MANIFESTO BOLSOLAVISTA

Elogio ao palavrão

Fábio Gonçalves · 23 de Maio de 2020 às 20:11

Um texto para ser declamado pelos rapsodos nas praças, pelo velhinho cego na feira, pelos trabalhadores nos telhados das fábricas, pelas mães na vielas da favela, pelos padres nas homilias, pelas donas-de-casa nos mercados, pelos jovens nas escolas, pelo povo espremido nos metrôs, pelas avós nos almoços de domingo, por toda pessoa decente deste país. 

Convoque-se o deus Hermes, o mensageiro, para uma nobre missão: que ele alcance cada alto-empresário do país, os magnatas das mansões colossais, e, estejam onde estiverem, seja num iate rodeado de meretrizes caras, seja no Rotary Club brincando de bingo, seja no meio de uma tacada na sua pista de golfe, bebericando seu martini, não importa o lugar, que o célere deus os encontre e diga-lhes, na fuça:

fodam-se!

Em seguida, ó divindade mercurial, percorra cada palmo desse país e vá ter com cada a um dos políticos de monta, desses tarimbados, de berço, desses que estão agora mesmo conspirando em salas amplas e bem mobiliadas, comendo canapés e emborcando cabernet sauvignons de cepa, fumando os charutos do Fidel, igualmente rodeados de putas, ache-os todos, passe-lhes uma bela rasteira, e, tendo-os ao chão, indignados, desabafe, retumbantemente:

vão para as putas que os pariu!

Depois, ó olimpiano de pés ligeiros, invada cada jantar chique de jornalistas e intelectuais. Invada sorrateiramente esses jantares, desligue a vitrola com o Stravinsky que alegra os seus ouvidos, rabisque ainda mais o Romero Britto que edulcora suas paredes, faça tombar suas estantes de alfarrábios ilustrativos, entorne cada gota do pinot noir milionário que afogueia suas faces, amarrote seus blazers Vuitton, dê uma estilingada travessa em suas gravatas borboletas, desdobre suas pernas, remova o laquê de seus cabelos, sacudo o tabaco de seus cachimbos full-bent, bote um rato preto na bandeja dos crustáceos, e quando eles estiverem já bastante escandalizados, prestes a postarem notas de repúdio na internet, revele vossa face soberana e brade, solenemente:

vão tomar no centro dos vossos cus!

E que, data maxima venia, semelhante procedimento se aplique a todo empolado, a todo posudo profissional, seja promotor, juiz, advogado, ministro, embaixador, diretor escolar, gerente de shopping, CEO – sobretudo CEO de startup –, ator mequetrefe, apresentadora de TV, socialite, diva da moda, quem seja.

E não é que minha mãe e a religião não tenham me incutido decoro. Muito pelo contrário. Ainda ontem estava a ler Dante, a ouvir Brahms, e comprei para minha casa alugada em Diadema uma boa poltrona king, estilo colonial, e cadeiras com estofado florido. Não é má-educação nem falta de civilidade.

Justamente por ter tido formação de gente e cultivar o espírito caridoso, rogo que se grite aos pés dos ouvidos dos meus sofisticados concidadãos os mais horríveis e chocantes palavrões. Talvez assim – e só assim – o ser humano verdadeiro, escondido sob as muitas camadas de autoengano – como diz o Olavo de Carvalho, campeão de xingamentos –, consiga retornar à superfície desta pobre alma, receba na face uma lufada de realidade, e, num ato libertador, urre:

Caralho, como eu era um falso de merda!

Pois, caríssima elite brasileira, o povo está de saco cheio de tratar com mesura e deferência gente comezinha como vocês, gente vil, gente que esconde vícios e maldades terríveis sob a roupa fina e o perfume que o dinheiro lhes dá, sob as comendas conquistadas na base do conchavo, do troca-troca, sob a toga da justiça que a boa reputação com criminosos e o grau trinta e tantos na maçonaria lhes garantiu.

Entendam: a massa popular, a Maria-da-Esquina e o João-Ninguém, estrebucha de raiva quando vocês se dizem chocados, atônitos – beges – com um palavrão, com um comentário deselegante, com – como é que diz o Barroso? – “falta de urbanidade”. E não é barbarismo. É porque a massa brasileira, vossas eminências, é uma massa pobre, sofrida; um massa banguela e maltrapilha que paga imposto caríssimo e recebe bala de bandido em troca; massa cuja escola dos filhos não ensina, cuja mulher tem um marido que enche a cara para não ver os boletos que o salário magro não alcançará quitar, cujo marido tem uma mulher adoentada de desgosto, de desesperança. E porque ainda tem um bocado de canto nesta terra com esgoto a céu aberto, com casa de pau-a-pique,  com gente pegando malária, dengue, zika, febre amarela. Problemas maiores, entendem? Mais urgentes.

Imaginem o quanto o cidadão lá da base da pirâmide não fica puto da cara quando vocês, que estão acostumados a trambiques que até Deus duvida, escrevem bilhetinhos de consternação por causa de um “caralho”, de um “vá pra puta o pariu”. É de cair o cu da bunda.

Como seja, não estamos pedindo nada de mais. O povo só quer jogo limpo, as coisas ditas na franqueza, no duro. Sim-sim, não-não. Fulano é um bosta? Diga-se, altissonante: um bosta! É um estrume? Gritemos: um estrume! Tanto mais se for governador, se for prefeito. Tanto melhor se for dito pelo presidente!  

E, valha-me: não julguem isso marxistamente. Não é implicância de classe. As classes, no meu entender, são vontade de Deus; cada um cumprindo sua função é a definição mesma de justiça segundo o Platão da República. Palavra que sou um partidário de primeira ordem da existência das classes. Palavra. A questão aqui é outra, é decência.

Enfim, a todos vocês que chafurdados na lama nacional se fazem de melindrados com turpilóquios, a todos que sentem profundamente ofendidos por – como vocês chamam? – palavras chulas, desejo ardentemente que uma trosoba caralhuda e imensa e assustadora revolva as suas entranhas, toda noite, pelos séculos dos séculos.