IDEOLOGIA

Esoterismo e utopia coletivista: as ideias por trás da Rússia de Putin

Cristian Derosa · 28 de Fevereiro de 2022 às 18:07

Com a promessa de "destruição construtiva", a Rússia vende uma nova ordem para justificar o seu expansionismo

Para entender a ideologia por trás da invasão militar russa à Ucrânia é preciso conhecer a obra do professor Alexander Dugin, da Universidade de Moscou, uma das mentes mais influentes da elite russa. Atualmente, intelectuais, militantes e até membros de governos pelo mundo conhecem o trabalho de Dugin e muitos compartilham de suas teses.

De acordo com a revista Foreign Affairs, o pensamento de Dugin está entre as razões intelecutais que motivaram a anexação da Crimeia à Rússia, em 2014, por Putin. Isso faz do professor um verdadeiro "guru" do presidente russo.

Dugin é hoje talvez o principal nome do chamado neoeurasianismo russo, doutrina que já atendeu pelo nome de "nacional-bolchevismo", espécie de nacionalismo antiliberal que congrega grupos de extrema direita e extrema esquerda. No Brasil, o grupo Nova Resistência é um dos principais representantes dessa corrente, que reúne tanto marxistas ortodoxos quanto pessoas consideradas de direita militarista e antiliberal, como integralistas e grupos antissemitas.

A figura de Vladimir Putin tem gerado fascínio por parte de cristãos e conservadores cansados da passividade (e do pacifismo) ocidental. O liberalismo cultural e a esquerda identitária são causas não apenas combatidas como proibidas na Rússia de Putin. Mas o motivo disso é diferente daquele que os cristãos acreditam.

Nos últimos anos, mesmo conservadores cristãos vêm demonstrando aproximação à figura de Putin, que diz defender a "tradição". No entanto, os eurasianos tradicionalistas não explicam qual a tradição que defendem. Na verdade, Dugin é adepto do tradicionalismo de René Guenón, considerado por Olavo de Carvalho como o precursor e idealizador da atual islamização da Europa. Esse tradicionalismo guarda profundos vínculos com o esoterismo.

O aspecto político de Dugin é indissociável de suas crenças esotéricas. Alexander Dugin criou a sua "quarta teoria política", que propõe dar sequência às teorias políticas que começaram com o liberalismo, o socialismo e o nazifascismo, para acrescentar uma novidade na construção de uma nova polaridade global.

Inimigos da Nova Ordem Mundial ocidental, capitaneada por EUA e Reino Unido e seguida pela maior parte dos países ocidentais, os "duginistas" propõem uma nova ordem coletivista fundada nas tradições (do ponto de vista guenoniano), que contrapõe o materialismo liberal à defesa de religiões tradicionais como suporte espiritual de um estado forte.

Por este motivo, essa corrente seduz e agremia muitos descontentes com a degradação ocidental iniciada no pós-guerra, fruto de movimentos como a Escola de Frankfurt, não por acaso ligado a instrumentos de subversão cultural usados pela extinta União Soviética. Os anticomunistas que vêem na Rússia atual um país que abandonou a antiga ideologia se esquecem (ou ignoram) que a potência nuclear russa jamais aderiu ao esquerdismo progressista autodestrutivo que implantou no Ocidente.

Para Dugin, com o fim da URSS como potência, as decisões globais passaram a ser tomadas apenas por Washington e os velhos "aliados", que dividiram o mundo entre os proponentes da ordem liberal. Não foi à toa que Putin classifica o fim da União Soviética como a "maior tragédia geopolítica" do século passado.

O que à primeira vista pode parecer bastante libertador, porém, vai ganhando cores macabras à medida que se compreende suas verdadeiras intenções. Contra os globalistas ocidentais, os duguinistas oferecem a solução de uma utopia coletivista que traz mitos esotéricos comuns ao nazismo, como os reinos da Atlântida e a terra mitológica de Hiperbórea, da qual os russos e chineses seriam descendentes mais próximos.

No debate com Dugin, Olavo de Carvalho delineou com perfeição a ideologia dos eurasianos, que usa os mesmos mitos esotéricos para justificar o que chamam de "destruição construtiva" do Ocidente. Não por acaso, Dugin utiliza como símbolo de sua teoria a "estrela do caos", associada à aposta no caos e destruição como meio de salvação do Ocidente. Assim, eles buscam repetir a profecia de Guenón, que dizia que ao Ocidente restava a islamização ou a destruição.

Olavo de Carvalho chama a atenção para uma contradição na teoria de Dugin e dos eurasianos: a grande maioria da sua base filosófica está longe de ser oriental, mas se escora em meras ideologias profundamente ocidentais, algumas delas resultado da mesma decadência apontada por eles como inferioridade perante uma civilização coletivista oriental. 

Dugin promete um novo eixo global que compense o fato de não existirem mais potencias rivais dos EUA, representadas antes por Hitler e Stalin.

"A Rússia está criando um mundo realmente multipolar agora. O mundo multipolar é diferente do mundo unipolar porque as decisões semelhantes à que acaba de ser tomada por Moscou podem ser tomadas não apenas em Washington. Essa é a coisa mais importante. Depois que Hitler e Stalin foram embora, os Bush, os Clintons e os Obamas assumiram suas funções. Começaram então as guerras, onde e com quem quisessem, e ao resto foi ordenado: cale a boca e não se mexa. O mundo unipolar é o nazismo liberal. A Rússia se rebelou contra essa ordem mundial. E a Ucrânia, seduzida pelo nazismo liberal, infelizmente, acreditou e sucumbiu à provocação. Por isso, agora está pagando o preço".

 

A "Quarta Teoria Política"

Para Dugin, o mundo demanda uma "nova epistemologia", que precisa superar as três teorias anteriores e apresentar uma nova, com um novo sujeito histórico. Enquanto o liberalismo oferecia o indivíduo como sujeito, vista como causa dos males do individualismo moderno, o socialismo vinha com a classe proletária como detentora da verdade histórica, seguidos pelo fascismo e o nazismo, que acreditavam numa história feita por noções de nação e raça. A nova teoria, segundo Dugin, necessita unir tudo o que funcionou dessas teorias, mas ir além.

Dugin recorre ao ambíguo conceito do filósofo alemão Martin Heidegger (não por acaso um militante nazista) para sugerir um novo sujeito histórico. Seria o "Dasein", ou "ser em si", uma espécie de destino coletivo impresso nos indivíduos de acordo com o pertencimento geográfico, racial e cultural, uma espécie de karma meta-histórico. Mesmo com a dificuldade de compreender esse conceito, Dugin vem ganhando cada vez mais a juventude, além de alguns intelectuais dados a exotismos e tradicionalices. 

Na palestra que Dugin proferiu em 2011, em Curitiba, sentavam-se lado a lado figuras como militares, militantes comunistas ortodoxos, sacerdotes ortodoxos, padres católicos, integralistas, artistas pós-modernistas, góticos, punks e motoqueiros, todos unidos por um único ponto em comum: o ódio à sociedade em que vivem. Dugin foi enfático ao resumir o seu convite: "Conclamamos todos os que estão revoltados com alguma coisa". 

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"