DESCOBRIMENTO

Em defesa do 22 de abril de 1500

Claudio Dirani · 22 de Abril de 2021 às 17:09

Cabral, Caminha, frei Henrique: os 521 anos de uma data que merece justiça histórica




Se fosse possível fazer justiça histórica em relação aos dias que realmente merecem ser feriados, poucos argumentos seriam fortes o bastante para contrariar o 22 de abril de 1500, data que marca o descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral. Acidental ou não, quis o destino que as naus portuguesas chegassem por aqui e escrevessem as páginas de nossa errática saga.

Outro exemplo na linha da meritocracia seria o 13 de maio de 1888 – data da promulgação da Lei Áurea, sancionada por nossa redentora Princesa Isabel Cristina. Sem dúvida, uma comemoração importantíssima, superior a diversos dias do calendário determinados como feriado.

Exatamente hoje, 22 de abril de 2021, recordamos os 521 anos desde que a expedição comandada pelo capitão-mor Pedro Álvares Cabral aportou em um dia de outono no território batizado originalmente como Ilha de Vera Cruz.

A jornada foi longa: 44 dias desde a partida em 9 de março, quando 13 navios saíram de Lisboa – incialmente via Tejo – com o auxílio de uma inovação tecnológica: o astrolábio, capaz de orientar-se pelo sol e pelas estrelas.

Pode-se dizer que a expedição contou com a cobertura da imprensa oficial da época. O responsável pelos relatos da longa expedição foi Pero Vaz de Caminha, encarregado de reportar os detalhes da aventura ao rei de Portugal, Dom Manuel I.

Caminha descreveu assim, em uma histórica carta, os costumes da população nativa, logo ao desembarcar na região conhecida hoje como Porto Seguro, na Bahia:

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma...”

 

Em nome do Pai

Além de reportar sobre a população local em detalhes, coube a Caminha escrever sobre o principal evento para nós, brasileiros, que nos guiamos pela fé. Quatro dias após o desembarque da frota de Cabral, chegara o momento da celebração da primeira missa em solo que um dia viria ser chamado de brasileiro.

A especial cerimônia foi conduzida na praia da Coroa Vermelha, em 26 de abril pelo frei Henrique de Coimbra.

O sacro momento foi relembrado e comunicado a El Rei com as seguintes palavras:

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperável, e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre Frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali era com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vi

nda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção...”

Passados mais de cinco séculos desde missa original no embrião de nosso país, aparentemente percalços legais e normas autoritárias nos remetem a um tempo deveras sombrio, onde a liberdade religiosa corre riscos - sempre “em nome da saúde”.

Porém, é possível concluir que, enquanto restar um pouco do espírito desbravador e da fé cristã dentro dos brasileiros, um melhor futuro poderá ser descoberto – assim como fizera a missão de Cabral em 1500.


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