ela já criou. Duvida? Escute o grande guru dos milionários globalistas, Yuval Harari. As ideias de Harari epitomizam a arrogância do secularismo racional que aprisiona as mentes ocidentais desde do surgimento da modernidade. Essa arrogância é a base fundamental do movimento revolucionário.

A revolução que é o esforço na direção da destruição sistemática da ordem – depende da crença de que as instituições – ou as tradições religiosas – são a causa do sofrimento humano, e não os indivíduos. A ideia vem do filósofo francês Jean Jacques Rousseau. Sua frase mais famosa todos conhecem: “O homem nasceu livre e em todos os lugares o vejo acorrentado”. A distinção é clara para Rousseau: os seres humanos são intrinsecamente bons e livres, mas as instituições criadas e mantidas pela sociedade os acorrentam. Somos todos inclinados para o bem, mas a sociedade que construímos é que é o problema. Em outras palavras, a ideia de que há um “sistema opressor” que nos destrói isenta a todos da responsabilidade pelo estado das coisas, e ao mesmo tempo aponta um bode expiatório que pode ser dominado coletivamente, sem que seja necessária a transformação moral dos indivíduos.

Reconhecer que o mundo é injusto e que o sofrimento humano é causado por ele próprio seria simples demais. Implicaria na necessidade de responsabilidade individual. É mais fácil culpar monstros imaginários. Ao denunciá-los, isento-me do dever de ser melhor e além disso me torno um salvador da comunidade. Muitos filósofos franceses do iluminismo negavam a existência de Deus e de uma moral transcendente como parte intrínseca do ser humano. A religião, para eles, se tornou um dos “monstros” a serem derrotados para a liberação humana. Uma frase de Denis Diderot, resume o projeto político da Revolução Francesa. “O homem só será livre quando o último rei for enforcado com as vísceras do último clérigo.” A imagem é horrível, mas não podemos deixar de reconhecer seu apelo. Tudo seria muito fácil se isso fosse verdade. Eliminada  toda consciência moral inspirada pela religião, seríamos todos livres do Bem e do Mal e poderíamos viver num paraíso. Só que não. Eliminar a consciência transcendente do Bem e do Mal não elimina o Mal, apenas nos torna incapazes de percebê-lo. O rio de sangue que correu na França durante muitas décadas depois da Revolução nos mostra que a estratégia não funcionou na época, e continuou não funcionando em outras versões em que foi implantada ao longo da história da humanidade.  Quando não existe um Deus que julga quem está no poder o poderoso pode tudo.  Como explicou muito bem Robespierre, a virtude redefine o terror quando à serviço da causa: “Virtude, sem a qual o terror é destrutivo, terror sem o qual a virtude é impotente; terror quando à serviço da justiça, severa e inflexível, é a emanação da virtude”.

A religião cristã aparece nesse cenário como uma força subversiva. A fé em Deus cria um problema político para o tirano porque nos coloca a todos em pé de igualdade. Se existe Deus, eu não posso me arrogar o direito de me apoderar do destino de outros nem posso deixar que outros sequestrem o meu.  A fé nos dá uma régua para medir o próprio Estado. A fé nos mostra quem é o verdadeiro inimigo de uma sociedade sadia. Não são as instituições, não é o famigerado “sistema”. O inimigo é o próprio homem, como nas palavras do filósofo Hobbes, “Homō hominī lúpus” – seres humanos podem ser predatórios e cruéis uns com os outros como os lobos, quando lhes convém. Qualquer polidez civilizada pode se tornar em crueldade selvagem de uma hora para outra. O inimigo da humanidade sempre é o ser humano, assim como a sua esperança.

Essa fé que civiliza não pode ser meramente filosófica, ou de cunho privado, como disse o nosso candidato Luiz Felipe D’ Ávila, em mais um equívoco clássico. A fé precisa ser ancorada na história cristã e nas suas instituições.  Se ela é reduzida ao subjetivismo, torna-se completamente irrelevante.

Para se impor como a alternativa de gênesis social, o Estado laico tem que eliminar os resíduos da fé que permite ao individuo sua independência. Infelizmente, a espiritualidade pós-moderna, desvinculada da tradição religiosa, torna-se conveniente à tirania estatal. Uma vez que eu me desligo de tudo o que faz da religião uma herança universal e histórica, que vai além de minha percepção limitada de indivíduo, eu destruo seu poder de unificação social.

Vamos aprender com o erro do Sr. Luiz Felipe D’ Ávila. O dedo de Bolsonaro apontando para céu, sinal de seu compromisso com um Deus transcendente a quem ele prestará contas e com um sistema moral que ele não inventou, ao contrário de nos ameaçar, pode significar nossa última barreira na defesa da liberdade num mundo que parece cada vez mais fascinado com a tirania estatal.

 


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